23/05/2012

A máscara de O Teatro Mágico

O Teatro Mágico, como o próprio grupo se define, é uma trupe que tem como bandeira a divulgação de sua música por meios digitais através de downloads das canções, disponibilizadas gratuitamente, além de uso maciço de recursos de mídias como as redes sociais. Com esse discurso de produtores independentes de cultura, O Teatro Mágico tem nos últimos oito anos conquistado muitos fãs, na maioria estudantes do Ensino Médio e universitários, que aderem à sua proposta de interatividade que vai além das mídias sociais. Suas apresentações são uma mistura de show musical, teatro, espetáculo circense com saraus. Todos os integrantes, liderados pelo idealizador e dono do grupo, Fernando Anitelli, usam maquiagem de palhaço. A diferenciação está na maquiagem do líder, uma espécie de cópia da máscara de Coringa, arquirrival do personagem dos quadrinhos Batman. A imagem de Anitelli, apesar do apelo em entrevistas de um certo espírito de coletivismo, se sobrepõe sobre os demais integrantes nos materiais de divulgação. Ou ele está representado isoladamente - tal como no cd 'Segundo Ato, onde ele é mostrado segurando uma máscara acompanhado com ilustrações subliminares de uma vagina dilatada sendo cortejada por um espermatozoide - ou então em fotos onde o grupo é mostrado em estilo grupo de pagode com ele a frente do grupo disposto em 'v'.

As músicas são do próprio Fernando Anitelli em composições de parcerias. Há uma pretensão literária em suas letras, algo explícito em entrevistas de Anitelli e repetido nos depoimentos de fãs d' O Teatro Mágico. O último disco da trilogia do OTM é apresentado como um trabalho que ''representa o amadurecimento musical da banda no último período''. O Teatro é um pacote e tem data para acabar. Como sendo um produto cultural 'validado', talvez daí venha de modo implícito o grande sucesso entre os jovens principalmente, sempre ávidos por vanguardas. O referido cd é o 'A sociedade do espetáculo', termo cunhado por Guy Debord (1931-1994), filósofo francês que fez vários estudos culturais e de comunicação sob uma perspectiva marxista. Neste trabalho, uma das músicas O mundo não vale o mundo meu bem é mostrada como de inspiração 'drummondiana'. Esse é o mote principal do grupo - o discurso do diálogo com formas ''elevadas'' de cultura (entre elas a literatura), tentando desviar o trajeto da trupe em relação às formas industrializadas de produção musical e cultural atuais.

A questão é que o público principal do grupo de Anitelli são jovens, geralmente os de melhor instrução com acesso a bens culturais inacessíveis a grande parte da população. Um desses bens culturais seriam estudos de língua portuguesa e literatura, literatura que nem sempre é estudada de modo tradicional. É comum entre professores de língua portuguesa a utilização de textos de música popular brasileira para o desenvolvimento de suas aulas. Chico Buarque, Caetano, Renato Russo, Cazuza, e mais recentemente rap, são recorrentes em leituras e exercícios nessas aulas. O problema maior não é a utilização desses autores, que certamente tem seu valor, mas a utilização única e exclusiva desses autores que, podem ter bebido em fontes de escritores, mas nunca poderão ser comparados a eles. E nessa falha de referenciais de textos autênticos, que certamente deixam lacunas no aprendizado dos alunos, é que se sustém a aura vanguardista de O Teatro Mágico. As letras do grupo, em si, não possuem elementos literários, mas sim o puro e simples jogo de palavras, trava-línguas, comparações. Não existem figuras de linguagem tais como metáforas (p. ex ''Lua, balão dourado sobre mim''), hipérboles ou exageros (p. ex.''Vou te dar a lua''), paradoxos (p. ex. ''Eu amo enquanto te odeio''), prosopopeias ou personificações (''A chuva sussurrou no meu ouvido''). Enfim, esses referenciais não são vistos nas obras do grupo. 

Abaixo, alguns trechos (em itálico) de três composições de OTM, que desenvolvem este argumento acima. Eles estão em ordem cronológica de suas produções: 'Entrada para raros' (2003), prosseguindo com 'Segundo Ato' (2008) e com o atual 'A Sociedade do Espetáculo' (2012). O primeiro texto é Sintaxe à vontade, de Fernando Anitelli:

Sintaxe à vontade 


Sem horas e sem dores, 
Respeitável público pagão, 
Bem-vindos ao teatro magico. 

A partir de sempre 
Toda cura pertence a nós. 
Toda resposta e dúvida. 
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser, 
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto. 
Nenhum predicado será prejudicado, 
Nem tampouco a frase, nem a crase, nem a vírgula e ponto final! 
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas, 
E estar entre vírgulas pode ser aposto, 
E eu aposto o oposto: que vou cativar a todos 

O uso da palavra sintaxe (estudo gramatical que analisa na frase os arranjos tais como o sujeito, o predicado, o objeto direto , o indireto,etc) é o tema, que é confundido com 'sinta-se'. Há referências a termos gramaticais, ''aposto''(que é associado com ''oposto''), predicado (que é associado a 'prejudicado'). Nada além disso. O destaque é mesmo os jogos de palavras, comuns em práticas pedagógicas com alunos do ensino fundamental das primeiras séries, mas certamente defasadas para um público de nível secundário ou universitário. A composição, certamente estaria adequada na redação de um programa humorístico de conteúdo familiar e acessível a todos. A seguir , um trecho de Pena de Fernando Anitelli e Maíra Viana: 

Pena 


O poeta pena quando cai o pano 
E o pano cai 
Um sorriso por ingresso 
Falta assunto, falta acesso 
Talento traduzido em cédula 

E a cédula tronco é a cédula mãe solteira 

O poeta pena quando cai o pano 
E o pano cai 
Acordes em oferta, cordel em promoção 
A Prosa presa em papel de bala 
Música rara em liquidação 

E quando o nó cegar 
Deixa desatar em nós 
Solta a prosa presa 
A Luz acesa 
Lá se dorme um Sol em mim menor 

Aqui temos uma brincadeira da ''língua do p''. ''O poeta pena quando cai o pano/ E o pano cai''. Mas não avança mais do que isso,além da associação de 'poeta' e 'pena' (pena com significado de sofrimento e de caneta). Os trocadilhos seguem - ''cédula tronco'' (célula tronco) é a ''cédula mãe (célula mãe) solteira''. E que venham as associações: ''E quando o nó cegar''/''A luz acesa/Lá se dorme um Sol em mim menor''. É pouco motivador saber que uma composição se utiliza de significações do dicionário, ainda mais sabendo que inúmeras palavras do dicionário tem mais de uma significação. Banco (casa de poupança), banco (da praça), banco (de areia) e por aí vai. O que Anitelli propõe é o óbvio exercício de aproximação, algo semelhante àquelas composições que se fazem na escola com recortes de palavras de revista, compondo-se palavras, frases e períodos. 

A seguir, o epílogo da trilogia com Esse mundo não vale o mundo meu bem, onde temos uma diferenciação - infelizmente não no estilo, mas, na ideologia. Nesta última composição analisada, além dos monótonos jogos de palavras, há o engajamento. A parceria universal e fraterna é composta pelos irmãos Fernando e Gustavo Anitelli: 

Esse Mundo Não Vale o Mundo meu bem 


É preciso ter pra ser ou não ser 
Eis a questão 
Ter direito ao corpo e ao proceder 
Sem inquisição 
A impostura cega, absurda e imunda 
A quem convém? 
Esta hétero-intolerância branca te faz refém 

Esse mundo não vale o mundo meu bem 

Grita a Terra mãe que nos pariu: Parou 
Beleza de natureza vã e vil, cegou 
Ser indiferente ao ser diferente 
É sem senso. 
Agoniza um povo estatisticamente, seu tempo 

Na maneira, que for 
Na bandeira, na cor 

Colonizam o grão, as dores da estação 
Somos massas e amostras 
Contaminam o chão, família e tradição 
Nossas castas encostas 

Esqueçamos os óbvios ''Grita a Terra mãe que nos pariu: Parou'' ou então o ''Beleza de natureza vã e vil, cegou'' que podem ser encontrados a varejo em semelhantes de certos setores sofisticadíssimos da MPB. Atentemos para o discurso novo, talvez alimentado pelo entusiasmo para com novas correntes ongueiras, dissociadas dos referenciais históricos, éticos e culturais que são jogados na vala das intenções vanguardistas. Anitelli aposta na mais marqueteiras formas de pensamento, tomando carona no mainstream modernoso, leitor de orelhas de livros, capenga, que quer transformar o mundo, mas que não sabe nem governar a própria cozinha. 

É lamentável ter que deglutir trechos sem estética, como em ''Ter direito ao corpo e ao proceder / Sem inquisição/ A impostura cega, absurda e imunda/ A quem convém/ Esta hétero-intolerância branca te faz refém/ Contaminam o chão, família e tradição''. Anitelli abusa do tom ao, seguindo a corrente atual, associar clichés históricos e sociológicos misturados com uma boa dose do tempero demagógico. Aonde se encontram indícios que a heterossexualidade é prerrogativa branca? A associação de palavras - idéias - espúrias (''direito ao corpo inquisição/impostura cega, absurda e imunda/intolerância branca te faz refém'') somente faz confundir, trapacear e simular de forma parcial, temas que deveriam ser iluminados de forma competente através da música, cinema, literatura, enfim, da arte. Arte e competência que infelizmente faltam ao O Teatro Mágico. 

Somos um país racista, das senzalas e elevadores de serviço. Violento. Desumano. Corrupto. Entretanto, pegar conceitos esterotipificados e no mais abjeto processo de pasteurização cultural impor aos jovens e ao público em geral a reescrita de seus ideais, que pelo andar da carruagem - ou da trilogia - não são tão nobres assim, é forçar a nota. Mesmo que se arrogue o justificativa da mudança. O que é mais frustrante é saber, que mesmo se arrogando independente, vanguardista e inovador, O Teatro Mágico é o mais do mesmo. Disponibiliza músicas em um período onde o cantor/compositor ganha irrisoriamente por vendas de cd's. Faz coro contra o mainstream cultural, mas canta em salas de espetáculos ''nobres'' e caras. Tem o discurso da fraternidade incondicional, mas a refuta ao abraçar ideologias imediatas que satisfazem suas necessidades ideológicas imediatas que afrontam os seus semelhantes, suas crenças, histórias, posturas morais e éticas. E o mais frustrante ainda, entre aquilo que já não poderia ser mais desabonador, é saber que muitos continuam bebendo da fonte jorrada por Anitelli e sua trupe. São jovens que em pouco tempo terão suas vidas mundo afora alimentados certamente pelos conceitos pseudo-sofisticados do O Teatro Mágico. É sabido que Anitelli tem tido problemas de alergia devido à maquiagem facial. Quando a máscara cair e o circo tiver descido a lona, o estrago já estará feito. Ele contará os lucros, enquanto o público jovem, já tão manipulado e mal orientado por educadores, mídia, profissionais da cultura em geral ainda terá ecoando em suas mentes, forçadamente sub-letradas, a didática nada fraterna da trilogia de O Teatro Mágico. 

21/05/2012

Plutocracia televisiva

O programa 'Agora é tarde' de Danilo Gentili apresentou em uma de suas edições,  durante o quadro Mesa Vermelha (uma espécie de resenha), um trecho do programa 'Caldeirão do Huck', onde o apresentador Luciano Huck interagia com uma dançarina de escola de samba. Neste vídeo, um descontraído Huck perguntava qual era a profissão da moça (ela era professora de Língua Portuguesa) para, em sequência, pedir para que ela repetisse algumas palavras complexas, além do trava-língua 'Em um ninho de mafagafos'. De pronto ela respondeu a ele que era professora e não fonoaudióloga. Ao fim da exibição do vídeo, Ronald Rios, que é repórter do 'CQC', afirmou de modo jocoso, que Huck não consegue viver com a ideia que alguém pode ter 'dois talentos'. E ainda salientou que Luciano Huck teve entre suas criações as dançarinas Feiticeira e Tiazinha, além de ter copiado a ideia do programa 'Pimp my ride' da MTV americana, que 'repagina' carros velhos de telespectadores. Detalhe: neste programa, o participante não precisa se submeter a provas vexatórias, para fazer jus à reforma.

Luciano Huck, faz parte de uma linhagem, tal como Roberto Justus e em menor escala, João Dória Jr, que poderia ser chamada de 'plutocracia televisiva'. Trazem à televisão, além de conteúdos agregados aos seus talentos individuais e suas imagens, também um conceito diferente daquele geralmente associado às pessoas do veículo, um tipo de ideal de bem-aventurança já construído mesmo antes do ingresso nas mídias onde trabalham. Esse ideal de profissionais de mídia bem sucedidos, ligado a uma imagem de habilidade nos negócios e  administração da carreira parece ser um fenômeno pós 1990, quando diretores executivos (também conhecidos como CEO's) começaram a ganhar destaque em noticiários, jornais em revistas, sendo alardeados como novos referenciais de visão empreendedora, empenho pessoal, arrojo e senso de oportunidade. Seriam, de forma abreviada, novos ícones neo-liberais. 

Além de terem suas trajetórias vislumbradas pela mídia especializada em economia e negócios, seus exemplos de bem-aventurança foram disponibilizados para o público leigo por meios de livros best-sellers de auto- ajuda, com dicas de conduta para se chegar ao sucesso profissional e pessoal. Verdadeiros manuais para aqueles que vislumbravam algo a mais do que uma carreira modesta acompanhada de uma modesta visualização social, comumente propagada como algo secundário, mas de modo pragmático, requisitada em qualquer núcleo social. Jack Welch, Abílio Diniz, Donald Trump entre outros gurus começaram a discorrer, para o leitor necessitado de iluminações e dicas para suas carreiras, como venceram os desafios, inovaram subjugando propostas ultrapassadas, lideraram grupos, instituíram novos conceitos, assegurando seus nomes entre aqueles que fazem a diferença no inclemente mundo corporativo. Enfim, como fizeram, cada qual a seu modo, suas reengenharias. Reengenharia é um termo muito recorrente nesse meio empresarial, algo como 'reajustes operacionais' - eufemismo para readequações que culminam quase sempre em demissões, terceirizações, precarização de contratos trabalhistas, entre outros 'reajustes'.

Mas o grande desafio no caso específico dos 'bem-aventurados' nos negócios que enveredaram pelos corredores da mídia televisiva, difundindo seus valores e conceitos através das telas dos mais diversos telespectadores, é conseguir justificar seus talentos de comunicadores, eliminando a desconfiança que o público em geral tem para com eles e em relação a seus eventuais potenciais de apresentadores. Algo que tire o estigma de aventureiros em busca de 'realizações egocêntricas', que mostre ao público que eles tem potencial para transformar suas habilidades de gerência em algo   mais subjetivo  e mais empático, e consequentemente, mais artístico. O apresentador Silvio Santo talvez transmita isso, já que consegue conciliar as facetas de administrador e artista de forma satisfatória diante do público.

Entretanto - e isso pode ser justificado pelo comentário de Ronald Rios - essa é uma possibilidade que ainda não foi atingida pelos 'novos artistas' televisivos citados. Analisando-os um a um, não temos boas perspectivas. Peguemos inicialmente Dória Jr, que parece mais um propagandista nato das virtudes (ninguém quer questioná-las aqui) dos entrevistadores em seu 'Show Business', com citações de casuísmos  e anedotas de 'homens de valor' que deixam qualquer 'mortal' telespectador ressabiado, pedindo para que o programa acabe logo. Já sua performance de showman no nefando 'O Aprendiz', quando assume o chefe 'morde-assopra' é de fazer arrepiar os cabelos já arrepiados de Donald Trump. 

O que dizer então de Roberto Justus, o apresentador-cantor que, de forma canastrona personificou a megalomania filistina misturada a um toque de brejeirice tupiniquim? Como justificar a encenação de si próprio, dialogando com seu próprio ego em situações de um reality show que, enevoado sob a aura de entretenimento pedagógico, traduz o que há de mais caricatural e 'representativo' do mundo corporativo? 

Finalizando, como justificar Luciano Huck, o mais palatável e bem sucedido dos self made men que continua a sua sina de apresentador iniciada 'por cima' quando, empresário da noite, arrendava horários de madrugada na televisão para fazer sua versão 'Amaury Jr. descolada'? Como ser condescendente com alguém que lançou dois 'personagens fetiches sexuais', além de cópias de quadros de  programas  tanto nacionais  quanto estrangeiros? Luciano, por ser o mais novo dos três apresentadores, poderia olhar para sua trajetória e repensá-la com mais atenção. Um bom talento pode valer mais do que mil moedas. Mas quem tem mil moedas, talvez não encontre um talento disponível para aquisição imediata, mesmo que procure de modo eficiente dia e noite.


25/03/2012

A adorada Adele

Se a cantora inglesa Adele, 21, tem em seus diferenciais - além do seu talento notório - o fato de não possuir o sex appeal, ou não ter talento para dança ou despreocupação com a própria estética (a cantora afirmou que não faz música para os olhos e sim para os ouvidos), o que realmente a destaca entre as outras cantoras contemporâneas de modo efetivo é o recorte de sua músicas. Um recorte que a faz singular no meio artístico.

Alguns afirmam que sua música é deprimente o que é improvável. Adele, a despeito de ter em seu repertório momentos de introspecção e tristeza, rejeita esse rótulo. Em Someone like you (Alguém como você), em momentos de intimismo raros na música de hoje ela afirma: ''Deixe para lá, eu vou encontrar alguém como você/ Eu não desejo nada, além do melhor para você / Não se esqueça de mim, eu peço, eu lembro do que você disse / Algumas vezes o amor permanece, mas em outras vezes o que resta são as feridas.''

Poucas vezes temos a possibilidade de presenciar um destacamento notável, tanto em relação à obra, quanto ao artista. Adele poderia ser confundida com uma colegial em um festival, com seu gestual contido, o jeito tímido, o anti-estrelismo. Ela parece renegar o veredito de Marshall McLuhan (1911-1980), pesquisador da teoria da comunicação. Em seu livro The Medium is The Message, de 1967 (O meio é a mensagem), o professor McLuhan afirma:

''O mundo instantâneo dos meios de informação elétricos (eletrônicos) envolve todos nós, de uma só vez. Nenhuma separação da composição é possível.''

Sob essa perspectiva de McLuhan, tudo se confunde em uma só composição, isso podendo ser levado para o campo da mídia, publicidade, artes. A sociedade influencia a publicidade, ou contrário? Vejamos as novas tecnologias visuais em 3D, um recurso que 'põe' o espectador dentro do contexto, fazendo-o participar de situações onde antes ele era passivamente um mero contemplador. Há uma fusão entre observador/leitor/espectador com o referencial artístico/literário/cinematográfico e televisivo. 

E nessa mistura é quase impossível de delimitar aonde termina a arte e começa o artista. A vida de artista no mundo contemporâneo é algo que se agrega à sua imagem, tornando pública suas virtudes e desvirtudes. Notícias sobre celebridades (de preferência 'reveladoras') abastecem um mercado lucrativo do mundo midiático. Artistas fundem-se com personagens de seus filmes, cantores não conseguem dissociar as performances do palco e imaginam estar em um ininterrupto festival, onde as estrelas são eles. Porém, um artista diuturno é algo possível?

Quando se ouve uma canção de Adele, tomando por exemplo a citada Someone like you, mesmo que o ouvinte não tenha vivido alguma desilusão semelhante àquela narrada da música, tem a percepção do aspecto autobiográfico da canção. Toma para si, vivencia, aprecia emoções juntamente com o teor intimista - intimista não por ser algo pessoal, mas por mostrar sentimentos universais em uma música justamente classificada como intimista.

Adele canta como uma pessoa (artista) que canta para outras pessoas (público). Aqui vale o destaque para a palavra público, com sua significação desgastada. Ela diz que tem medo de cantar em público (uma vez fugiu pela saída de incêndio) e não gosta de turnês. O que em um artista 'engajado' dentro do repertório do show business seria uma declaração narcisista e voluntariosa, em Adele soa natural, tal qual sua despreocupação com a estética não faça relevância para sua obra. O que importa é a voz e a capacidade de observação para novas composições. Enquanto seguir o que tem feito, terá público que apreciará suas músicas. Ele será mais levado pela qualidade de suas composições do que por outras características, como o mero impacto visual ou comportamental, induzindo o público a serem meros consumidores (fãs passivos) de produtos culturais que dispensem qualquer subjetividade em sua apreciação.



The Medium is the Message - An inventory of Effects, Marshall MCLuhan e Quentin Fiore, Bantam Books, New York, 1967

20/02/2012

O lamento das balzaquianas

O cantor, compositor e ator Moacyr Franco, ao retratar sua fase atual de solteiro (ele está separado há dois anos de sua última mulher, Dani Franco), explanou o que pensa sobre os atuais relacionamentos, em especial sobre as mulheres contemporâneas: “É muito complicado pra mim sentar com uma moça de 50 anos que queira conversar sobre ‘ah, essa vida é muito triste’. Eu não aguento. Não é meu papo esse aí. Minha conversa é outra. Quero viver o que virá”.

A mídia pouco relata essa fase dos homens, que parece invisível ou então pouco complexa para a sociedade - a fase da separação e da tentativa de reconstrução de novos laços afetivos que poderão resultar em uma nova família. Sempre quando há o desmanche de um núcleo familiar, a mulher é o foco, pois, justamente, arroga a si a guarda dos filhos, além dos anseios (legítimos, evidente) de construir nova vida ao lado de alguém que a faça feliz. No cinema temos alguns poucos exemplos de obras que retratam o lado masculino, não apenas de modo individualizado, mas sob a ótica complexa da reescrita de suas vidas, além das de seus filhos sob suas guardas. Em ''Kramer vs. Kramer'', EUA, 1980, o protagonista vivido por Dustin Hoffman vive o dilema de se dividir entre o papel de pai (ele fica com a custódia temporária do filho, pelo qual luta na justiça com a mulher), provedor e homem. Ted Kramer é um publicitário atarefado, que entre suas obrigações de trabalho, tenta arrumar tempo para dar atenção e carinho a seu filho Billy.

Já em ''À procura da felicidade'', EUA, 2007, Will Smith vive um vendedor de aparelhos médicos falido que, abandonado pela mulher que não aguenta a perspectiva de uma vida - mesmo que momentânea - de privações, tenta se reerguer ao lado do pequeno filho, em um filme baseado em uma história real, que demonstra a todos ser possível driblar as adversidades quando se tem em foco a direção do destino de nossas vidas, seja individualmente ou ao lado de alguém.

Poderíamos ler a frase de Moacyr Franco sob uma ótica individualista, quase hedonista. Ele poderia estar querendo ser mais seletivo, pois com a idade que tem e com a experiência em relacionamentos bem sucedidos (ou não tão bem sucedidos assim), seria um direito dele escolher aquela com quem quer passar o resto de sua vida. Entretanto, mais do que algo subjetivo, a fala do showman retrata uma realidade mais intensa do que a percepção coletiva presume.

O homem, na sociedade contemporânea, é visto como um provedor - mesmo que exista um discurso dissociativo sobre isso - sendo que suas prioridades primeiras, sob essa ótica, seriam a manutenção do bem-estar da ex-companheira e de seus eventuais filhos. No quesito 'manutenção', não há o que contestar, haja vista o número assombroso de processos de pedidos de pensão alimentar feitos por mulheres que, sem fazermos julgamentos de valores ou direitos, são as únicas personagens sociais que estariam dispostas a reconstruir suas vidas e terem novos laços afetivos e matrimoniais. O homem aqui, seria apenas coadjuvante, nessa nova sociedade de uniões familiares cada vez mais açodadas que resultam em finais não tão felizes quanto os filmes nos mostram. Mas buscando algo prático e que nos mostre o que significa realmente a fala de Franco sobre suas preferências comportamentais de eventuais mulheres que queiram estar ao seu lado, o que faz com que essa mesma fala seja tão real, quase incontestável e que vai na contra-mão de um ideário que tem sido repetido exaustivamente há anos e que nos diz que todos -homens e mulheres - tem direito a uma segunda chance em relacionamentos, sendo que nessa segunda chance devemos desconsiderar a fase em que ela pode ocorrer?

Se as balzaquianas - termo vindo da obra 'A mulher de Trinta Anos', de Honoré de Balzac (1799-1850) que retrata uma mulher madura e que mantem ainda atrativos pouco notados pela sociedade até então - estão mesmo perdendo seu brilho, é difícil afirmar. Apenas poderíamos especular que elas, de acordo com a realidade de nossos dias, se adequam bem ao retrato feito por Moacyr Franco. Mesmo que a mídia, teledramaturgia, cinema, pintem com cores emocionantes e arrebatadoras os relacionamentos das mulheres de trinta anos atuais, com romances com homens mais novos em romances de 'tirar o fôlego', a realidade tem demonstrado que não são tão prodigiosas suas tentativas de redirecionamento de suas vidas amorosas e familiares.

Levando em consideração que a faixa de maior números de matrimônios está entre 30 e 39 anos (IBGE) - ou seja, uma fase 'balzaquiana', nada mais natural, pela moral vigente na sociedade, que os casamentos que venham a fracassar, ocorram durante, ou além dessa faixa etária. E lembremos que, com a modernização e desenvolvimento da ciência, a expectativa de vida é muito maior do que aquela dos tempos de Balzac e de nossos avós, o que poderia nos permitir dizer que as balzaquianas atuais estariam com idade além dos 40 (até mesmo na faixa dos 50 anos, a faixa das moças apontada por Franco). E essas moças, de modo empírico, têm a mesma disposição de reconstruir família assim como os moços têm? Estariam as balzaquianas do século 21 dispostas a renunciar o ego tão inflamado pelas conquistas femininas recentes, que, para o bem ou para o mal, tem colocado as mulheres em patamares por vezes inflacionados ou desvirtuados, de modo que seja dificultoso que tais mulheres percebam suas realidades sem projeções ou equívocos que muitas vezes são a causa de infortúnios em seus relacionamentos?

O homem, quando se separa, quer reconstruir uma nova vida. Ao lado de alguém que o ame. Quer ter filhos, um lar. Sendo convencional a guarda dos filhos por parte da mulher, é então também convencional que ele procure uma companheira que destoe um pouco de sua faixa etária, para que ela lhe dê outros ou novos filhos (estamos levando em consideração também que os avanços médicos permitem gestações tardias, com recursos de fertilização, entre outros, daí a faixa etária da nova companheira pode variar também). Deixando de lado a repulsa do discurso bem intencionado modernizado, o homem quer deixar herdeiros. Se soa 'patriarcal e tradicionalista' para alguns ouvidos, esse anseio masculino é legítimo e pouco ou nada há para se fazer. Sim, há outras possibilidades de se ter filhos, como a adoção, mas tudo aponta que para uma reconstrução familiar ao lado de uma mulher que lhe dê filhos, o homem escolha uma companheira em período fértil.

Como fazer então para que o brilho das balzaquianas volte? A sugestão de resignação feminina seria algo irracional, pois todos temos direito a uma segunda, terceira ou mais chances. O que precisaríamos aqui é fazer uma tentativa de reorganizar paradigmas que reinam absolutos e que não colaboram em nada nessas situações de relacionamento. Uma possibilidade é uma releitura por parte das mulheres, do que vem a ser família. Porque, mesmo nos dias atuais, a mulher que se divorcia, arroga a si o direito do 'poder familiar', o que pode ser danoso sob todos os aspectos, tanto familiar, quanto social. Como dissuadir a mulher da ideia que ' a família é sua' - leia-se filhos e congêneres? Quantas tentativas de reconstrução familiar são fracassadas por causa da ótica feminina distorcida, que sob o impulso da emoção, vê em indivíduos mal-intencionados e despreparados o combustível que fará com que sua vida seja ainda mais marcada por dissabores na vida familiar e amorosa? 

A mulher precisaria aprender a assumir responsabilidades para que as possibilidades de reconstrução se multipliquem e que os 'lamentos de balzaquianas' não sejam a única herança de suas escolhas nos relacionamentos. Se a independência feminina é algo ainda em construção, disforme, sem rosto, que as mulheres que desejam refazer suas vidas ao lado de alguém usem da racionalidade em suas novas escolhas. Os divórcios parecem ser uma constante, mas em ambas as partes a independência de escolhas em novas empreitadas de relacionamento é algo legítimo e não deve ser creditado à outra parte, nem aos filhos ou familiares os possíveis fracassos. 

E a sociedade por sua vez precisa aprender que, em um divórcio, as duas partes precisam de novos referenciais de vida para reconstruir suas vidas em novas famílias. A parte 'mais fraca' -ou menos desimportante, sob o aspecto social - parece ter sido designada ao homem, que socialmente é ridicularizado quando quer ter o legítimo direito à reconstrução familiar ao lado de uma mulher mais nova. Esse é um direito que é reivindicado, mesmo que de modo implícito pelo balzaquiano Moacyr Franco, que percebeu que não vale a pena investir em relacionamentos onde as lamúrias feminianas pelas escolhas equivocadas sejam mais importantes do que o desejo de acertar, desejo esse que parece mais adequado nos dias atuais, ao universo masculino. As mulheres de trinta anos atuais precisam atentar para essa nova realidade e buscar alternativas, caso contrário as conquistas balzaquianas ficarão apenas nos relatos de mulheres de tempos passados que, apesar da experiência e vivências de dissabores anteriores, estavam abertas ao diálogo e ao respeito em seus relacionamentos, em novas tentativas de refazerem suas vidas sentimentais e familiares.