2 de fev de 2016

Quem é Nando Moura na terra de Solano?

Solano Trindade (1908-1974) foi um poeta, pintor, ator, dramaturgo e produtor cultural. Filho de sapateiro e de uma cozinheira, atuou em vários estados brasileiros, inicialmente em sua terra natal, Pernambuco, sempre compondo textos, versos e participando da criação de grupos de culturais com enfoque na temática da cultura negra, menosprezada pelo mainstream artístico e pela sociedade em geral. Idealizou o Teatro Popular Brasileiro, onde por meio da dramaturgia, dos estudos da cultura e folclore denunciava as injustiças sociais buscando a sinergia necessária para autorreconhecimento cultural do negro, tendo viajado com o grupo para várias apresentações no exterior. Teve também experiência cinematográfica como ator, atuando em alguns filmes, sendo o mais famoso ''A Vez e a Hora de Augusto Matraga'' de 1966 dirigido por Roberto Santos, roteirizado por Gianfrancesco Guarnieri, com Elonardo Villar, Jofre Soares e Flávio Migliaccio. Perseguido pela ditadura militar, foi preso, e também teve um de seus filhos mortos pela repressão. Faleceu pobre e sem o reconhecimento justo por sua obra.  A artista plástica e escritora Rachel Trindade, filha de Solano é uma das continuadoras do legado cultural do pai, divulgando em cursos e palestras tudo aquilo que seu pai transmitiu por meio das diversas artes que dominava.

O ''Poeta do Povo'' geralmente é lembrado pelos versos ''Tem Gente Com Fome'':


Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome 

tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii


que foram musicados por João Ricardo e gravados em vídeo clipe por Ney Matogrosso e exibido em 1979, ainda durante o período da ditadura militar.

Nando Moura é uma celebridade da internet — tem um canal de vídeo no Youtube com milhares de inscritos e postagens com também milhares de visualizações. Filho do professor especialista em quadrinhos Luiz Cagnin, seu currículo incluiu formação musical em conservatórios no Brasil e no exterior. Atua como professor de música e possui uma banda de rock - a Pandora 101, além de tocar em casas de shows periféricas. Seu site apresenta a banda como ''uma das mais conceituada banda de Rock Progressivo do cenário internacional''(sic). Um dos atrativos para suas aulas é a tecnologia agregada ao ensino da música, onde diz: "Ofereço aos meus alunos, não só o melhor em guitarras, como o melhor em áudio e tecnologia. Pois, hoje, tão importante quanto um conhecimento musical, é um bom conhecimento tecnológico"(sic).

Em seu canal, o youtuber usa toda sua simbologia roqueira em apelo visual para difundir ideias conservadoras associadas a um pretenso discurso cristão. Cabelos compridos soltos ou com presos com bandanas, barba hirsuta aparada e gestual primordialmente manual são o repertório para a divulgação suas ideias na internet. Destoando do primordial ideal libertário dos músicos e dos apreciadores do rock, o guitarrista apresenta um farto menu de contexto reacionário, que incluem discursos contrários ao movimento negro, ao desarmamento, à manifestação pública da homossexualidade, às religiões de matriz não ocidentais, às mulheres e aos direitos humanos. Leitor de Olavo de Carvalho, Moura difunde o pensamento do jornalista com rigor exemplar. Defende Jair Bolsonaro como virtual candidato a presidência do Brasil, sem não antes execrar as figuras do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff. 

Diante deste quadro, o que teriam em comum Solano Trindade e Nando Moura, a priori seres tão distantes no tempo, no espaço e na visão de mundo dentro do espaço concomitante em um texto contemporâneo? Eles têm uma única coisa em comum, algo que os une e que os afasta também — ambos são da cidade de Embu das Artes, grande São Paulo.

Solano habitou Embu nos anos 1950 e 1960, criando com a ajuda de amigos, um núcleo de arte na cidade, alavancando o seu status de polo cultural e artístico: ''a Terra da Artes". Mesmo anos após sua morte e de ter seu nome desprezado pelos críticos culturais, seu nome sempre foi ligado à cidade e hoje é homenageado em uma escola e também no nome do Teatro Popular Solano Trindade. A lembrança que se deve ter de Trindade é de alguém que com sua força de pensamento reuniu uma obra original, mudando as agruras de uma sociedade racista, estratificada e discriminadora em substrato para a difusão de seus ideais de liberdade e justiça social. Na temerária tentativa de ir contra o apogeu de um sistema que visava o clareamento de sua gente por meio da imigração maciça de cidadãos europeus, seguindo o ideário do racismo científico de autores como Silvio Romero e Nina Rodrigues, Solano expunha todo seu empenho na busca o que considerava primordial — uma narrativa onde o negro não fosse apenas um coadjuvante observador na terra que ajudou a construir, mas agente transformador, sabedor de suas raízes e que tivesse brio perante o balanço trágico da trajetória histórica, visando a equidade para todos, negros e não negros.

Já o youtuber Nando Moura vive atualmente na mesma Embu de Solano. Ele é um ícone de uma geração precariamente escolarizada, treinada para o desempenho quantitativo, pouco apreciadora de referenciais culturais de qualidade e desestruturada pelo sistema de iniquidade social do ter mais do que ser. Moura neste aspecto destoa de Solano, não no quesito qualitativo, ou até artístico - o que seria incongruência fazê-lo — mas na má utilização de seus recursos visando a difusão cultural e informativa da juventude e do público em geral que usam a internet, por meio de seu repertório de vida e de conhecimento em prol da sociedade. Apesar de seus vídeos serem pautados por comentários gerais, predominantemente sobre política e cultura pop, vez por outra há espaço para interações outdoor onde o viés conservador de Moura é posto à prova e ao julgamento (!?) das ruas da cidade onde seu pai era conhecido. É o caso do vídeo onde ele, de dentro do carro, ofende com palavrões um correligionário do PT durante as eleições, passando em velocidade para não ver (e receber) possíveis reações contrárias. 

Se Solano alavancou o nome da cidade que em nada, quantitativamente falando, lhe deu em troca, Nando faz o oposto: rebaixa a cidade natal a uma visão estereotipada, o que convenhamos, não é preciso muito para se chegar a isto. Embu sempre foi lembrada muito pelo aspecto macabro, pela violência e pelos casos de excrescência administrativa. A população ainda se lembra do churrasco de passarinhos, patrocinado pelo ex-prefeito Nivaldo Orlandi em 1984 que, para bem da cidade, nunca mais se elegeu a cargo nenhum. Também é notória a exumação do carrasco nazista (Nando Moura chama o movimento negro de ''afronazismo'') Joseph Mengele, que foi enterrado, não se sabe como, com o nome falso de Wolfgang Gerhard no cemitério do Rosário, no centro.

Esse paralelismo entre duas realidades tão próximas e tão díspares pode nos fornecer material para uma análise da conjuntura social brasileira. De um lado um poeta negro sem recursos, com tudo e toda (sociedade) contra si, demonstra o mais perfeito apuro na tentativa de reversão do quadro que atingia (e ainda atinge) a si e aos seus semelhantes, por meio da cultura e da arte. Um cidadão que, apesar de tudo, soube usar da sua maestria no manejo da palavras e dos recursos culturais notáveis adquiridos para ser a antena da raça humana desvelando e revelando novos paradigmas e deixando para futuras gerações um legado que é aos poucos notado. De outro um artista pop repleto de idiossincrasias trazendo para seu público (Nando tem apelo jovem e faz questão de sê-lo) informações desencontradas, preconceitos em oratória sofismática, inverdades em prol do status quo e um discurso de intolerância sem precedentes. Nando poderia, se quisesse, usar tudo aquilo que sua criação lhe proporcionou numa simbiose com sua comunidade local e a da aldeia global, mas prefere apenas o clique rápido das visualizações apressadas e a monetização fácil. Como nos versos de Solano, podemos fazer a analogia, dizendo que Tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome — de cultura, informação e arte. Mas infelizmente Nando Moura não tem o menu principal para satisfazer essa lacuna de tanta gente.


http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/solano_trindade.html
http://www.elfikurten.com.br/2015/06/solano-trindade.html
http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-vento-forte-do-levante-documentario-sobre-solano-trindade
http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,politico-perdeu-5-eleicoes-apos-passarinhada-imp-,686986

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/02/07/politica/1391769715_190054.html
http://www.nandomoura.com/

10 de jan de 2015

Eu não sou Charlie Hebdo

David Brooks

(Nota: o autor traz um texto que mostra o teor de superestima do humor como ferramenta de desconstrução de grupos, religiões, tabus ou instituições, algo visto na defesa da liberdade proposta pelo semanário Charlie Hebdo. Mesmo sendo um contexto como os EUA, o argumento também pode ser válido para o Brasil, um país com recente tradição democrática e onde tem crescido a visibilidade de comentaristas, jornalistas, humoristas e analistas que provavelmente se sentariam na ''mesa infantil'' proposta pelo autor, ao lado da ''mesa adulta''. O traço comum entre todos eles é a reivindicação de uma outorga de seriedade e respeitabilidade que não possuem e que dificilmente conseguirão ter.)

Os jornalistas do Charlie Hebdo estão sendo agora celebrados como mártires defensores da liberdade de expressão. Entretanto, vamos ser realistas: se eles tivessem tentado publicar seu jornal satírico em qualquer campus de universidades americanas nas últimas duas décadas, ele não teria durado 30 segundos. Os alunos e grupos da faculdade teriam lhes acusado de discurso de ódio e a administração teria cortado o financiamento e fechado-lhe as portas.


A reação pública ao ataque em Paris revelou que existem muitas pessoas que são rápidas para mitificar aqueles que ofendem os pontos de vista dos terroristas islâmicos na França, mas que são muito menos tolerantes contra aqueles que ofendem seus próprios pontos de vista domésticos.

Observe todas as pessoas que reagiram de forma veemente às pequenas agressões dos campi de universidades. A Universidade de Illinois demitiu um professor que ensinou a homossexualidade sob a perspectiva da Igreja Católica. A Universidade do Kansas suspendeu outro professor por ter escrito um duro tweet contra a N.R.A (Associação Nacional do Rifle dos EUA). Já a Universidade Vanderbilt desautorizou um grupo cristão que insistia que a instituição deveria ser dirigida por cristãos.

Os norte-americanos podem aclamar o Charlie Hebdo por sua coragem em publicar cartuns ridicularizando o profeta Maomé, mas se Ayaan Hirsi Ali for convidada nas universidades, sempre haverá justificativas para negar-lhe um lugar de destaque. (N.T.: Ayann Hirsi Ali é uma escritora somali naturalizada norte-americana defensora dos diretos das mulheres e ateia).

Este pode ser então um momento de aprendizagem — enquanto estamos aterrorizados pela carnificina sofrida pelos escritores e editores em Paris, é um bom momento para termos uma proposta menos hipócrita em relação a nossas próprios ícones controversos, provocadores e satíricos.

A primeira coisa a dizer, eu imagino, é que independente do que você tenha postado em sua página do Facebook ontem, é equivocado para a maioria de nós dizermos Je suis Charlie Hebdo ou Eu sou Charlie Hebdo. Na verdade, nós não somos comprometidos com o tipo de humor estritamente ofensivo que aquele jornal é especializado.

Podemos partir do seguinte princípio: quando você tem 13 anos, parece desafiador e provocativo ''impressionar a burguesia'', apontar o dedo no olho da autoridade ou ridicularizar as crenças religiosas de outras pessoas.

Mas depois de certo tempo isto parece pueril. A maioria das pessoas vai contra pontos de vista mais complicados e tem uma percepção mais tolerante para com outros — o ridículo se torna menos engraçado quando você fica mais ciente de seus recorrentes atos ridículos. Grande parte de nós tenta mostrar um pouco de respeito por pessoas de diferentes credos e religiões, em um esforço de iniciar conversações ouvindo em vez de insultar.

E, ao mesmo tempo , grande parte de nós sabemos que os provocadores e outras figuras bizarras constituem personagens importantes. Os satíricos e zombadores expõem nossas fraquezas e vaidades quando nos sentimos orgulhosos, ridicularizam a auto-glorificação do sucesso e sublimam as injustiças sociais desmascarando os poderosos. Quando eles são eficazes, nos ajudam a direcionar nossos pontos fracos em conjunto, já que o riso é um dos maiores incentivadores de coesão social.

Além do mais, os provocadores e zombadores expõem a estupidez dos fundamentalistas, que são pessoas que consideram tudo de modo literal. Estes são incapazes de ter pontos de vista divergentes, e não veem que enquanto suas religiões podem merecer a mais profunda reverência, é verdade que a maioria delas são um pouco obscuras. Os humoristas expõem aqueles que são incapazes de rir de si mesmos e ensinar para nós o que provavelmente deveríamos fazer.

Resumindo, ao nos lembrarmos sobre os provocadores e debochados, queremos manter os padrões de civilidade e respeito e ao mesmo tempo dando espaço para estas pessoas criativas e desafiadores que são não são inibidas pelas boas maneiras e pelo bom gosto.

Se você tentar conduzir este equilíbrio com leis, códigos de expressão e banimento de comentaristas, terminará com a censura pura e simples e um diálogo reprimido. É quase sempre um equívoco instigar a repressão de opinião, criando legislações com a segregação dos comentaristas.

Felizmente a conduta social é mais maleável e flexível do que leis e regulações. A maioria das sociedades tem mantido, com sucesso, padrões de civilidade e respeito enquanto mantém abertos caminhos para aqueles que são engraçados, incivilizados e ofensivos.

Em muitas sociedades existe a mesa dos adultos e a mesa das crianças. As pessoas que leem o Le Monde e outros jornais, estão na mesa dos adultos. Os bufões, piadistas natos e pessoas como Ann Coulter e Bill Maher estão na mesa infantil (N.T.: Ann Coulter é uma autora conservadora norte-americana e Bill Maher é um apresentador de talk-show americano que é defensor e usuário da maconha). Eles não têm assegurada a plena respeitabilidade, mas são ouvidos porque em sua artilharia, por vezes, dizem coisas necessárias que ninguém mais está falando.

As sociedades tolerantes, em outras palavras, não reprimem a opinião, mas outorgam diferentes padrões para diferentes tipos de pessoas. Notáveis e conceituados professores são ouvidos com respeito. Os satíricos são ouvidos com um semi-respeito confuso. Os racistas e antissemitas são ouvidos por meio de um filtro de opróbrio e desrespeito. As pessoas que querem serem ouvidas atentamente têm que conquistar o respeito através de suas condutas.

O massacre no Charlie Hebdo deveria ser uma ocasião para o cessamento de legislações sobre opinião. E isto deveria nos lembrar de sermos legalmente tolerantes contra vozes ofensivas, mesmo quando se é socialmente discriminador.




24 de out de 2014

Aécio Neves e a plutocracia não muito diferente

O texto a seguir é uma tradução integral da matéria publicada na edição de 24/02/1977 do jornal The Franklin News-Record, da cidade de Franklin, estado da Virgínia, nos Estados Unidos. A edição pertence à biblioteca pública de Franklin e se tornou notória pelo fato de mostrar uma entrevista com o candidato do PSDB à presidência da República Aécio Neves, na época com 17 anos e que fazia um intercâmbio estudantil.

A entrevista possui elementos suficientes para que se tenha, em tese, uma noção exata de como é a visão sociológica e de mundo de nossas elites. Os pareceres do jovem Aécio, excetuando-se uma certa imaturidade que seria justificável comum a alguém de sua idade, mostram suas ideias equivocadas sobre a organização da sociedade brasileira, em suas características e estruturas mais elementares.

O destaque que se deu à matéria antiga, foi a declaração do candidato mineiro ao The Franklin de que nunca havia arrumado a cama, pois todo mundo no Rio de Janeiro, onde ele vivia então, tinha ''uma ou duas empregadas'', além de assegurar ao jornalista que o entrevistou, que a maioria das mulheres brasileiras não trabalhavam porque não precisavam financeiramente disto (o incauto futuro candidato apenas havia se esquecido que as empregadas que arrumavam as camas de garotos da elite como ele, eram também mulheres...)

Ao ler a entrevista podemos perceber a falta cosmovisão do garoto Aécio — o casuísmo é sua referência. Há sim, um ou outro lampejo, mas no geral o que se nota é que o pensamento voluntarista do futuro governador Mineiro e suas perspectivas foram corroborados em sua trajetória de homem público. A falta de tino social e altruísmo (na entrevista Aécio compara as escolas de elite do Rio de 400 alunos com as escolas públicas norte-americanas com mais de 1000 estudantes, além de afirmar que os brasileiros não estudavam inglês porque não queriam), a falta de cultura geral associada a um viés pernóstico, fazem-nos ver o porquê de a plutocracia e setores médio-classistas o terem como candidato ideal para governar o Brasil.


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A vida não muito diferente de um adolescente do Rio 


Por Bob Bradis, da redação

Para muitos de nós, o Rio de Janeiro é um ponto turístico onde o sol está sempre brilhando, as águas são cristalinas e a temperatura nunca está abaixo dos 21ºC. Deste modo, quando você pergunta porque alguém sairia de lá para vir aos Estados Unidos encarando um inverno rigoroso, deve haver uma boa justificativa.

Para Aécio Neves Cunha há um bom motivo — ele está em um intercâmbio estudantil brasileiro e esteve as últimas semanas na casa de Roger e Pat Davis em Franklin, estado da Virgínia.

Enquanto esquiava num fim de semana o filho do casal, Glenn, conheceu Aécio que lhe contou não ter feito muitas coisas desde que havia chegado ao país. Ele estava hospedado na casa de uma garota juntamente seus pais já há duas semanas e meia, mas disse que não tinha feito nada porque a moça não era muito sociável.

Então, depois de um acordo feito pelas duas famílias, Aécio veio para Franklin para ficar uma semana com a família Davis.

Ele estva cursando a Escola Arlington em Poughkeepsie, Nova York, tendo aulas de cerâmica, transportes, instalação elétrica, educação física e Espanhol. Isto poderia soar como uma rotina tranquila, mas as facilidades no Brasil não são muitas o suficiente para oferecer aos alunos cursos como estes.

Aécio veio para os Estados Unidos pelo programa ''Portas Abertas'' que custou-lhe por volta de US$1000,00. ''A razão de ser tão caro é porque o governo brasileiro quer desencorajar as pessoas a deixarem o país'', explicou na entrevista da última semana.

COMO QUALQUER OUTRO adolescente, Aécio ouve os mesmos grupos de rock e assiste aos mesmos programas de TV. Seus grupos favoritos são Led Zeppelin, The Who, Crosby, Stills, Nash e Young, Prampton e Bob Dylan — de quem ''gosta muito''. Os programas de televisão que assiste são ''Os Waltons'' e ''Kojak''.

Seus esportes favoritos são futebol e vôlei. ''No Brasil todo mundo joga futebol e vôlei. Há um estádio que abriga 150 mil pessoas (NT—ele se refere ao Maracanã) e todo mundo vai ver os jogos dos times de futebol'', diz. 

O futebol americano e o hóquei são difíceis de entender, esta é a sua justificativa para não gostar de assistir aos jogos.

"A comida também é diferente da do Brasil. Lá nós comemos arroz, feijão e mais arroz''. Ele descreve a comida no Brasil como sendo muito apimentada e temperada, por isso ele põe muito sal e pimenta na comida daqui. 

''As pessoas no Brasil não querem aprender Inglês, mas muita gente estuda para trabalhar nas empresas americanas'', diz. Há muitas delas no país, como Shell e Exxon, onde muitos brasileiros trabalham.

A idade permitida para dirigir carros no Rio de Janeiro é 18 anos, mas não é raro ver alguém menor de idade dirigindo. Muitas pessoas tem carros da Chevrolet e da Ford que custam por volta de US$9000,00. Há um carro conhecido como ''Puma'' que é feito no país; Aécio o descreve como sendo muito confortável e bem equipado. As motocicletas são usadas também por muitas pessoas por causa do problema de trânsito intenso na cidade do Rio de Janeiro.

''As escolas no Brasil são bem pequenas comparadas às dos Estados Unidos. Uma escola com quatrocentos alunos é considerada grande no Brasil'', explica Aécio.

Os alunos de lá somente ficam meio período na escola. Existem dois turnos que eles escolhem para frequentar. O primeiro começa às 8h00 e vai até às 12h30; o segundo começa às 13h00 e vai até às 17h30. O ano escolar vai de Março a Junho e então as aulas recomeçam e vão até Novembro. Julho é considerado como mês das férias de inverno.

APÓS O ENSINO MÉDIO a maioria dos estudantes vão, ou para as universidades federais que pagam pelo seu curso, ou para as universidades estaduais que têm mensalidade de US$300,00 em média, paga pelo aluno (NT —há um equívoco na matéria, Aécio confundiu universidades estaduais com ''particulares''). A maioria dos alunos estuda medicina ou direito e pensam em conseguir emprego em uma das empresas americanas.

Se o aluno não for para a universidade, pode conseguir um trabalho que pague por volta de US$100,00 mensais — não há salário pago por hora no Brasil.

As mulheres brasileiras tem uma vida tranquila, segundo Aécio. A maioria das mulheres não trabalham porque não precisam, diz, então na maioria do tempo elas passam na praia ou fazendo compras em lojas.

''Todo mundo no Rio tem uma ou duas empregadas, uma para cozinhar e outra para limpar''. Ele acrescenta ainda ''Eu nunca arrumei minha própria cama.''

Aécio planeja se formar em engenharia civil e então provavelmente entrará na política assim como seu pai e seu avô. O pai é deputado federal e seu avô é líder do Partido Democrático (NT—PMDB)no país. 

Os brasileiros somente votam em senadores e deputados e são estes mandatários que escolhem o presidente do país. O Jornal do Brasil e O Globo são os jornais brasileiros que mantêm a população informada sobre o governo.

Uma coisa de que faz Aécio ter saudades de casa é que nesta semana acontece a maior celebração do país. É o carnaval, que é festejado antes do início da quaresma e no qual todo mundo celebra. ''Este é o único momento em que as classes baixa e alta se reúnem'', diz Aécio. Ele prosseguiu descrevendo como todos dançam nas ruas, comem, bebem até altas horas e então vão para casa nadar um pouco e então retornam às ruas para celebrar mais. Isto, diz ele, prossegue direto por quatro dias. ''É a melhor época do ano''

Aécio já voltou para o Rio, mas disse que ele espera retornar e ver outros lugares dos Estados Unidos. ''Especialmente a Disneylândia''.

(Traduzido por Marcos V. Gomes)


Fontes:
http://www.franklintwp.org
http://www.franklintwp.org:85/FDATA/70s/News-Record/1977/1977-02-24.pdf

14 de out de 2013

Etnias e culturas

Muita coisa equivocada se diz sobre a questão étnica no Brasil. Um dos argumentos mais impressionantes (e com certeza um pensamento preguiçoso) é de que a discriminação, junto com o racismo, seria algo ''da cabeça das pessoas'', pessoas essas, evidente, que fazem parte do lado desfavorável das relações sociais, econômicas e étnicas do Brasil. Ou seja, se uma pessoa se sente discriminada por sua cor/etnia, essa percepção/sensação se daria mais por um estado psicológico da parte ofendida — uma espécie de defesa, um complexo — do que por um sistema simbólico injusto de um país que foi um dos últimos a abolir a escravidão no mundo.

Nós somos seres racionais, naturalmente. Evidente que uma ação, ideia ou ideologia se dá inicialmente no campo da construção de sentidos para depois partirmos para o campo pragmático. Tudo ''vem da mente'', isso é óbvio. Mesmo na área do Direito, onde se julga um assassinato, por exemplo, se observa e se analisa se houve ou não a intenção (ideia) de se matar, sendo algo sempre muito subjetivo na análise das intenções do réu, e daí se parte para a valoração moral que foi, essa sim, construída em sociedade (assim como a simbologia de racismo e superioridade nas sociedades) e essa mesma moral será utilizada para que se puna o culpado pelo ato concreto. No Brasil, quando se fala de injúria ou preconceito racial sempre partimos da premissa (senso comum) de que isso é algo subjetivo, mas na verdade é concebido por meio da construção de sentidos em conjunto com a sociedade.

Daí o absurdo de se dizer que o ''racismo está na cabeça das pessoas'' - seria o mesmo que dizer que ''a defesa da pedofilia está na cabeça dos pedófilos'' ou que ''o nazismo está na cabeça das pessoas nazistas'', sendo que essas ideologias partiram obviamente de ideias (ou da mente) de certos indivíduos, mas que precisam de todo um referencial simbólico e cultural para que sejam disseminadas por todas as sociedades, incluindo publicidade, produções artísticas, livros, etc.

Em alguns setores da mídia — televisão, cinema, publicidade — há, mesmo que de modo não intencional, a construção social do ideário de ''eugenia estética'' — um dos mais elementares instrumentos de afirmação do racismo. Em tempos de pré-racismo científico, o escritor francês Montesquieu (1689-1755) dizia que os negros não poderiam ser considerados gente, pois Deus não seria capaz de colocar alma em pessoas como eles (ele usava o argumento estético para argumentar seu ponto de vista). Isso é um argumento de segregação, pois ainda não havia os tais estudos que tentavam demonstrar a superioridade racial no mundo do século 19. E mesmo estando em uma era pós-racismo científico — onde se media a capacidade mental das pessoas usando a fita métrica (!) — ainda continuamos com o argumento de estética étnica superior/inferior em nossa sociedade e em seu imenso espelho deformado da mídia.

No Brasil a televisão, principalmente, tem papel preponderante na construção da identidade nacional, identidade que todos sabemos é pautada pela tendência prioritária ao padrão estético importado, tanto na utilização de atores, quanto na referenciação de gostos nos mais diferentes campos, como música, cultura ou mesmo a moda. E assim não é difícil deduzirmos que não há, sob essa diretriz, muitas vezes imposta pelo monopólio da televisão, a possibilidade de escolhas de referenciais por cada pessoa em específico para que haja a percepção de uma adequabilidade e construção de uma identidade pessoal, algo geralmente citado por defensores do argumento de que não há discriminação racial no país. Dizer — usando a justificativa subjetiva — que o racismo é a construção do pensamento ''de cada um'' é o argumento mais pueril que se pode ouvir de uma sociedade (do latim socius = ''companheiro'') que, — como o próprio nome já diz — tem a significação gregária e que não geraria uma ''idiossincrasia étnica'' que mudaria de critério e de cor de acordo com o pensamento individual.