11 de out de 2018

Bolsonaro em busca da barbárie


A pergunta inicial carrega a princípio, uma dose de imprecisão, visto que está genericamente formulada; o certo seria dizer Quem não tem medo de Jair Bolsonaro? e desta forma o tema pode ser melhor desenvolvido. Assim passamos de um contingente de pessoas que temem/admiram seu discurso ou sua conduta carregada de simbologia militar (e isso conta muito num país que já sofreu golpes militares) para um outro menos restrito, que talvez apenas admirem o ex-capitão do exército por ele representar a simbologia do cotidiano de boa parte da população onde o palco é a violenta sociedade brasileira.

Falar de Bolsonaro por meio de uma análise de perfil é tarefa não muito difícil, visto que o personagem não tem a psique bem eleborada, prima pela falta de carisma humanista, de tino verbal, de ideias práticas ou ao mínimo originais e bem conduzidas, de polidez representativa encontrada na média de lesgisladores e tribunos, enfim, todas as qualidade encontrada em alguém minimamente preparado para ser componente do poder legislativo. 

Assim como também não parece ser difícil falar de seus eleitores-padrão conhecidos como bolsominions, fusão de ''Bolso(naro)''+''minion''(lacaio, servo em inglês) e que fazem jus às personagens do desenho animado, pois assim como os minions, são subservientes àqueles que lhes extraem os sentimentos mais mesquinhos e execráveis, devotando-lhes uma paixão doentia, sendo, obedientes e sempre buscando servir de modo irracional.

Bolsonaro como pode ser visto nas primeiras impressões, representa a direita mais extrema, braço do espectro político guiado pelo populismo, negação da intelectualidade, dos direitos humanos patrocinados pelo Estado - Estado este que deve servir, sob perspectiva reacionária, prioritariamente às oligarquias e plutocracias que confortavelmente manipulam proletários de direita com discursos e práticas que ofuscam suas intenções verdadeiras para com os chamados ''pobres de direita'' que nada vislumbram a não ser repetir os mantras dos ricos. Delimitado o território bolsonarista, o público que o segue e suas características, voltamos à questão inicial: Quem não tem medo de Jair Bolsonaro?

A figura de Bolsonaro não é atemorizante, mas o que se teme é a conjuntura que sua idologia obscura busca em inúmeros anos de política; se olhassemos para seu jeito jeca, seus tiques, sua incultura, sua tosquice aliada à imensurável prepotência idiotizada de adolescente em busca de auto-afirmação não poderíamos dizer que ali há alguém que pudesse estar entre indivíduos altamente perigosos à manutenção do status quo (digo status quo no sentido político, da normalidade institucional). Mas por outro lado, há o aspecto simbólico que sua verve reacionária alimenta e esse componente - que é o adubo do fascismo que ronda a sociedade brasileira há tempos, e não de agora - deve ser revisto para perceber-se e compreender o fenômeno dos votos recebidos pelo mito no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018.

Quem não tem medo do Bolsonaro? é a pergunta primordial e pode ser buscada nos símbolos mais primordiais que rondam o imaginário dos servos bolsonaristas. Os que não o temem e abraçam a simbologia que é denunciada exaustivamente pela esquerda como ''discurso de ódio'' são aqueles mesmos que convivem com o ódio simbólico que o Estado tem para com eles e é ingenuidade e mostra de desconhecimento das bases do ''Brasil profundo'' afirmar ser incompreensível que os não temerosos de Bolsonaro e toda sua política de truculência abracem o discurso que podem os levar à ruína sem perceberem o risco que correm.

O eleitor de Bolsonaro que não o teme é aquele possui um repertório existencial vivido por meio da violência institucional, sua família e comunidade onde vive: começa na mais tenra infância com a criança que vivienciou mais corpos de vítimas da violência em seu bairro do que datas de aniversários vividas, que tem em serviços precários como falta de creche e escola somadas ao atendimento sofrível da saúde pública como elementos integrantes deste caos; há ainda a violência estatal por parte da polícia Militar que fazem com que os discursos do capitão candidato à presidência denunciados como fascistas pela esquerda - num grito de alerta aos bolsonaristas - soem como surreais por aquele apoiadores que não veem nada de mais a cantilena verbal de violência que é realmente vivida in loco por seus eleitores e simpatizantes.

A mídia colabora para esse paradigma de violência cotidiana vivida pelo eleitor bolsonarista, principalmente o braço histórico da jornalismo conhecido como imprensa marrom com seus jornais com cadáveres à perder de vista ao lado de matérias nonsense, discursos moralistas televisivos contra a violência e aumento da criminalidade e emissões radiofônicas de programas policiais recheadas de demagogia visando a ''busca da verdade''. A imprensa marrom tal como é, pode ser considerada o nascedouro das fake news , esse instrumento primordial para se atingir objetivos políticos eleitoreiros da extrema-direita na internet, como fizeram Donald Trump nos EUA e como está fazendo aqui no Brasil, Jair Bolsonaro.

Questionar alguém que vive o cotidiano da violência o porquê de apoiar um candidato a presidente que é assumidamente fascista é desconhecer os mecanismos de exclusão da sociedade brasileira. A violência seja ela simbólica por meio dos aparelhos do Estado, como justiça, polícia militar ou a que é mostrada de forma midiática e que se retroalimenta na espiral infindável que não enxerga (ou não quer enxergar) a raiz matriz dos problemas se segurança pública é há décadas um caldeirão de caos que parecia em tempos passados uma possibilidade de vivência apenas na classe trabalhadora em seus roteiros diários nas periferias do Brasil tropical abençoado por Deus. A classe média, média-alta e elites sempre se respaldaram em produtos midiáticos distanciados da realidade da escatologia do universo oferecido da imprensa marrom de jornais sanguinários e de programas eletrônicos do rádio e da tv que se alimentam do sensacionalismo - o dono da rádio Jovem Pan, Tuta Amaral, uma vez afirmou que os resultados do Ibope eram errados porque as ouvintes não permitiam que as empregadas atendessem os questionários de audiência nas portarias de prédios de alto padrão da burguesia paulistana, dando à sua rádio índices menores dos reais, segundo seu raciocínio, que indica elitismo/classismo.

O bolsonarista que não tem medo do Bolsonaro e de seu discurso anticivilizatório sempre esteve por aí vivendo o perigo pleno relatado nas mídias marrons, mas com o surgimento das ferramentas digitais de comunicação disponíveis em computadores e telefones móveis conectados com uma gama de aplicativos de difusão de notícias, textos, fotos e vídeos tornou-se de consumidor passivo a protagonista na guerra das fake news e das campanhas de difamação que tanto alavancam a candidatura do opositor de Fernando Haddad.

Aliás, algo que geralmente não é lembrado, inclusive por setores da esquerda, é que o fascismo tem como base o culto ao perigo, já prenunciava o ''Manifesto do Futurismo'' do escritor ítalo-egípcio F.T. Marinetti, porta-voz do movimento, com destaque aos temas originais que são apreciados por Bolsonaro e seus seguidores:

1) Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade

2) Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta. (nota:o voto no fascismo é o voto da revolta)

3) Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco (...)

9) Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor dos anarquistas, as belas ideias que matam e o menosprezo à mulher.

10) nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.


No contraponto ao fascismo bolsonarista, não há espaço para excitações ou especulações nem recuos,
pois o terreno já é delimitado, pois o fascismo vive de ciclos, assim como os ciclos do capitalismo. Seus adeptos - os que não temem Bolsonaro se encaixam plenamente nos termos daquilo que é almejado pelo ideal fascista: vivem o perigo constantemente, enfatizam a ação sobre a reflexão, usam a audácia e a revolta como instrumento de auto-afirmação, possuem visão pouco elaborada sobre grupos como imigrantes, negros, homossexuais ou mulheres em seus direitos de cidadania, são anti-utilitários (no sentido filosófico do utilitarismo, ou seja a ação ética visando o benefício de maior número de pessoas).

Para vencer o fascismo deve-se lembrar sempre do tempo-ação/resposta, pois pode-se vencer pela fadiga apenas sabendo dos movimentos e investidas do opositor sem divagar em demasia, apenas analisando os passos do adversário. As redes sociais e aplicativos como o Whats up são prova de que sistematicamente os fascistas tem feito jus às palavras provocadoras do manifesto de Marinetti que explica arrogante as qualidades espartanas dos adeptos da ideologia de Bolsonaro e seus destemidos seguidores:

Olhem-nos! nós não estamos esfalfados...Nosso coração não tem a menor fadiga! Porque ele está nutrido pelo fogo, pelo ódio e pela velocidade!...Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido. De pé sobre o cimo do mundo, nós lançamos ainda uma vez mais o desfio às estrelas!

Este é o perfil de quem não tem medo do Bolsonaro: destemido, arrogante e adepto da velocidade a todo custo. E a ação é a palavra-chave no mundo da informação instantânea que pode e deve ser utilizada como contra-ofensiva às investidas fascistas que ameaçam a democracia brasileira.


Fonte:
TELES, Gilberto Mendonça, Vanguarda Europeia & Modernismo Brasileiro: Apresentação crítica dos principais manifestos vanguardistas. José Olímpio Editora, 2012

23 de out de 2017

Temer e a pobreza tipo exportação

Nota: O texto do New York Times, produzido pela Associated Press traz o quadro lastimável da situação econômica do Brasil sob perspectiva estrangeira. Fala dos avanços sociais no período que é classificado como ''boom econômico'' (2003-2014) quando notou-se aumento da renda e acesso a bens de consumo em parte alavancados pelas políticas de distribuição de renda juntamente com o quadro favorável na venda de commodities no exterior resultando em geração de empregos. Sobre o quadro atual, fala da redução nos programas sociais do governo direitista de Temer junto com congelamento de verbas da saúde e educação e de uma possível volta da esquerda ao governo federal. 



Milhões retornam à pobreza no Brasil, diluindo a década do crescimento.


(Associated Press, 23/10/2017)


RIO DE JANEIRO - Quando Leticia Miranda conseguiu um emprego vendendo jornais nas ruas, ganhava por volta de R$ 550 por mês, o suficiente para pagar um pequeno apartamento em que vivia com seu filho de oito anos em uma região carente do Rio de Janeiro.

Quando perdeu o trabalho seu trabalho por volta de seis meses atrás, no meio da pior crise do país em décadas, Letícia não teve opção a não ser mudar para um prédio abandonado onde outras centenas de pessoas viviam. Todas as suas coisas - uma cama, geladeira, fogão e algumas roupas - foram colocadas em uma sala junto com pertences dos outros habitantes do prédio que tem janelas sem vidro. Os moradores tomam banho em tonéis e fazem o que podem para viver com o cheiro de montanhas de lixo e porcos passeando no meio da construção.

"Eu quero sair daqui, mas não tenho para onde ir'', diz Letícia, 28 anos vestida com um top, short e sandálias por causa do calor. ''Estou buscando trabalho e fiz duas entrevistas e até agora, nada.''

Entre 2004 e 2014, milhões de brasileiros saíram da pobreza e o país era frquentemente citado como um exemplo para o mundo. O alto preço de commodities e a descoberta de novas fontes de combustível ajudaram a financiar programas de bem estar social que colocaram renda nos bolsos dos mais pobres.

Mas essa tendência foi revertida nos últimos dois anos devido a maior recessão da história do Brasil e cortes nos programas de subsídios fizeram surgir o receio de que o país-continente havia perdido o foco no combate à desigualdade e voltando aos tempos coloniais.

''Muitas pessoas que cresceram fora da pobreza e até mesmo aquelas nascidas na classe média, recuaram'', diz Monica de Bolle, pesquisadora associada do Instituto Peterson de Economia Internacional com sede em Washington.

O Banco Mundial estima que por volta de 28,6 milhões de Brasileiros saíram da pobreza entre 2004 e 2014. Entretanto o banco calcula que desde o início de 2016 até o final deste ano, entre 2,5 milhões a 3,6 milhões de pessoas voltaram a linha da pobreza com ganhos de R$140 mensais, cerca de US$ 44 de renda com câmbio atual.

Estes números são subestimados segundo Monica e não mostram que o fato de muitos brasileiros da classe média baixa que ganharam espaço durante os anos de crescimento decaíram para o limite próximo à pobreza.

Os economistas dizem que o alto desemprego e cortes nos programas-chave de bem-estar social podem aumentar os problemas. Em julho, último mês em que os dados foram coletados, o desemprego estava perto dos 13%, um grande aumento em relação aos 4% do final de 2004.

Filas de desempregados entre vários quarteirões se tornaram rotina quando alguma empresa inicia atividades. Quando, neste mês, uma universidade do Rio ofereceu trabalhos de baixa complexidade pagando R$ 400 de salário, milhares de pessoas se candidataram, inclusive gente que ficou do lado de fora durante um dia chuvoso antes da abertura das inscrições.

Enquanto isto, prressões orçamentárias e políticas conservadoras do presidente Michel Temer estão se traduzindo em cortes nos serviços sociais. Entre estes atingidos está o Bolsa Família, programa que dá pequenos subsídios mensais para pessoas de baixa renda e que é tido como redutor da pobreza do Brasil durante a última década.

Subsídios, incluindo programas sociais como o Bolsa-Família foram responsáveis por aproximadamente 60% de redução do número de pessoas vivendo na extrema pobreza durante o boom recente, disse Emmanuel Skoufias, economista do Banco Mundial e um dos autor do relatório sobre os ''novos pobres'' do Brasil.

Agora, com a perda de empregos impulsionando pessoas para o programa, poucas estão sendo auxiliadas.

''Todo dia é uma luta para sobreviver,'' diz Simone Batista de 40 anos enquanto lágrimas correm por sua face enquanto relembra que foi cortada do Bolsa Família depois que seu filho - agora com um ano - nasceu. Ela quer recorrer, mas não tem dinheiro suficiente para a condução até a assistência social no centro da cidade. Simone vive no Jardim Gramacho, uma favela na região norte do Rio, onde ela e centenas de outros moradores excluídos encontram comida procurando entre detritos ilegalmente jogados na área.

Uma pesquisa da Associated Press sobre dados do Bolsa Familia encontrou uma redução de 4 pontos percentuais na cobertura entre maio de 2016, quando Temer tornou-se presidente e maio deste ano. Parte disto deve-se a punições em eventuais fraudes que começaram ano passado. A administração de Temer anunciou que tinha encontrado ''irregularidades'' nos registros de 1,1 milhão de beneficiados cerca de 8% dos 14 milhões de pessoas que recebem o benefício. As infrações vão de fraudes até famílias que estavam ganhando acima de R$150 mensais que é o teto pra receber o benefício.

''O governo não deveria perder o foco na prioridade'' de manter as pessoas longe da pobreza, diz Skoufias, adicionando que o Bolsa Família representou somente 0,5% do PIB nacional e o governo deveria visar disponibilizar mais e não menos recursos ao programa.

Além disso, qualquer discussão de aumento de gastos é certamente vetada no Congresso onde um limite de gastos foi aprovado neste ano e Temer está inclinado a fazer grandes cortes no sistema de previdência. A situação fiscal é ainda pior em muitos estados, incluindo o Rio.

Um ano depois de hospedar os jogos Olímpicos de 2016, o estado do Rio de Janeiro está quebrado e milhares de servidores públicos não estão recebendo salários ou sendo pagos em parcelas. Algumas recursos de verbas para coleta de lixo ou programas de policiamento comunitário tem sido drasticamente reduzidos.

Para muitos que vivem nas centenas de favelas cariocas, uma realidade já difícil parece aumentar o aspecto precário.

Maria da Penha Souza, 59 anos vive com seu filho de 24 em uma pequena casa com telhado de zinco na favela Lins, zona oeste do Rio. Eles querem se mudar poque a casa fica em um morro onde é propenso a deslisamentos perigosos. Mas seu filho não consegue arranjar serviço desde que terminou o serviço militar tempos atrás.

''Eu me mudaria se houvesse um jeito, mas não há, '' diz Maria da Penha que acrescenta: ''Quando chove, não consigo dormir.''

A depressão econômica está abrindo espaço para o retorno político do ex-presidente Luis Inacio Lula da Silva que de 2003 a 2010 presidiu o país em período de prosperidade. Depois de deixar o cargo com índices de aprovação acima dos 80% sua popularidade despencou quando ele e seu partido foram envolvidos em investigações de corrupção. Lula está apelando da acusação de quase 10 anos por corrupção, apesar de ainda liderar de modo consistente nas pesquisas de intenção para as próximas eleições presidenciais. 

Em campanha, Lula promete um retorno aos tempos melhores da economia e na atenção aos pobres.

''O Lula não é apenas o Lula'', diz o ex-presidente em recente comício no Rio, usando o nome que a maioria dos Brasileiros o chamam. ''É uma ideia representada por milhões de homens e mulheres. Preparem-se porque a classe trabalhadora vai voltar a governar este país.''


(Jornalistas da Associated Press: Peter Prengaman do Rio de Janeiro, Sarah DiLorenzo de São Paulo e Daniel Trielli de Washington . O videorrepórter Diarlei Rodrigues no Rio de Janeiro contribui para esta matéria.)

Tradução: Marcos Vinícius Gomes





24 de ago de 2017

O repugnante Jair Bolsonaro

Nota: Este texto do news.com.au foi redigido antes à eleição de Donald Trump e portanto antes da crise institucional no governo do presidente norte-americano eleito e também antes do emblemático - e inacreditável - discurso racista de Jair Bolsonaro na Hebraica do Rio. Mas é atualizado por circunstâncias e serve de norte para eleitores e cidadãos que queiram se inteirar um pouco mais sobre as ideias do deputado brasileiro que almeja ser um novo salvador da terra brasilis. 


Este é o político mais repulsivo do mundo? 


Gavin Fernando

Senhoras e senhores, conheçam o ''Donald Trump do Brasil''.

Pensando melhor, isto não é justo para o candidato Trump. Perto dos comentários do congressista brasileiro Jair bolsonaro, a infame afirmativa de Donald Trump de ''construir um muro para manter os mexicanos longe'' poderia ter sido entoada pelos filhos do barão Von Trapp em um belo quarteto de cordas.

Há uma imensa lista de afirmações públicas e entrevistas bajuladoras para explicar a notoriedade de Bolsonaro.

O político ultraconservador apoia francamente a tortura. Ele também tem uma perspectiva favorável em relação à odienta ditadura militar que comandou o Brasil por duas décadas.

O parlamentar tem sido frequentemente manchete global por causa de comentários depreciativos sobre pessoas negras, gays e mulheres.

Assim como Trump, Jair Bolsonaro é muito criticado pela mídia da esquerda e, como faz o político norte-americano, tomas as críticas com orgulho.

''Esta ideia de oh, coitadinho do negro, oh, coitadinho do pobre, oh, coitadinho da mulher, oh, coitadinho do indígena, todo mundo é coitado em alguma coisa!", disse à Vice News. "Não pretendo agradar todo mundo.''

Também como Trump, há uma certa possibilidade dele ser eleito presidente do seu país. 

Bolsonaro e as mulheres


A grande mídia começou a se interessar por Bolsonaro há um ano e meio atrás, após seus comentários grosseiros, feitos à parlamentar Maria do Rosário, terem sido gravados pelas câmeras.

Rosário havia protestado contra as violações aos direitos humanos durante a ditadura militar a qual Bolsonaro defende abertamente - violações que incluiam tortura, estupro e assassinatos.

''Fique aí, Mariai do Rosário'', disse o deputado. ''Há poucos dias atrás você me chamou de estuprador. E eu disse que não a estupraria porque você não vale a pena.''

Rosário se sentiu ultrajada e imediatamente deixou o plenário. ''Eu fui atacada como mulher, como membro do Congresso, como mão'', disse. ''Quando chegar em casa, vou ter que explicar isso para minha filha.''. 

Ela afirmou que processaria criminalmente o deputado. 

Mas Bolsonaro foi completamente absolvido. Ele escarneceu a deputada por ter saído, dizendo que ela ''havia fugido do debate''. 

Ele até postou uma foto no Twitter para se vangloriar sobre o incidente que ele descreveu como ele ''colocou Maria do Rosário em seu devido lugar.'' 

Ambos tiveram um confronto parecido em 2008, onde ele a chamou de vadia depois de a deputada tê-lo chamado de violentador.

Deve se salientar que os membros do Congresso Nacional tem imunidade no Brasil, o que significa que os adversários podem dizer o que quiserem sem temerem processos.

Recentemente, a atriz norte-americana Ellen Page entrevistou Bolsonaro para seu documentário Gaycation no site Vice.

Quando Page - que é homossexual - perguntou a ele se ele achava que ela deveria ter apanhado quando criança devido à sua orientação sexual, ele respondeu: ''Você é muito bonita. Se eu fosse um cadete na academia militar e te visse na rua, eu assobiaria para você. Certo? Você é muito bonita.''

Ela olhou para ele atônita e ele não parecia acreditar que havia dito alguma coisa errada.

Bolsonaro e os negros


Em 2011, a cantora e atriz afro-brasileira Preta Gil lhe perguntou o que ele faria se um filho seu se apaixonasse por uma pessoa negra.

Ele respondeu que ''nunca permitiria esse tipo de promiscuidade'', acrescentando que seus filhos ''eram muito bem educados'', como se sugerisse que isso não aconteceria com ele. 

Preta ameçaou processá-lo no final do programa. ''Eu sou uma mulher negra forte'', disse. "Vou levar isso até o fim contra este repugnante deputado que é racista e homofóbico.''

Uma investigação foi iniciada, na qual Bolsonaro afirmou que ele não havia entendido a pergunta. Mas ele conseguiu piorar as coisas - afirmou que sua resposta tosca foi porque pensou que ela estivesse se referindo às pessoas gays, não às negras.

"Se eu fosse racista, não seria louco de declarar isto na televisão.''

Bolsonaro e os homossexuais


A homofobia espalhafatosa é talvez um das mais internacionalmente conhecidas características de Bolsonaro. Ela reflete e instiga um número crescente no país de religiosos conservadores e neonazistas skinheads.

Por outro lado, o Brasil parece assimilar amplamente a homossexualidade. Não há lei proibindo pessoas LGBT de servirem as Forças Armadas e suas leis não proíbem casais do mesmo sexo de adotarem crianças.

Isso também se adequa a uma das festas mais sexualmente liberais no planeta, como o Carnaval. 

Considerando que o país legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2013, podemos até dizer que os brasileiros são mais progressivos em relação aos homossexuais do que a Austrália.

Entretanto, o Brasil é com frequência citado como o país onde muitos homossexuais são assassinados.

De acordo com a maior e mais ativa associação gay do país, Grupo Gay da Bahia, um membro da comunidade LGBT é assassinado a cada dois dias por causa da homofobia.

De fato, de acordo com a LGBTQ Nation, metado dos episódios de violência contra homossexuais ocorre no Brasil.

Bolsonaro é publicamente homofóbioco e não se constrange com suas posições. Em 2013 o governo visava aprovar um projeto de lei criminalizando a homofobia e que se educassem os jovens brasileiros sobre o mal que ela causa. O deputado quis vetar a lei, fazendo campanha contra ela.

Em 2013 disse que antes preferiria que seu filho morresse um acidente de carro do que se assumisse gay. Ele também disse que a presença de um casal homossexual em sua casa depreciaria o valor do imóvel. 

Existem até reportagens onde ele comparou o casamento entre pessoas do mesmo sexo à pedofilia e encorajou a agressão física em crianças que achassem serem homossexuais.

Em uma entrevista a Stephen Fry no programa ''Out There'' da BBC, Bolsonaro explicou suas crenças e foi questionado se seus comentários não poderiam alimentar a violência anti-gay pelo país.

"Há grupos que querem usar (crimes de ódio a homossexuais) como um exemplo. Pode ser até que nem tenha nada a ver como homossexualidade'', disse.

Isto é rotulado por grupos gays que querem fazer uso do incidente e criar uma história que comova o público.''

Bolsonaro dá a entender que crimes de ódio cometidos contra homossexuais são causados por suas opções sexuais e - ironicamente - nega que exista homofobia no Brasil.

Ele disse que 90% das vítimas gays morrem ''em lugares onde há drogas e prostituição, ou são mortos por seus próprios parceiros.''

''Eu entrei em guerra contra os gays porque o governo propôs campanhas anti-homofobia no ensino fundamental'', disse Bolsonaro. ''O que poderia sem dúvida estimular a homossexualidade em crianças de seis anos de idade. 

''Eles visam nossas crianças para que elas se transformem em adultos gays para satisfazer a sexualidade deles no futurol. Estes são os grupos homossexuais fundamentalistas que estão tentando comandar a sociedade.''Isto não é normal.'' 

Ele diz que o Brasil não está preparado para aceitar a homossexualidade como norma social. ''Nenhum pai teria orgulho em ter um filho gay. Orgulho? Alegria? Celebração se seu filho virar gay? Sem essa.''

Sobre outros questionamentos, ele sempre compara sua repulsa aos homossexuais à repulsa pública do Taliban.

Apesar disto e mesmo abertamente afirmando que ''Nós brasileiros não gostamos de homossexuis'', ele insiste que as pessoas não são discriminadas ou perseguidas por suas orientações sexuias no Brasil. 

Mas, este homem pode se eleger presidente?


A popularidade de Bolsonaro está crescendo, sem dúvida. Sua página no Facebook tem por volta de três milhões de curtidas - cerca de 700 mil a mais do que o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Pessoas se ajuntam ao seu redor para tirar selfies quando ele faz aparições públicas e de acordo com pesquisa Datafolha de Maio/2016, sua base de apoiadores tem dobrado desde Dezembro/2015.

Considerando que em 2012, 77% da população apoiava abertamente a criminalização da hommofobia, talvez estes resultados não sejam tão assustadores. A maior ironia de tudo isto? É que o partido político a que pertence Bolsonaro é chamado de ''Partido Progressista''.

(Traduzido por Marcos V. Gomes) 

Fontes

5 de jul de 2017

O samba da Mallu é vexame, madame

Mallu Magalhães ao dedicar a música ''Você não presta'', cantada ao vivo no ''Encontro'' de Fátima Bernardes, a quem ''é preconceituoso e diz que branco não pode tocar samba", mostrou que sua nova fase não é tão diferente daquela de nove anos atrás, quando a garota desajeitada aparecia em programas cantando suas musiquinhas folk sem rima apesar de ter arranjos aceitáveis para uma composição de alguém na casa dos quinze anos.

Mas o tempo passou e a Mallu que pedantemente quis rebater as opiniões contrárias com o famigerado discurso do ''racismo inverso contra brancos'' e assumindo uma capacidade técnica que não possui, apenas fez aumentar um sentimento de frustração entre eventuais admiradores e até entre seus seguidores/fãs que não encontravam argumentos para uma apresentação tão amadora.
 
Quando surgiu, Mallu cantava exclusivamente em inglês. Diferente do português, onde há predominância na acentuação na última/antepenúltima sílaba, no inglês prioritariamente há o acento na primeira e na segunda sílaba (ou na primeira, quando for palavra monossilábica). Assim é possível encontrar rimas em músicas e versos em português tais como ''amor-dor'', ''viagem-miragem'', ''cor-melhor'' pois todas têm acentuação na última/antepenúltima sílaba. E também pela terminação semelhante, um indicador que geralmente se observa quando se quer rimar palavras o que não ocorre no inglês, necessariamente.

Mallu, de modo relapso, tem usado essa estrutura enxertada nas letras em Língua Inglesa, demonstrando desatenção e pouco apuro na composição de suas músicas. Vejamos alguns exemplos: em sua ''Her Day Will Come" (''O Dia Dela Vai Chegar'') Mallu abusa da falta de métrica em inglês:


She's got an old mobile,
But could receive calls,
She's got a pretty smile, 
But no one gives a hand
When she falls down.
Ela tem um velho celular
E poderia receber chamadas
Ela tem um belo sorriso
Mas ninguém lhe ajuda
Quando ela cai



o problema é que ''mobile'' [móbol] [mobáil] [móbil] tem três pronúncias diferentes então qual delas escolher para rimar com ''smile'' [ismáil]?

Outro exemplo de rima mal feita na mesma música:


She's got a pretty face,
Just waiting a kiss.
She's got her own charm,
But she's never been on the hot list.
Ela tem um belo rosto
Apenas esperando um beijo
Ela tem seu charme só dela
Mas nunca está entre as melhores

Aqui temos ''kiss''[kiz] que não rima em hipótese alguma com ''list'' [list]. Finalizando, temos o trecho que se repete e merece ser citado:

She's hiding all her bubble gum,
Looking for a real chum.
She knows more than anyone,
That her day will come.
Her day will come.
Ela está escondendo toda sua goma de mascar
Buscando por um amigo verdadeiro
Ela sabe mais do que ninguém
Que seu dia vai chegar.
Seu dia vai chegar.

A palavra ''bubble gum'' (chiclete) rima com ''chum'' (camarada). A questão é que é uma rima desconectada de sentido - seria o mesmo que rimar ''broto'' com ''absorto'', palavras dicionarizadas mas sem força semântica no uso atual, principalmente na voz de uma cantora hipster-pop. Mallu usou a rima que vem de ''Got any gum, chum?" (''Tem chiclete, amigo''?) que foi uma pergunta muito utilizada por crianças inglesas durante a Segunda Guerra feita aos soldados americanos que encontravam pelo caminho, visto que havia racionamento de comida e outros produtos básicos de alimentação. Essa frase até virou tema de música composta por Murray Kane in 1944 ''Have Ya Got Any Gum, Chum?". Além disso, há a impossível rima entre ''anyone'' e ''come'', onde ela mais uma vez quis ''aportuguesar'' as rimas de palavras do inglês apenas por uma terminação semelhante entre elas.

A falta de cuidado na composição também acontece nas letras em português. Na inacreditável ''São Paulo'', Mallu abusa do descuido como letrista, escrevendo versos praticamente ''explodidos'' e que necessitam de um esforço vocal que somente seria viável se cantados por cantores líricos. Vejamos:

Sou gata da vida, eu venho do mato
Da selva de pedra, São Paulo
Você que me ature e não há quem segure
A coragem dos meu vinte e quatro

Na estrofe, o segundo e quarto versos estão comprometidos. Quando cantados na gravação, a cantora faz um esforço enorme em ''São Pa-a-a-aulo'' e em ''meus vinte e qua-a-a-tro'', o que soa ruim, deselegante. É uma espécie de falha de ignição vocal que resulta na quebra da frequência da voz e do ritmo. A performance ao vivo é mais sofrível ainda e na terceira estrofe o mesmo vício anterior permanece:

As cartas na mesa, eu aposto em mim mesma
A minha garganta é de prata
Me olha no olho, você não me assusta
A roda da sorte me abraça.

sendo que o segundo verso é cantado ''A minha garganta é de pra-a-a-a-ta'' e no quarto ''A roda da sorte me abra-a-a-a-ça''.

Já em ''Você Não Presta'' o problema é outro, a começar pelo ritmo, que nem samba é, mas que se aproxima de um ska, muito apreciado por bandas de rock nacionais como Paralamas do Sucesso, Skank, etc. A introdução com uma cuíca que beira a cafonice e com metais (!) a se perder de vista e a falta de ritmo sincopado denunciam isto; de percussão o que há uma sonolenta bateria. E, para completar, temos Mallu Magalhães cantando fora do tom tanto no estúdio quanto ao vivo.

Cantores e letristas competentes usam o melhor de si para que sua música se espalhe pelo gosto do público e não fazendo o contrário. Cazuza quando quis enveredar pela bossa nova e pelo samba fez a lição de casa corretamente: bebeu na raiz e não inventando, ouvia ''o morro'' e não seguia modismos (é inimaginável pensar Cazuza dizendo ''Esta é pra quem acha que branco não pode cantar blues, samba, bossa-nova, etc''). Renato Russo que se destacava como letrista, fazia com que letras quilométricas fossem assimiladas pelo público, graças às suas qualidades de compositor que conhecia versificação - como no caso de ''Eduardo e Mônica'' que foi escrita em versos de sete sílabas, usado por repentistas e que facilitam a memorização.

Mallu Magalhães deveria se esforçar mais, pois afinal é alma gêmea de Marcelo Camelo, cantor que quando no tempo dos ''Los Hermanos'' sempre quis ser classudo, assumindo um lado virtuose da MPB - que, evidente, era superestimado, apesar das qualidades. Com o fim do grupo ele casou e se associou a Mallu em projetos que não chegam nem perto de cantores de rock que enveredaram por algo menos híbrido (como o próprio Cazuza) e mais ''raiz''. Pelo que temos visto, esse quadro não mudará facilmente - tanto pela imagem millennial de Mallu, quanto pela falta de perspectiva pragmática possivelmente vinda do marido, mas ligado a cultura de DCE, médio-classista e alienada do mundo, da cultura e das opiniões das classes marginalizadas, tais como os negros ''cutucados'' infantilmente por Mallu. Se continuar assim, a sra. Camelo estará personificando, infelizmente, a personagem ''madame'' de João Gilberto mas só que do lado de dentro, fazendo vexame e distribuindo música ruim na Terra Brasilis.


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