30 de ago de 2010

A hora e a vez dos políticos nerd


Segundo o dicionário Merriam-Webster o significado da palavra nerd é: "Uma pessoa desajeitada, sem atrativos ou socialmente deslocada; uma pessoa cegamente devotada a objetivos intelectuais ou acadêmicos". Resumindo, é um estereótipo de pessoas dedicadas de modo obssessivo a determinado assunto, geralmente associado à questões tecnológicas. É um termo fortemente associado à sociedade norte-americana, favorecido pelo ambiente favorável à criatividade e à inventividade. Um personagem simbólico do estereótipo nerd é Thomas Blanchard, jovem americano que viveu no século 19  e que ficou rico inventando equipamentos para produção em série, desde peças para armas até ferramentas, além de ter patenteado vários inventos. Também representam este estereótipo Bill Gates, que através de seus programas operacionais, popularizou o uso do computador, tornando - o de fácil operação; e Steve Jobs, fundador da Apple, uma das gigantes na fabricação de computadores pessoais.

Mais associado à questões técnicas e práticas, o nerd não circularia em um primeiro momento da vida política. Num país de herança latina como o nosso, onde os grandes oradores tem boas possibilidades de ascenção e liderança política, sobra pouco espaço para técnicos e pessoas especializadas em várias áreas. Apenas em setores especializados da administração pública, como secretarias com perfil técnico e tecnológico e áreas estratégicas parecem poder abrigar pessoas com este perfil profissional. Há um consenso geral de que a política se faz apenas por políticos de palanque com retórica hipnotizante, sedutora; para nós não existe política de bastidores, a administração seria levada apenas pelo eleito e suas intuições.Esquecemos que política não se faz apenas com retórica, mas com competência e qualidade também. 

Nessas eleições, especialmente para presidente, há uma situação especial. Os três principais candidatos são políticos que possuem um perfil técnico, que poderiam se classificados como políticos nerd. Dilma Roussef, economista que nunca exerceu cargo eletivo, é conhecida  nos  bastidores como eficiente secretária de estado. Tem a complexa missão de seguir o legado de seu padrinho político, o presidente Lula - o que não será fácil, visto que Dilma é conhecida por ser técnica demais e ter inabilidade em algumas situações onde o improviso do discurso é necessário para a exposição de idéias. Apesar disso, ela demonstra que tem se aperfeiçoado  na tentativa de amenizar a imagem de política desajeitada - a imagem de Dilma foi inclusive repaginada, ela abandonou os óculos e aposta em penteados novos, além de ter melhorado na argumentação quando confrontada pelos adversários políticos.

Outro candidato desta leva é José Serra, também economista e um  político com mais tempo de estrada. Ele é conhecido pela facilidade no trato com números. Serra circula entre o perfil técnico e político, mas recentemente devido a falhas estratégicas em sua candidatura, o seu lado técnico (ou nerd) tem sido mais destacado. Os adversários o acusam de ser inábil no contato com a população, de ser personalista demais, arrogante e de não gostar de trabalhar em equipe. Serra, se fosse avaliado pelo lado da experiência política, talvez seria vitorioso no embate com Dilma. Mas como se destacar numa disputa onde a adversária é apadrinhada por um presidente que é ícone do brasileiro comum, por se enxergar nele? - um ex-sindicalista que vencendo preconceitos históricos se tornou líder de uma país com uma oratória cativante e simpatia popular e que na sua administração tem mostrado números expressivos de desenvolvimento, sendo este desenvolvimento reconhecido até no exterior? E ainda mais tendo essa candidata participado desse processo de desenvolvimento?

Também na corrida presidencial há uma candidata nerd com perfil diferenciado: Marina Silva, historiadora, que de origem simples e vida sofrida (aprendeu a ler aos doze anos), tornou-se lider de sua comunidade e pelo estudo conseguiu reconhecimento pessoal e político. Ela poderia ser classificada como uma eco-nerd, pois tem se empenhado no discurso ambientalista e defesa dos trabalhadores que vivem dos recursos naturais principalmente na amazônia. Finalizando, temos outro candidato nerd nas eleições deste ano, só que concorrendo para o governo de São Paulo: o ex-governador e candidato Geraldo Alckmin. Alckmin pode ser encaixado na lista de político-nerd: é adepto da administração técnica, não é um excelente orador, apesar de ser político de carreira. Quando foi vice-governador ao lado de Mário Covas, se diferenciava deste, um político tradicional de posições e discursos inflamados. Um jornalista paulista o apelidou de 'picolé de chuchu' devido a sua forma diferenciada de praticar política, sem grandes discursos e sem utilizar o personalismo que é algo tão característico da política nacional.

Seriam os políticos-nerd um novo horizonte na administração brasileira? Talvez sim, mas eles certamente se adequarão a esses novos tempos, transitando entre o lado técnico de administração pública e entre o lado político propriamente dito. São possivelmente o reflexo de uma nova era, onde lutamos para buscar o equilíbrio entre a administração da técnica - tecnologia e o lado humano. E o lado humano jamais pode  ser ofuscado, seja pela valorização exagerada do tecnicismo (que no setor público vira tecnoburocracia) ou pelo culto cego à  retórica inflamada, às vezes demagógica e com resultados sociais desatrosos. Tendendo para qualquer um dos lados, quem perde somos nós eleitores e cidadãos, que pouco nos importamos se o candidato eleito tem o perfil tradicional ou nerd  (técnico), mas apenas que sejam competentes e honrem nosso voto de confiança.

Fontes
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u427946.shtml

10 comentários :

Alberto Magalhães disse...

Você, nessse texto, muito bem retrata a atual condição dos candidatos à presidência do Brasil talvez fruto do amadurecimento político que estamos vivenciando. Eu o reproduzi no meu blog.

Marcos Vinicius Gomes disse...

É mesmo um amadurecimento, Alberto.

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Gostei do texto...Eu, particularmente, não aprecio muito esses "políticos técnicos".. Gosto mais de emoção e tal, inclusive no horário político. O PSDB deveria ter investido em Aécio e não Serra... Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net

Marcos Vinicius Gomes disse...

É sim, o Aécio traria um fôlego diferente e inédito por se encaixar nesse perfil de novos políticos. Entretanto ele tem um ar tradicional, meio que herdado do avô.
Abs.

André San disse...

Muito bem colocado. Os atuais candidatos tem um lado técnico (ou nerd) bastante latente. Acho isso uma boa qualidade.
André San - www.tele-visao.zip.net

Eduardo E. S. Prado disse...

Marcos,

Interessante essa sua comparação. É verdade, os três candidatos à presidência têm em comum um perfil mais técnico somado a pouco carisma. Mas seriam mesmo todos nerds? Acho Marina Silva mais próxima de alguém que trabalha a partir de convicções ideológicas do que alguém com um perfil técnico. Ela, por exemplo, foi contra, ate a última hora, a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, mas por convicção ideológica e não por conhecer alternativas tecnicamente viáveis. Tem um discurso que agrada, sobretudo, a classe média, mas tem dificuldade de apontar alternativas ao desenvolvimentismo petista ou ao liberalismo econômico peessedebista, por isso não consegue emplacar.

José Serra é um político administrador, mais competente como político que como administrador, aliás. Mas nerd? Serra trabalha de acordo com convicções ideológicas bem definidas no que se refere a administração estatal: Para ele governar é cortar gastos, é fazer o máximo possível com o mínimo de recursos públicos. Para isso transfere parte do que seria atribuição do Estado para a iniciativa privada, como no caso dos pedágios. Até aí, beleza, mas a convicção de Serra de que esse é a única via correta o impede de perceber os erros dessa política na oferta de serviços essenciais à população como Segurança Pública, Saúde e Educação, e de corrigir os problemas que esse modelo de administração só faz aprofundar.

Serra é incapaz de admitir falhas e, mais ainda, de aceitar alternativas ou ouvir propostas que fujam ao que ele acredita. É o tipo de pessoa que se pauta pelos métodos, pela teoria, mas não consegue visualizar o todo, nem avaliar o resultado na pratica. Acho que isso já o desabilitaria como nerd.

Talvez a Dilma esteja mais próxima daquilo que seria o perfil de uma nerd. Números, metas e prazos parecem ter feito parte da sua vida até aqui. Como não era política não precisava se preocupar em agradar a gregos e troianos. Claro que ela também se pauta por convicções ideológicas, é desenvolvimentista de carteirinha, mas trabalhar nos bastidores e ter que "se virar" com orçamentos enxutos fez dela uma administradora realista, que trabalha para tornar possível pelo menos parte daquilo que seria o ideal, mesmo que o ideal nem sempre seja possível, sem brigar com os fatos. O sucesso do governo Lula no segundo mandato só foi possível graças a isso.

Talvez Dilma vença essas eleições e aí saberemos se um nerd, ou melhor, uma nerd, além de boa com números, metas e prazos, também pode ser boa como presidente.

Desculpe o tamanho do comentário, é que eu me empolguei.

Um forte abraço!

Marcos Vinicius Gomes disse...

É sim André, uns mais outros menos, mas eles são bem diferenciados.

Eduardo,

O Serra como vc disse se pauta pelo método e teoria, e não consegue ver o todo. Acho que isso o qualifica um pouco como nerd, já que se fosse tradicional, veria o todo tanto no social quanto no político e técnico.
E imagine se seu comentário é longo, eu gosto de ler comentários longos e pertinentes!

Abraço!

Carlos disse...

O Serra ser bom comos números!!! Teno minhas considerações. Alias, como economistas, no final de 2008, ele previu uma catastrofe para a economia no Brasil. Criticou o prognostico de Lula (a marolinha) e acabou errado em todas. Talvez pelo fato de ser oposição criticou os números sóp para ffzer frente ao governo? Um detalhe é que ele não participa de comícios!!!! Eu acho até estranho um candidato não fazer comícios? Sem falar, que ele não é muito chegado ao diálogo (vide casos das greves em São Paulo) e isso e desastroso em uma democracia.

Marcos Vinicius Gomes disse...

Carlos,

Eu me referi a 'bom' não no sentido primeiro da palavra, mas no fato de ele dar atenção apenas a números, esquecendo que por trás existem pessoas. E quanto ao comício, é muito estranho mesmo, do que ele tem medo?

Carlos disse...

Pela primeira vez nesta campanha o José Serra participa de um comício que se realizaou aqui em Aracaju-SE.