27 de set de 2012

As princesas lésbicas contra o rato bronzeado

A mostra War Dirty Tortures do mexicano Rodolfo Loaíza, exposta na galeria La luz de Jesus, em Los Angeles, EUA, pode ser chamada de uma exposição iconoclasta que se utiliza de recursos da pop art para seus intentos. Nela são mostrados personagens de filmes de animação clássicos produzidos pela The Walt Disney Company em cenas consideradas provocadoras. Ali há, por exemplo, personagens femininas que povoam há décadas o imaginário de crianças em diversas partes do mundo em cenas de lesbianismo, consumo de drogas ou em situações de degradação moral. Também compondo esse quadro vanguardista, há um discurso intertextual entre várias produções, onde ícones da cultura pop interagem com as criações de Disney em situações bizarras - há uma ilustração onde Branca de Neve é ameaçada de morte pelo personagem Jason, o serial killer da série de filmes de terror 'Sexta-Feira 13'. Ele, nesse quadro, se prepara para dizimar Branca, após já ter decapitado dois coelhinhos e um passarinho. Não é a primeira vez que personagens Disney são utilizados em projetos de releituras traduzidas em obras de pop art. Essas releituras são as preferenciais quando algum artista vanguardista quer transmitir uma atmosfera de engajamento, questionando a gigante do entretenimento e sua ideologia disseminada em produção cultural de escala internacional. A estética kitsch, essencial nestas situações, é amenizada pelo viés de contestação, na criação da possibilidade de reescrita dos valores arraigados nesses produtos culturais com seus ícones, que na visão do artista, são representações de uma inadequação histórica, algo que não pode, sob um olhar crítico, permanecer intocado. É uma espécie de paródia cínica de uma realidade cultural. 

E em uma primária análise de sua linguagem, a pop art contestadora poderia ser classificada como uma obra partidária do contemporâneo politicamente incorreto, expressão certamente desprovida de significado genuíno assim como o politicamente correto, pois a política (no sentido primeiro dado pelos gregos à essa palavra), visaria o bem coletivo, justo, tendo como por base a ética. Veja que a palavra político, pode ser usada no sentido de alguém cortês, polido, em situações diversas. Uma pessoa politicamente incorreta, estaria fora deste contexto e de qualquer possibilidade de ser considerada ética e justa, desprovida de referenciais necessários para a manutenção da vida política (social) plena. O que sobraria nessa classificação da proposta da arte vista na exposição do mexicano Rodolfo Loaíza, seria a nomenclatura de arte politicamente correta (redundância). Pode ser estranho isso, uma arte que visa chocar ser vista como 'correta', mas é um vetor de um mesmo processo que está constituindo as bases do pensamento correto. Na outra ponta deste vetor, está uma espécie de contrapartida. A arte de Loaíza com seus personagens contestadores não teriam razão de ser se não instigassem no observador de sua arte, o desejo de repulsa que culminaria provavelmente no sentimento de repreensão, censura. Mas não há, no atual  estágio o necessário vigor coletivo para isso, pois alguém que censurasse os intentos do artista, seria tido como retrógrado, ou insensível aos ares democráticos e libertários que a mostra se propõe a trazer. Entretanto a censura deve existir, de modo irrevogável, não neste lado do processo, mas apenas em sentido contrário, onde haveria uma tentativa de reescrita histórica, uma reparação de injustiças, para que a proposta politicamente correta tenha razão de ser em sua essência. Porém, necessário dizer, essa censura é constituída de uma representação que alardeia a justiça e a equanimidade, caso alguém questione os meios para que se chegue a esse resultado equânime por meio da patrulha e do cerceamento de ideias, indispensáveis aqui.

É o que ocorre no impasse do personagem de desenhos animados Speedy Gonzales (no Brasil conhecido por Ligeirinho) que foi banido do canal Cartoon Network americano, em uma orquestração de censura visando satisfazer as diretrizes do politicamente correto em voga nos EUA. O personagem da Warner Bros, outra gigante do entretenimento, foi enjaulado por conter, segundo a relações públicas da CN Laurie Goldberg em entrevista ao site FoxNews, mensagens inadequadas para o século 21. E qual seriam essas mensagens? O uso de estereótipos étnicos na construção do personagem de desenho animado. Para Goldberg, é inaceitável o fato de existir um ratinho mexicano que convive com outros ratos (alguns deles que bebem) em aventuras onde os gatos gringos inimigos como Sylvester (no Brasil, chamado de Frajola) são sempre enfrentados com habilidade e inteligência. Nem mesmo a premiação de seu desenho com o Oscar em 1955 e indicações ao prêmio em filmes em 1957 e 1961 foram suficientes para que Speedy fosse liberado da censura no canal para o público americano, o que contemplaria a vontade de centenas de milhares de fãs, inclusive fãs mexicanos. Mas ironicamente, ele não foi banido da versão do Cartoon Network Latin America, direcionado ao público latino, onde é muito popular. Neste caso, o mexicano Rodolfo Loaíza levou a melhor sobre o 'conterrâneo' Ligeirinho. Neste contexto, eles 'formam' forças contrárias, são uma espécie de vetor, um de cabo de guerra que se puxa em apenas um sentido.

Daí a impossibilidade de que se afirme ser o politicamente incorreto a antítese do seu correlato correto. Um mesmo possível apreciador da iconoclastia da exposição War Dirty Tortures que defenda a liberdade de expressão na utilização irrestrita de ícones da cultura pop, dos desenhos infantis em situações de quebra de paradigmas morais, provavelmente seja favorável à censura da exibição de Speedy Gonzales e seu sombrero, juntamente com seus brados de Arriba! Arriba! no Cartoon Network. E este apreciador usaria os argumentos mais desconexos para tal - a preservação das crianças de estereótipos, de situações de violência, de disputa, de concorrência irrestrita entre protagonistas e antagonistas. A censura de um simples personagem de desenho animado seria a reescrita como 'preservação da integridade' das crianças. É uma da pontas do processo, a outra é a tentativa de desconstruir os referenciais que representem a 'cultura indesejável' a ser eliminada (no caso a cultura americana com os personagens Disney). É um paradoxo a situação descrita, ainda mais quando está vinculada às simbologias lúdicas apreendidas pelas crianças. Esse processo de paradoxos politicamente corretos também tem sido visto na justiça - principalmente na brasileira, onde de um lado temos um excessivo instrumental jurídico que favorece de certa forma a não responsabilização de atos infracfionais de menores perante a lei nos mais diversos contextos, sendo que na outra ponta temos o processo de desconstrução das simbologias mais elementares que são a base de uma sociedade justa e que proteja suas crianças e adolescentes. Um exemplo prático de desconstrução de simbologias mais elementares, é a absolvição de um rapaz de 20 anos, acusado de estupro de uma garota de 12, feita pela justiça gaúcha em 2009, sob a alegação de que a garota não era mais virgem quando iniciou o namoro com o jovem maior de idade. Quando existe em um mesmo contexto o nonsense que choca e parece apenas querer desconstruir de modo iconoclástico jogando fora toda uma possibilidade de construção, ao lado de uma certa reescrita das significações de paradigmas justificando-se para isso a reparação de injustiças, temos a mais elementar e contraditória face do politicamente correto. 


14 de ago de 2012

O dia em que até a rainha virou pop

Em texto sobre a festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 Reinaldo Azevedo destoou do evento, classificando-lhe como 'uma das coisas mais horrorosas de todos os tempos', destacando o fator do  'multiculturalismo', algo negativo na perspectiva do jornalista. Esse 'multiculturalismo' notado por Azevedo foi marcado principalmente pela presença do rapper britânico Dizzee Rascal, que ao lado de outros artistas representantes do mundo pop, foi responsável pela linguagem plural que desagradou a ele e a alguns jornalistas esportivos (Galvão Bueno classificou a festa como 'pouco animada').

Na essência, não houve uma tentativa de se fazer uma festa que transmitisse a ideia de que o Reino Unido é um país multiculturalista, porque a terra da Rainha Elizabeth II já é em si uma mescla cultural há tempos, já desde quando o império que dominou os quatro cantos do planeta por mais de 200 anos caiu em declínio no período do pós-guerra, nos meados do século XX. Só que essa característica multiculturalista do país pop foge da classificação mais comum que essa palavra possa carregar, de aceitação irrestrita de referenciais culturais externos (geralmente de países que foram colonizados e oprimidos pelas potências coloniais europeias), em uma atitude de mea culpa que talvez trouxesse um fardo mais leve para povos  despojados de suas riquezas pelas colônias e que agora sofrem na mão de dirigentes pouco aliados à democracia, entre eles presidentes de países árabes e da África subsaariana.

Desde o início da cerimônia percebeu-se a proposta de se narrar a história e a cultura do país, sem que se utilizasse, necessariamente, a simbologia mais comumente associada à Grã-Bretanha - a pompa e circunstância. Nada de referencias medievais, tudo começa na Inglaterra de Shakespeare concomitante com o reinado de Elizabeth I, período onde se estabeleceram os pilares do que viria a ser o império britânico, uma época de grande progresso cultural e científico. Após isso, vem a Revolução Industrial com a produção em série e com suas chaminés e a expansão de mercados mundo afora. A guerra e suas agruras que são esmaecidas com a arte da literatura com contos infantis, uma especialidade britânica. Mas, esse já é um Reino Unido que não consegue viver apenas do passado relembrando os tempos de glória - decide então usar de sua 'criatividade pragmática' para se reinventar tornando-se, dessa forma, o grande assimilador-transformador de cultura do século XX em inúmeras áreas, o que lhe dará novo fôlego para seguir como uma das mais importantes nações do mundo.

Foi isso o que se mostrou na festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Os ingleses não tem um ritmo nacional próprio? Não tem importância, pega-se o rock americano que ia mal das pernas nos anos 1960, dá-se uma revigorada nos acordes, na composição, na formação (os grupos de rock praticamente nasceram na Grã-Bretanha) e daí é só esperar o melhor resultado: uma escola que virou referência mundial no ritmo. Na cerimônia havia tantos representantes do rock e do pop, de várias épocas e estilos, que provavelmente não houve quem não se identificasse com um deles. Também um destaque especial para a utilização de percussão nas apresentações, algo que remete às culturas das antigas colônias africanas, que com sua influência, tem importância ímpar na formação de vários ritmos como jazz, blues e o próprio rock-and-roll, algo ignorado por boa parte dos consumidores desses ritmos.

Mas no meio de tanta assimilação de ritmos, estilos e sons diversificados, absorvidos de vários cantos do mundo por onde a Grã-Bretanha já fincou sua bandeira desde os tempos em que o país tinha a maior frota naval do mundo, até à geração Beatles, houve um momento genuinamente britânico. O país que não conseguiu assimilar o cinema, mas que criou Charles Chaplin, teve Elizabeth II como protagonista de uma cena que representa muito bem o humor nonsense inglês (que foi representado na festa de abertura também pelo  genuinamente inglês Mr. Bean). Ela ao lado do personagem James Bond (Daniel Craig) 'tomou parte em uma missão importante' ao lado do espião mais famoso do mundo: 'embarcou' em um helicóptero no Castelo de Buckingham  e 'saltou' no estádio olímpico. Um marcante exemplo de que os ingleses, inclusive a rainha com seu universo burocrático e de formalidades que a faz parecer distante, sabem se reinventar e conseguiram mostrar isso ao mundo nessas olimpíadas, fazendo um evento com criatividade e ousadia, mesmo em tempos difíceis. Tomara que o Brasil consiga também um bom desempenho nesse quesito, e que possa surpreender a todos nós nas próximas olimpíadas.


23 de mai de 2012

A máscara de O Teatro Mágico

O Teatro Mágico, como o próprio grupo se define, é uma trupe que tem como bandeira a divulgação de sua música por meios digitais através de downloads das canções, disponibilizadas gratuitamente, além de uso maciço de recursos de mídias como as redes sociais. Com esse discurso de produtores independentes de cultura, O Teatro Mágico tem nos últimos oito anos conquistado muitos fãs, na maioria estudantes do Ensino Médio e universitários, que aderem à sua proposta de interatividade que vai além das mídias sociais. Suas apresentações são uma mistura de show musical, teatro, espetáculo circense com saraus. Todos os integrantes, liderados pelo idealizador e dono do grupo, Fernando Anitelli, usam maquiagem de palhaço. A diferenciação está na maquiagem do líder, uma espécie de cópia da máscara de Coringa, arquirrival do personagem dos quadrinhos Batman. A imagem de Anitelli, apesar do apelo em entrevistas de um certo espírito de coletivismo, se sobrepõe sobre os demais integrantes nos materiais de divulgação. Ou ele está representado isoladamente - tal como no cd 'Segundo Ato, onde ele é mostrado segurando uma máscara acompanhado com ilustrações subliminares de uma vagina dilatada sendo cortejada por um espermatozoide - ou então em fotos onde o grupo é mostrado em estilo banda de pagode com ele a frente do grupo disposto em 'v'.

As músicas são do próprio Fernando Anitelli em composições de parcerias. Há uma pretensão literária em suas letras, algo explícito em entrevistas de Anitelli e repetido nos depoimentos de fãs d' O Teatro Mágico. O último disco da trilogia do OTM é apresentado como um trabalho que ''representa o amadurecimento musical da banda no último período''. O Teatro é um pacote e tem data para acabar. Como sendo um produto cultural 'validado', talvez daí venha de modo implícito o grande sucesso entre os jovens principalmente, sempre ávidos por vanguardas. O referido cd é o 'A sociedade do espetáculo', termo cunhado por Guy Debord (1931-1994), filósofo francês que fez vários estudos culturais e de comunicação sob uma perspectiva marxista. Neste trabalho, uma das músicas O mundo não vale o mundo meu bem é mostrada como de inspiração 'drummondiana'. Esse é o mote principal do grupo - o discurso do diálogo com formas ''elevadas'' de cultura (entre elas a literatura), tentando desviar o trajeto da trupe em relação às formas industrializadas de produção musical e cultural atuais.

A questão é que o público principal do grupo de Anitelli são jovens, geralmente os de melhor instrução com acesso a bens culturais inacessíveis a grande parte da população. Um desses bens culturais seriam estudos de língua portuguesa e literatura, literatura que nem sempre é estudada de modo tradicional. É comum entre professores de língua portuguesa a utilização de textos de música popular brasileira para o desenvolvimento de suas aulas. Chico Buarque, Caetano, Renato Russo, Cazuza, e mais recentemente rap, são recorrentes em leituras e exercícios nessas aulas. O problema maior não é a utilização desses autores, que certamente tem seu valor, mas a utilização única e exclusiva desses autores que, podem ter bebido em fontes de escritores, mas nunca poderão ser comparados a eles. E nessa falha de referenciais de textos autênticos, que certamente deixam lacunas no aprendizado dos alunos, é que se sustém a aura vanguardista de O Teatro Mágico. As letras do grupo, em si, não possuem elementos literários, mas sim o puro e simples jogo de palavras, trava-línguas, comparações. Não existem figuras de linguagem tais como metáforas (p. ex ''Lua, balão dourado sobre mim''), hipérboles ou exageros (p. ex.''Vou te dar a lua''), paradoxos (p. ex. ''Eu amo enquanto te odeio''), prosopopeias ou personificações (''A chuva sussurrou no meu ouvido''). Enfim, esses referenciais não são vistos nas obras do grupo. 

Abaixo, alguns trechos (em itálico) de três composições de OTM, que desenvolvem este argumento acima. Eles estão em ordem cronológica de suas produções: 'Entrada para raros' (2003), prosseguindo com 'Segundo Ato' (2008) e com o atual 'A Sociedade do Espetáculo' (2012). O primeiro texto é Sintaxe à vontade, de Fernando Anitelli:

''Sintaxe à vontade'' 

Sem horas e sem dores, 
Respeitável público pagão, 
Bem-vindos ao teatro magico. 

A partir de sempre 
Toda cura pertence a nós. 
Toda resposta e dúvida. 
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser, 
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto. 
Nenhum predicado será prejudicado, 
Nem tampouco a frase, nem a crase, nem a vírgula e ponto final! 
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas, 
E estar entre vírgulas pode ser aposto, 
E eu aposto o oposto: que vou cativar a todos

O uso da palavra sintaxe (estudo gramatical que analisa na frase os arranjos tais como o sujeito, o predicado, o objeto direto , o indireto,etc) é o tema, que é
confundido com 'sinta-se'. Há referências a termos gramaticais, ''aposto''(que é
associado com ''oposto''), predicado (que é associado a 'prejudicado'). Nada além disso. O destaque é mesmo os jogos de palavras, comuns em práticas pedagógicas com alunos do ensino fundamental das primeiras séries, mas certamente defasadas para um público de nível secundário ou universitário. A composição, certamente estaria adequada na redação de um programa humorístico de conteúdo familiar e acessível a todos. A seguir, um trecho 
de ''Pena'' de Fernando Anitelli e Maíra Viana:

''Pena''

O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Um sorriso por ingresso 
Falta assunto, falta acesso 
Talento traduzido em cédula 

E a cédula tronco é a cédula mãe solteira 

O poeta pena quando cai o pano 
E o pano cai 
Acordes em oferta, cordel em promoção 
A Prosa presa em papel de bala 
Música rara em liquidação 

E quando o nó cegar 
Deixa desatar em nós 
Solta a prosa presa 
A Luz acesa 
Lá se dorme um Sol em mim menor 

Aqui temos uma brincadeira da ''língua do p''. ''O poeta pena quando cai o pano/ E o pano cai''. Mas não avança mais do que isso,além da associação de 'poeta' e 'pena' (pena com significado de sofrimento e de caneta). Os trocadilhos seguem - ''cédula tronco'' (célula tronco) é a ''cédula mãe (célula mãe) solteira''. E que venham as associações: ''E quando o nó cegar''/''A luz acesa/Lá se dorme um Sol em mim menor''. É pouco motivador saber que uma composição se utiliza de significações do dicionário, ainda mais sabendo que inúmeras palavras do dicionário tem mais de uma significação. Banco (casa de poupança), banco (da praça), banco (de areia) e por aí vai. O que Anitelli propõe é o óbvio exercício de aproximação, algo semelhante àquelas composições que se fazem na escola com recortes de palavras de revista, compondo-se palavras, frases e períodos. 

A seguir, o epílogo da trilogia com Esse mundo não vale o mundo meu bem, onde temos uma diferenciação - infelizmente não no estilo, mas, na ideologia. Nesta última composição analisada, além dos monótonos jogos de palavras, há o engajamento. A parceria universal e fraterna é composta pelos irmãos Fernando e Gustavo Anitelli: 

''Esse Mundo Não Vale o Mundo meu bem''

É preciso ter pra ser ou não ser 
Eis a questão 
Ter direito ao corpo e ao proceder 
Sem inquisição 
A impostura cega, absurda e imunda 
A quem convém? 
Esta hétero-intolerância branca te faz refém

Esse mundo não vale o mundo meu bem

Grita a Terra mãe que nos pariu: Parou
Beleza de natureza vã e vil, cegou
Ser indiferente ao ser diferente
É sem senso.
Agoniza um povo estatisticamente, seu tempo
Na maneira, que for
Na bandeira, na cor

Colonizam o grão, as dores da estação
Somos massas e amostras
Contaminam o chão, família e tradição
Nossas castas encostas 

Esqueçamos os óbvios ''Grita a Terra mãe que nos pariu: Parou'' ou então o ''Beleza de natureza vã e vil, cegou'' que podem ser encontrados a varejo em semelhantes de certos setores sofisticadíssimos da MPB. Atentemos para o discurso novo, talvez alimentado pelo entusiasmo para com novas correntes ongueiras, dissociadas dos referenciais históricos, éticos e culturais que são jogados na vala das intenções vanguardistas. Anitelli aposta na mais marqueteiras formas de pensamento, tomando carona no mainstream isento, negador da política, que quer transformar o mundo, mas que não sabe nem governar a própria cozinha. 

É lamentável ter que deglutir trechos sem estética, como em ''Ter direito ao corpo e ao proceder / Sem inquisição/ A impostura cega, absurda e imunda/ A quem convém/ Esta hétero-intolerância branca te faz refém/ Contaminam o chão, família e tradição''. Anitelli abusa do tom ao, seguindo a corrente atual, associar clichés históricos e sociológicos misturados com uma boa dose do tempero demagógico. Aonde se encontram indícios que a heterossexualidade é prerrogativa branca? A associação de palavras - ideias - espúrias (''direito ao corpo inquisição/impostura cega, absurda e imunda/intolerância branca te faz refém'') somente faz confundir, trapacear e simular de forma parcial, temas que deveriam ser iluminados de forma competente através da música, cinema, literatura, enfim, da arte. Arte e competência que infelizmente faltam ao O Teatro Mágico. 

Somos um país racista, das senzalas e elevadores de serviço. Violento. Desumano. Corrupto. Entretanto, pegar conceitos estereotipados e no mais abjeto processo de pasteurização cultural impor aos jovens e ao público em geral a reescrita de seus ideais, que pelo andar da carruagem - ou da trilogia - não são tão nobres assim, é forçar a nota. Mesmo que se arrogue o justificativa da mudança. O que é mais frustrante é saber, que mesmo se arrogando independente, vanguardista e inovador, O Teatro Mágico é o mais do mesmo. Disponibiliza músicas em um período onde o cantor/compositor ganha irrisoriamente por vendas de cd's. Faz coro contra o mainstream cultural, mas canta em salas de espetáculos ''nobres'' e caras. Tem o discurso da fraternidade incondicional, mas a refuta ao abraçar ideologias que satisfazem suas necessidades egoísticas imediatas que afrontam, sem direito ao debate, os seus semelhantes, suas crenças, histórias, posturas morais e éticas. E o mais frustrante ainda, entre aquilo que já não poderia ser mais desabonador, é saber que muitos continuam bebendo da fonte jorrada por Anitelli e sua trupe. São jovens que em pouco tempo terão suas vidas mundo afora alimentados certamente pelos conceitos pouco altrístas do O Teatro Mágico. É sabido que Anitelli tem tido problemas de alergia devido à maquiagem facial. Quando a máscara cair e o circo tiver descido a lona, o estrago já estará feito. Ele contará os lucros, enquanto o público jovem, já tão manipulado e mal orientado terá, ecoando em suas mentes, a didática nada fraterna da trilogia de O Teatro Mágico. 

21 de mai de 2012

Plutocracia televisiva

O programa 'Agora é tarde' de Danilo Gentili apresentou em uma de suas edições,  durante o quadro Mesa Vermelha (uma espécie de resenha), um trecho do programa 'Caldeirão do Huck', onde o apresentador Luciano Huck interagia com uma dançarina de escola de samba. Neste vídeo, um descontraído Huck perguntava qual era a profissão da moça (ela era professora de Língua Portuguesa) para, em sequência, pedir para que ela repetisse algumas palavras complexas, além do trava-língua 'Em um ninho de mafagafos'. De pronto ela respondeu a ele que era professora e não fonoaudióloga. Ao fim da exibição do vídeo, Ronald Rios, que é repórter do 'CQC', afirmou de modo jocoso, que Huck não consegue viver com a ideia que alguém pode ter 'dois talentos'. E ainda salientou que Luciano Huck teve entre suas criações as dançarinas Feiticeira e Tiazinha, além de ter copiado a ideia do programa 'Pimp my ride' da MTV americana, que 'repagina' carros velhos de telespectadores. Detalhe: neste programa, o participante não precisa se submeter a provas vexatórias, para fazer jus à reforma.

Luciano Huck, faz parte de uma linhagem, tal como Roberto Justus e em menor escala, João Dória Jr, que poderia ser chamada de 'plutocracia televisiva'. Trazem à televisão, além de conteúdos agregados aos seus talentos individuais e suas imagens, também um conceito diferente daquele geralmente associado às pessoas do veículo, um tipo de ideal de bem-aventurança já construído mesmo antes do ingresso nas mídias onde trabalham. Esse ideal de profissionais de mídia bem sucedidos, ligado a uma imagem de habilidade nos negócios e  administração da carreira parece ser um fenômeno pós 1990, quando diretores executivos (também conhecidos como CEO's) começaram a ganhar destaque em noticiários, jornais em revistas, sendo alardeados como novos referenciais de visão empreendedora, empenho pessoal, arrojo e senso de oportunidade. Seriam, de forma abreviada, novos ícones neoliberais. 

Além de terem suas trajetórias vislumbradas pela mídia especializada em economia e negócios, seus exemplos de bem-aventurança foram disponibilizados para o público leigo por meios de livros best-sellers de auto-ajuda, com dicas de conduta para se chegar ao sucesso profissional e pessoal. Verdadeiros manuais para aqueles que vislumbravam algo a mais do que uma carreira modesta acompanhada de uma modesta visualização social, comumente propagada como algo secundário, mas de modo pragmático, requisitada em qualquer núcleo social. Jack Welch, Abílio Diniz, Donald Trump entre outros gurus começaram a discorrer, para o leitor necessitado de iluminações e dicas para suas carreiras, como venceram os desafios, inovaram subjugando propostas ultrapassadas, lideraram grupos, instituíram novos conceitos, assegurando seus nomes entre aqueles que fazem a diferença no inclemente mundo corporativo. Enfim, como fizeram, cada qual a seu modo, suas reengenharias. Reengenharia é um termo muito recorrente nesse meio empresarial, algo como 'reajustes operacionais' - eufemismo para readequações que culminam quase sempre em demissões, terceirizações, precarização de contratos trabalhistas, entre outros 'reajustes'.

Mas o grande desafio no caso específico dos 'bem-aventurados' nos negócios que enveredaram pelos corredores da mídia televisiva, difundindo seus valores e conceitos através das telas dos mais diversos telespectadores, é conseguir justificar seus talentos de comunicadores, eliminando a desconfiança que o público em geral tem para com eles e em relação a seus eventuais potenciais de apresentadores. Algo que tire o estigma de aventureiros em busca de 'realizações egocêntricas', que mostre ao público que eles tem potencial para transformar suas habilidades de gerência em algo mais subjetivo e mais empático, e consequentemente, mais artístico. O apresentador Silvio Santo talvez transmita isso, já que consegue conciliar as facetas de administrador e artista de forma satisfatória diante do público.

Entretanto - e isso pode ser justificado pelo comentário de Ronald Rios - essa é uma possibilidade que ainda não foi atingida pelos 'novos artistas' televisivos citados. Analisando-os um a um, não temos boas perspectivas. Peguemos inicialmente Dória Jr, que parece mais um propagandista nato das virtudes (ninguém quer questioná-las aqui) dos entrevistadores em seu 'Show Business', com citações de casuísmos  e anedotas de 'homens de valor' que deixam qualquer 'mortal' telespectador ressabiado, pedindo para que o programa acabe logo. Já sua performance de showman no nefando 'O Aprendiz', quando assume o chefe 'morde-assopra' é de fazer arrepiar os cabelos já arrepiados de Donald Trump. 

O que dizer então de Roberto Justus, o apresentador-cantor que, de forma canastrona personificou a megalomania filistina misturada a um toque de brejeirice tupiniquim? Como justificar a encenação de si próprio, dialogando com seu próprio ego em situações de um reality show que, enevoado sob a aura de entretenimento pedagógico, traduz o que há de mais caricatural e 'representativo' do mundo corporativo? 

Finalizando, como justificar Luciano Huck, o mais palatável e bem sucedido dos self made men que continua a sua sina de apresentador iniciada 'por cima' quando, empresário da noite, arrendava horários de madrugada na televisão para fazer sua versão 'Amaury Jr. descolada'? Como ser condescendente com alguém que lançou dois 'personagens fetiches sexuais', além de cópias de quadros de  programas  tanto nacionais  quanto estrangeiros? Luciano, por ser o mais novo dos três apresentadores, poderia olhar para sua trajetória e repensá-la com mais atenção. Um bom talento pode valer mais do que mil moedas. Mas quem tem mil moedas, talvez não encontre um talento disponível para aquisição imediata, mesmo que procure de modo eficiente dia e noite.


25 de mar de 2012

A adorada Adele

Se a cantora inglesa Adele, 21, tem em seus diferenciais - além do seu talento notório - o fato de não possuir o sex appeal, ou não ter talento para dança ou despreocupação com a própria estética (a cantora afirmou que não faz música para os olhos e sim para os ouvidos), o que realmente a destaca entre as outras cantoras contemporâneas de modo efetivo é o recorte de sua músicas. Um recorte que a faz singular no meio artístico.

Alguns afirmam que sua música é deprimente o que é improvável. Adele, a despeito de ter em seu repertório momentos de introspecção e tristeza, rejeita esse rótulo. Em Someone like you (Alguém como você), em momentos de intimismo raros na música de hoje ela afirma: ''Deixe para lá, eu vou encontrar alguém como você/ Eu não desejo nada, além do melhor para você / Não se esqueça de mim, eu peço, eu lembro do que você disse / Algumas vezes o amor permanece, mas em outras vezes o que resta são as feridas.''

Poucas vezes temos a possibilidade de presenciar um destacamento notável, tanto em relação à obra, quanto ao artista. Adele poderia ser confundida com uma colegial em um festival, com seu gestual contido, o jeito tímido, o anti-estrelismo. Ela parece renegar o veredito de Marshall McLuhan (1911-1980), pesquisador da teoria da comunicação. Em seu livro The Medium is The Message, de 1967 (O meio é a mensagem), o professor McLuhan afirma:

''O mundo instantâneo dos meios de informação elétricos (eletrônicos) envolve todos nós, de uma só vez. Nenhuma separação da composição é possível.''

Sob essa perspectiva de McLuhan, tudo se confunde em uma só composição, isso podendo ser levado para o campo da mídia, publicidade, artes. A sociedade influencia a publicidade, ou contrário? Vejamos as novas tecnologias visuais em 3D, um recurso que 'põe' o espectador dentro do contexto, fazendo-o participar de situações onde antes ele era passivamente um mero contemplador. Há uma fusão entre observador/leitor/espectador com o referencial artístico/literário/cinematográfico e televisivo. 

E nessa mistura é quase impossível de delimitar aonde termina a arte e começa o artista. A vida de artista no mundo contemporâneo é algo que se agrega à sua imagem, tornando pública suas virtudes e desvirtudes. Notícias sobre celebridades (de preferência 'reveladoras') abastecem um mercado lucrativo do mundo midiático. Artistas fundem-se com personagens de seus filmes, cantores não conseguem dissociar as performances do palco e imaginam estar em um ininterrupto festival, onde as estrelas são eles. Porém, um artista diuturno é algo possível?

Quando se ouve uma canção de Adele, tomando por exemplo a citada Someone like you, mesmo que o ouvinte não tenha vivido alguma desilusão semelhante àquela narrada da música, tem a percepção do aspecto autobiográfico da canção. Toma para si, vivencia, aprecia emoções juntamente com o teor intimista - intimista não por ser algo pessoal, mas por mostrar sentimentos universais em uma música justamente classificada como intimista.

Adele canta como uma pessoa (artista) que canta para outras pessoas (público). Aqui vale o destaque para a palavra público, com sua significação desgastada. Ela diz que tem medo de cantar em público (uma vez fugiu pela saída de incêndio) e não gosta de turnês. O que em um artista 'engajado' dentro do repertório do show business seria uma declaração narcisista e voluntariosa, em Adele soa natural, tal qual sua despreocupação com a estética não faça relevância para sua obra. O que importa é a voz e a capacidade de observação para novas composições. Enquanto seguir o que tem feito, terá público que apreciará suas músicas. Ele será mais levado pela qualidade de suas composições do que por outras características, como o mero impacto visual ou comportamental, induzindo o público a serem meros consumidores (fãs passivos) de produtos culturais que dispensem qualquer subjetividade em sua apreciação.



The Medium is the Message - An inventory of Effects, Marshall MCLuhan e Quentin Fiore, Bantam Books, New York, 1967

13 de fev de 2012

Maconha nos olhos alheios nem sempre é refresco

O episódio ocorrido no show de despedida de Rita Lee em Aracaju quando ela, de modo incivilizado, censurou os policiais militares de Sergipe por terem abordado usuários de maconha infiltrados entre seus fãs, poderia ser apenas mais um evento alavancador do intrigante debate sobre legalização de drogas ilícitas e liberdades individuais. Entretanto, o fato pode ser considerado mais proveitoso se analisado sob uma outra perspectiva - a leitura do uso político nas políticas de combate às drogas.

Para tanto, vejamos o impasse detectado na operação da PM de São Paulo que, na região central da capital, está atuando de forma efetiva na área conhecida como 'cracolândia', região esta caracterizada pelo intensivo comércio de crack, acompanhada, a olhos vistos, das consequências que o consumo desta droga causa em seus usuários. Nos primeiros dias da operação do poder público, que englobou polícia, serviços de saúde e de assistência social, houve grande resistência por parte de setores progressistas. Por mais que se justificasse a ação do poder público em favorecimento dos usuários largados à própria sorte, associada à repressão ao comércio de entorpecentes na região, o que beneficiaria a população como um todo, legítima dona dos espaços públicos antes ocupados pela delinquência, não faltaram os discursos contrários à ostensiva do poder público.

A mídia foi invadida por ongueiros, por defensores da descriminação do uso de drogas ilícitas e por representantes do Ministério Público paulista que, ligados ao discurso da esquerda nacional, bradaram seus já cansados slogans 'anti-opressão'. Inúmeros argumentos brotaram no mar das intenções libertárias: que os usuários estariam sendo cerceados em seus direitos e a operação não estaria sendo eficiente (o promotor Eduardo Ferreira Valério chegou a afirmar que a operação trazia 'dor e sofrimento' aos usuários, em uma crítica politizada à questão de segurança e saúde pública); que haveria uma tentativa de higienização social na região. Após discussões entre representantes do Ministério Público e setores da PM, e outros representantes dos governos estaduais e municipal, a operação na região central da capital paulista prosseguiu com resultados positivos para a sociedade, que apóia de modo maciço a ocupação da área degradada pelo poder público, para posterior devolução aos cidadãos.

Voltando ao episódio de Aracaju, poderíamos fazer um paralelo. No show de Rita Lee, a PM sergipana foi hostilizada com palavrões pela cantora paulistana, uma reação inconsequente para com a força policial, que tem em suas metas principais, proteger e servir a população, patrocinando a ordem e a observância às leis. Ali, a polícia, sob o comando máximo do governador Marcelo Déda, situou-se entre a cruz e a caldeirinha - se não reagisse com rigor, frente aos impropérios de Lee, seria tachada como leniente para com a delinquência; se tentasse a retirada dos fãs usuários de maconha, poderia haver tumulto (o que seria provável, visto que os neurônios da musa mutante pareciam propensos a tal ato de apologia à violência contra os policiais). Felizmente prevaleceu o bom senso e sob o comando do governador Déda, os integrantes da PM saíram das proximidades do palco durante o show - o que não significou vistas grossas, pois Rita Lee foi levada para a delegacia para depoimentos. Como toda revolucionária de shopping center, ao retornar a SP, Rita ficou muda, justificando-se estar seguindo recomendações de seu advogado.

O paralelo que se quer fazer aqui é o da efetividade do discurso tão querido e difundido pela esquerda em favor de supostas liberdades individuais, sempre endossadas pelo discurso 'progressista' dos setores mais liberais de nosso país. E o mais intrigante, é a contrariedade entre a teoria e a prática (algo comum entre sistemas direcionados pelo pensamento de esquerda). Vejamos no caso de Aracaju: porque não houve um bom senso em se abordar os usuários? Em um grupo reduzido de usuários que foi detectado, um ou dois policiais militares seriam suficientes e não haveria problemas de acirramento de ânimos. Por que a polícia, sob o comando do petista Déda não fez isso? Ela agiria com a mesma efetividade em situações corriqueiras? 

Evidente que não, pois o estado, sob a perspectiva da esquerda, é supremo, suprimindo sempre as liberdades individuais, sendo por vezes exaltado em situações arbitrárias, onde são justificadas incoerências em favor de ideais da revolução. Certamente Rita foi para a delegacia mais por ter desrespeitado a PM (que certamente deve ser respeitada) do que pela apologia às drogas. Um argumento efetivo para esta afirmativa? Basta olharmos a falta de políticas e campanhas estatais do governo federal visando o combate às drogas - para sermos justos,diga-se de passagem, atualmente há uma campanha contra o crack, mas pelas circunstâncias e pela proximidade de seu lançamento com as operações da polícia paulistana na 'cracolândia', percebe-se o viés político nesta campanha. E além disso, por que apenas contra o crack? Maconha, cocaína e drogas sintéticas não são danosas também à saúde e à população? Ou teriam essas drogas um charme impossível de ser encontrado em seu concorrente mais letal, crack? 

Sempre que se discute uma eventual legislação que favoreça a descriminação das drogas, estudos são mostrados, evidências colhidas de países de primeiro mundo discutidas, discursos intelectualizados de artistas, formadores de opinião são exaustivamente disseminados numa tentativa de que a comunidade aceite os argumentos dos defensores da canábis. Mas será que os atuais defensores da descriminação das drogas em uma sociedade democrática como a nossa teriam argumentos para continuar a defendê-las em sociedades que são modelos de repressão aos direitos individuais, de desrespeito aos direitos humanos, de cerceamento à liberdade de expressão e de imprensa? Será que o fariam com tanta propriedade em países 'democráticos' (sob uma visão esquerdista) como Cuba ou então na China? Certamente que não, pois o que está sendo analisado, não são as liberdades individuais em si, mas sim situações de poder, onde os ideais políticos libertários que pavimentaram o caminho para a ascensão ao poder nunca são coerentes com a prática política de forma efetiva.

Déda deve ser louvado por sua atitude, sob todos os aspectos. Entretanto ela é, de uma forma ou de outra, incoerente com o discurso de seus outros correligionários, que provavelmente jogariam uma sofisticadíssima retórica das 'liberdades individuais' no gesto do governador sergipano (o deputado federal Paulo Teixeira, PT-SP, afirmou que drogas na universidade fazem parte de um 'rito de passagem'). Ou seja, nesta situação, a fumaça, que nos olhos dos outros é refrescante, ardeu nos próprios olhos do governador. Quem saiu ganhando realmente foram os maconheiros de Aracaju e do Brasil inteiro que conseguiram mais subsídios para seus argumentos em defesa de seu vício, direcionados pelo direito às liberdades individuais. Deixo essa expressão 'liberdades individuais', tão repetida (e desvirtuada) nos dias atuais, a critério de interpretação do leitor. Justifico apenas citando situações onde o estado, senhor supremo do pensamento da esquerda, tem dado mostras de invasão dos verdadeiros direitos individuais do cidadão. Cito a 'lei da palmada', votada recentemente (não se quer discutir seu aspecto ético, familiar e psicológico, apenas a invasão estatal em domínios domésticos), além da fanfarronice midiática patrocinada pela primeira dama norte-americana, Michelle Obama, em sua saga contra as batatinhas fritas consumidas no país do Tio Sam.