15 de nov de 2011

Adolescência sem fim

A desoneração de pagamento de alimentos (despesas de subsistência) concedida pelo Superior Tribunal de Justiça a um pai que se eximia de pagar auxílio à filha maior de idade em seu curso de mestrado, é um indicador de nosso tempo no campo das relações familiares e de sua estrutura fragilizada, que tem se acentuado fortemente nos últimos anos.

A adolescência, segundo a Organização Mundial de Saúde vai do período entre os 10 e 19 anos; já para o ECA, Estatudo da Criança e do Adolescente, a fase vai dos 12 aos 18 anos. Entretanto, pela prática cotidiana sabemos que, devido a causas sociais, econômicas e de condicionamentos extra-familiares, esse período é prorrogado além da idade determinada oficialmente. Inúmeros fatores fazem com que esse período seja alongado nos dois extremos - de um lado temos a redução da infância impulsionada pela mídia, que exerce forte influência no desejo, principalmente de meninas, de serem adultas precoces, padronizando comportamentos, trajes e linguajar, além de ser um condicionador do adiantamento da puberdade. Já dentro do período da adolescência propriamente dita, entre os garotos, é comum o assédio por parte da propaganda de consumo de bebidas, o que fortalece o ciclo de doenças como o alcoolismo na vida adulta, além da divulgação da sexualidade inconsequente com risco na aquisição de doenças sexualmente transmissíveis e traumas psicológicos. E no extremo oposto, temos filhos que, mesmo tendo um repertório de habilidades e capacitações distintas da grande maioria da população de um país como o Brasil, ainda subsistem graças ao auxílio financeiro dos pais. Isso é algo comum e até compreensível em tempos onde se exige alta qualificação que demanda tempo e dinheiro, o que faz com que os filhos adiem sua entrada definitiva no mundo do trabalho e das responsabilidades sociais. Entretanto, se não forem essas situações bem administradas pelos pais no sentido de incentivarem a independência filial, problemas acontecerão mais cedo ou mais tarde na 'adolescência extensa'.

Tal fase é um fenômeno da modernidade. Em tempos passados, a passagem da vida de infância para a maioridade se dava em períodos cronológicos menores, tanto pelas necessidades da época, que exigiam menor especialização educacional - com consequente entrada mais rápida no mercado de trabalho - quanto pelos fatores biológicos que acompanhavam os ditames deste período; praticamente a adolescência era um período breve, sem grande relevância. A industria cultural não produzia tanto impacto na vida das famílias e os laços familiares e sociais eram traduzidos em valores que, se não fossem ideais, ao menos possibilitavam a convivência pautada pelo auxílio mutuo e confiança entre as partes envolvidas. As escolhas passadas - sejam de grupo social, de amizade, de enlaces matrimoniais - podem, numa visão apressada com olhos pós-modernos, serem caracterizadas como monótonas, sem sentido, sem liberdade. Entretanto é forçoso questionar se as atuais escolhas são verdadeiramente democráticas para nós, isentas de influências (boas ou más) pautadas por sistemas ideológicos, mídia, paradigmas decadentes, conveniências sociais, entre outros fatores. 

Neste período de grandes transformações físicas, biológicas e psicológicas, o adolescente deveria, a princípio, ser assessorado, para que seu desenvolvimento neste espaço de tempo culminasse com uma vida adulta embasada em fortes referenciais de responsabilidade, indicadores de uma adolescência plena. Entretanto não é isso que ocorre. O site da OMS, citada acima, traz um panorama das necessidades do adolescente: "Adolescentes devem aprender a lidar com o estresse pscicológico, a controlar pressões que surjam, aprender a lidar com suas emoções, a resolver conflitos, estabelecer laços com amigos e família, desenvolver autoconfiança, a manterem-se isentos da pressão das estratégias de marketing, particularmente da indústria do álcool, assim como ter habilidades para lidar com questões como competição acadêmica no meio escolar e para lidar com o desejo por lucros materiais. Entretanto, raramente estas questões primordiais são tratadas nas escolas e dentro das famílias"

A perspectiva do que deve ser priorizado no desenvolvimento da adolescência segundo a OMS - e que é imediatamente constatado pelo próprio órgão ser uma condição difícil nos dias atuais - pode muito bem resumir o que está por detrás do pedido da mestranda paulista que, certamente reprovada nesses quesitos de construção de sua maturidade no período adolescente, veio cobrar, embasada em ideais insustentáveis, o direito de ser tutelada pelo pai, já em uma fase onde deveria ostentar a emancipação financeira, profissional e educacional, além da psicológica. Ela é um exemplo, uma representante ideal do fracasso da educação formal, cultural, social e ética do jovem contemporâneo. Assim como são representantes do fracasso educacional, os 'revolucionários' da USP, que mal-orientados por pais e professores, não sabiam o que queriam, nem aonde queriam chegar - o máximo que conseguiram é reproduzir de modo exaustivo, bordões decadentes aprendidos de ouvidos, ouvidos pouco acostumados a captar a realidade, graças ao desmazelo dos pais. Este 'defeito' de distorção da realidade é certamente um dos responsáveis pelo hedonismo, inconsequência e irresponsabilidade tão visíveis na sociedade vigente.

Provavelmente a jovem que recorreu à justiça contra o pai não teve seu desenvolvimento pleno, sua adolescência não foi um período favorecido pela construção de ideais de cooperação e solidariedade, da formação da identidade crítica, da percepção das características da vida em sociedade alicerçados no binômio direitos e deveres. Provavelmente seus dias de teen , esta fase cantada em verso e prosa por artistas juvenis, foi prejudicada pelas urgências da vida moderna, pelos referenciais equivocados apresentados como direitos infindáveis a uma geração que tem feito pouco por merecer tanto. A luta pelo conforto não possibilitou que a jovem fosse melhor orientada, acolhida pelos pais, visando uma verdadeira educação alimentada por valores consistentes. Quando seu pai percebeu, já era tarde - a obrigação facultativa tanto pelo lado moral, quanto pelo familiar, de auxiliar os filhos adultos já graduados em seus aprimoramentos e especializações, ganhou ares de quimera judicial, pois disseram para a mestranda pseudo-emancipada que seus direitos eram sagrados, esquecendo-se apenas de lhe avisar que seus deveres deveriam ser religiosamente cumpridos. Venceu a justiça, o bom senso prevaleceu. 

É um momento oportuno para que os pais de filhos em formação revejam seus conceitos a fim de que, no futuro, sua autoridade não precise do auxílio da justiça para se sobressair, para se livrar do autoritarismo nos atos egoístas dos próprios filhos. Os adolescentes precisam de norteadores, de paradigmas e pouco importa se a adolescência atual seja uma fase estendida - uma tendência que parece irreversível. O que interessa é que ela seja uma fase de construção de princípios e valores essenciais para o desenvolvimento da sociedade e que se observados, renderão bons frutos no futuro, orgulho para as famílias e agregação de mais cidadãos conscientes para a sociedade. 
 

11 de nov de 2011

O desejo realizado

Alberto Magalhães

As pessoas almejam obter ótimos empregos, altos cargos, polpudos salários, empreender grandes negócios, possuir todos os bens de consumo disponíveis no mercado, imóveis bonitos e confortáveis, querem estar muito belas, com seus corpos em forma, rijos, “sarados”, cabelos e pele viçosos, brilhantes ansiosas por agradar ao mundo e serem agraciadas por ele. Querem ser bem sucedidas em tudo o que o seu coração deseja. Mas mesmo as pessoas que conseguem isso, nem sempre conseguem conhecer o sentimento de realização plena, de felicidade alcançada. Como se o espaço interior da realização pessoal fosse um vazio incomensurável. Temos o exemplo da atriz americana Marilyn Monroe, que apesar de linda, famosa, rica, desejada e admirada no mundo não se sentia feliz e teve um final deprimente. Elvis Presley, Michael Jackson, Amy Winehouse, entre tantos que não conseguiram encontrar felicidade na realização pessoal física, financeira, social, profissional. Parecia que quanto mais realizavam seus desejos, mais definhavam na frustração de superar a sua condição de pessoa vulnerável, frágil, fisiologicamente comum.

Pareciam demonstrar que quando prosperavam e ocupavam todos os espaços que podiam, ficavam limitados, tolhidos, deficientes, engessados na sua própria condição humana que não lhes permitia subir além, transcender, ser nada mais do que já eram. E havia tantos artistas, tantas beldades, tantos talentos em cada área em que eles se destacavam. Embora a soma dos seus talentos e qualidades não os fizessem sentir-se realmente especiais e plenamente realizados. Precisavam agora galgar um nível de excelência que outra pessoa ao seu redor não tivesse alcançado.

A realização de um desejo é a sua morte, ou seja: quando realizamos um desejo o matamos e então fica essa sede interminável de realizar outros desejos e vamos desprezando o que já realizamos, anulando-o como valor elementar ou pondo-o em segundo plano e abandonando ou negligenciando a nossa responsabilidade com o que foi conquistado, às vezes arduamente, preterindo pessoas que nos são caras e subestimando afetos que nos prendem à estrutura basilar da nossa alma. Lembro-me daquela frase tão comum na minha infância, e tão sem validade atualmente, gravada na traseira dos caminhões: “Não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho.” Epicuro disse que a dor nasce do desejo. Certamente haverá algo ou alguém sublime que preencha esse espaço faminto do homem, esse vazio que parece imenso. Cada desejo a se realizar – com suas conseqüências -, é um convite para o caminhar fecundo e uma porta aberta para a descoberta do abismo interior.

Alberto Magalhães é funcionário público em Aracaju, SE e autor do blog Tempo de palavras e pedras

18 de set de 2011

Nem o FBI salva Scarlett

O episódio da divulgação de fotos colhidas por hackers dos arquivos digitais de Scarlett Johansson e a consequente investigação do FBI para a localização dos culpados, é um bom indicador de que seja o momento propício para uma revisão dos conceitos de virtualidade e realidade na transmissão de dados digitais na internet e suas possíveis consequências. As fotos de Scarlett nua circularam por um dia na rede. No dia posterior, seu advogado ameaçou os sites que estavam divulgando as fotos da cliente tiradas em casa, mas o estrago já tinha atingido um tamanho diretamente proporcional à fama da atriz americana. 

Certamente cópias foram feitas, e nessa era de divulgação instantânea de dados - para o bem e para o mal - é impossível medir a dimensão exata dos efeitos causados por um acontecimento como esse a longo prazo. Provavelmente Scarlett tenha algumas dificuldades inicias para conseguir dissociar sua imagem de uma leitura que a associe à vulgaridade, algo que talvez seja imaginado por algum patrocinador ou contratante de seus préstimos artísticos-estéticos. Basta apenas convencer os donos do mundo que pagam seus graúdos cachês, que ela é uma atriz competente e que as fotos de caráter íntimo foram roubadas por pessoas inescrupulosas. E tudo ficará bem, pois Scarlett nasceu para ser Scarlett e isso já é um bom e suficiente álibi.

Assim como Scarlett Johansson teve sua intimidade mostrada em rede mundial, inúmeras outras pessoas não famosas nem prestigiadas tem seus momentos íntimos divulgados pelos mais variados motivos. Algumas são vítimas de verdadeiros criminosos que desejam a ridicularização, afetando a auto-estima das pessoas divulgando dados digitais, sejam fotos ou vídeos,  para constrangê-las. Isso é muito comum em rompimentos traumáticos de relacionamentos, onde uma das partes tenta compensar suas frustrações emocionais expondo a outra parte à vexação pública, publicando materiais que não deveriam sair do âmbito doméstico. Já em outro lado, estão as pessoas que tem seus momentos íntimos mostrados na internet graças a um certo 'consentimento inconsequente', típico de alguém que tem atitudes direcionadas prioritariamente por referenciais de inconsequência - em especial o adolescente e o jovem.

Se no primeiro caso temos a possibilidade de apontarmos mais diretamente o responsável pela divulgação indevida da intimidade de outra pessoa,  para que sejam aplicadas as sanções necessárias pelo ato, no segundo temos todo um repertório simbólico que nos faz confusos, e dentro desse repertório, as mais variadas explicações e divagações sobre de quem seria a responsabilidade pelo constrangimento da divulgação de imagens inapropriadas, mesmo que sejam feitas 'de comum acordo' (geralmente relações sexuais gravadas em câmeras de celular em lugares inimagináveis, tendo sido registrados até mesmo casos de filmagens feitas em escolas). E geralmente - tratando-se do Brasil - não acontecerá provavelmente nada em relação a isso, os adolescentes em sua inconsequência continuarão desorientados, carregando para sempre a associação de suas imagens e de suas condutas com os vídeos inapropriados postados na net, e consequentemente nem eles, nem seus pais e responsáveis serão responsabilizados pelo ato anti-ético e difamatório.

Podemos já aqui, com essa explanação, rejeitar de forma veemente o aspecto 'virtual', geralmente associado à internet. Essa argumento de falsa virtualização é comum em discursos onde se tenta analisar os impactos do uso dos computadores e da internet na vida social das pessoas. Não é levado em conta a simbologia dos dados - fotos ou filmes neste caso - que circulam de forma rápida e são reproduzidos/reprocessados numa velocidade inimaginável. Assim como as idéias se interligam de forma virtual no cérebro e somente terão efeito prático através de ações, os dados da internet também só terão efeito real após o precessamento das informações dos usuários, que a seu critério, reprocessarão as informações para si e para outros de seu grupo.

Sob essa perspectiva o uso inconsequente da internet pelos jovens que postam filmes inadequados, por exemplo, pode ter até uma leitura filosófica. O jovem atual, alimentado por ideais de niilismo, de descrença no amanhã, do uso da inconsequência como ferramenta de libertação da impossibilidade de lidar com a realidade, acredita que o ato impensado difundido pelos bites no mundo além fronteiras da internet, será uma ato apenas. Mal orientado pelo adulto, o jovem acredita na virtualidade pura da rede e que seu gesto tresloucado apenas durará o ato de sua inconsequência, numa negação sequencial, num gesto de negação da própria história, o que é um grande engano. A foto, ou o filme inadequado protagonizado por um casal pode ter inúmeras leituras por vários usuários, sendo que os protagonistas iniciais perdem seus direitos sobre a própria imagem e talvez temporariamente sobre seus destinos. Se não fosse assim, Scarlett não ficaria preocupada com a divulgação não autorizada de suas fotos nua, visto que a número de leituras dessas fotos é enormemente variado. E em um mundo onde as imagens são importantes na construção da identidade e de referencias de credibilidade, não quis ela se arriscar, apesar de nesse caso, já ter sido o material amplamente divulgado pelo fato de ela ser atriz de grande sucesso.

Partindo desse princípio, poderíamos adotar argumentos de caráter educativo e que transmitisse ao jovem uma alternativa para o pensamento inconsequente. Se tal inconsequência faz parte da juventude (atualmente bem acentuada devido à omissão dos pais, educação deficiente e falta de perspectivas de vida) ela pode ser revertida com sua força para uma construção de uma imagem mais positiva sobre o próprio jovem. Isso baseado na constatação de que o jovem busca uma imagem, quer construir uma nova perspectiva sobre si que resultará na leitura que os outros farão dele. Ao perceber que a divulgação inconsequente de imagens inapropriadas através da internet é algo que não possibilitará de modo algum que ele reconstrua a própria imagem após o ato tresloucado, ele pensará muito antes de cometer tal ato, pois não deseja que o domínio sobre sua imagem pertença a outras pessoas. E perceberá que o seu ato de agora trará consequências no futuro, para si e para seu grupo social.

Alertar sobre os riscos reais do mundo 'virtual', que são causados pelas inconsequências do mau uso da rede,  é mais do que urgente na educação para o uso ético da internet. Assim como na vida real, onde todos temos deveres e responsabilidades de cidadão, o 'mundo virtual' também tem suas representações éticas e morais, sendo de escolha do participante acatá-las ou não. Se não quiser acatar as representações, isso é um risco que não pode ser compartilhado, é intransferível. A prudência evita o desassossego. Se não houver prudência, não haverá FBI com toda a sua capacitação que poderá dar cobertura para investigar todos os casos envolvendo crimes cibernéticos com seus perigos do mundo digital. Não existe, na rede mundial, sistema cem por cento seguro - hackers tem feito verdadeiras proezas, invadindo sistemas de órgãos acima de qualquer suspeita em quesito de segurança como governos e agências de inteligência como a CIA. Tal qual no mundo não virtual, o cuidado com a própria segurança dos dados pessoais na internet é uma grande arma de prevenção contra criminosos e pessoas mal intencionadas. 


4 de set de 2011

Menina-mulher, mulher-menina

Thylane Blondeau, modelo de apenas dez anos, foi destaque da revista Vogue de janeiro de 2011. Filha de um jogador de futebol e de uma também modelo, teve fotos divulgadas na revista de moda, o que não seria relevante se não fosse por um pequeno detalhe - as fotos possuem alta carga de sensualidade, indo além de uma suposta representação da vida adulta feita com frequência por crianças em ensaios fotográficos, o que pode ser algo saudável e até lúdico, pois faz parte do processo de desenvolvimento infantil a imitação dos modelos adultos e as situações por eles vividas. As fotos estão disponíveis no portal IG.

O comentário da professora de psicologia e pesquisadora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jane Felipe de Souza reflete bem em seu raciocínio o caso específico que pode, a partir daí, ser utilizado de modo genérico na sociedade contemporânea: "A expressão da sexualidade parece ser uma obrigação para as mulheres hoje em dia, e, consequentemente, é também para as meninas. A idealização de beleza e juventude afeta também as crianças, que não querem mais ser tão crianças assim". Ela prossegue: "Quando se coloca o corpo infantil como corpo desejável, o que estamos querendo com isso? Nesse sentido, estamos nos tornando uma sociedade pedófila. Estamos construindo um olhar pedófilo em cima das crianças, principalmente das meninas."

A sociedade atual é pautada por um certo utilitarismo social. Laços afetivos, por exemplo, são construídos muitas vezes com o direcionamento de uma visão que almeja agregar valores do senso comum, e muito pouco de uma tentativa de se estabelecer a longo prazo os alicerces necessários para a verdadeira coesão destes laços. Isso se reflete em relações matrimoniais, sociais, familiares. No caso específico da criação de filhos, muitos pais também tem essa visão para com eles. Certa vez, vi numa reportagem televisiva, uma mãe justificando que não pretendia ter mais do que um filho, devido à alta competitividade do mercado de trabalho - a mãe já vislumbrava o quanto gastaria na formação do filho, levando em conta apenas o aspecto financeiro na criação da criança. O que certamente é importante, mas não o único fator representativo das necessidades essenciais da infância bem desenvolvida e bem protegida pelos pais ou responsáveis.

No caso específico da modelo-mirim, foge-se de um tradicional roteiro de precocidades que existe em situações onde a criança deve desenvolver responsabilidades e potencialidades que a façam parecer um adulto, tudo isso em circunstâncias que não prejudiquem seu desenvolvimento, por exemplo no caso de crianças que tem atividades direcionadas desde cedo conciliando vida escolar e brincadeiras com seus afazeres de 'gente grande' - alguns 'artistas mirins' podem ser referência aqui. Não é este o caso. As fotos de Thylane Blondeau vão além disso, elas parecem simbolizar um ideal, um nicho de mercado que sobrepuja até mesmo a simples representação de uma criança vestindo roupas de uma grife famosa -  elas são, em essência, a última fronteira de um ideal de desconstrução da simbologia da infância e de sua importância para a sociedade. Na verdade, a pequena modelo não representa uma parcela de mercado, ela é a própria mercadoria, a mercadoria que disponibiliza uma nova perspectiva social de resultados obscuros. 

A psicóloga norte-americana Diane Levin,  autora do livro "A Infância Perdida" explica o fenômeno:
 "Crianças mais novas estão agindo e fazendo coisas de crianças mais velhas. Parece que o tempo está correndo cada vez mais rápido para elas". A autora complementa:  "As meninas querem se parecer com adultas e as adultas, cada vez mais, querem se parecer com meninas". Aqui algo que merece maior destaque: a falta de paradigmas para uma fase e outra da vida, a quebra da linha que separa essas duas fases - a vida infantil da vida adulta, que se misturam como algo intercambiável, uma espécie de permuta social que foi constituída sem nenhuma grande objeção das características das partes, que não tinham como ser dimensionadas no 'outro lado'. De um lado temos a criança que, cada vez mais indefesa, é alvo de representações nefastas que vão contra sua estrutura biológica e psicológica e que visam alimentar interesses que vão desde o simples mercado, passando pela visão política e social (em regimes de exceção como os comunistas, as crianças são 'meninas dos olhos' de ditadores, que veem  nelas o material revolucionário essencial para seus projetos). No outro extremo temos a mulher que, direcionada pelo ideal da sensualidade irrestrita como algo de grande potencial e capital social, enxerga em si um ser em formação perpétua - não como alguém em uma necessária e louvável transformação contínua, mas alguém que apenas almeja o eterno bônus por seus atos e por sua existência em si mesma, sem que autorize uma visualização mais detalhada de seus atributos e competências de mulher adulta, sendo que poderá ser chamado de opressor quem o fizer. Em nossa sociedade, a crítica à postura infantilizada da mulher contemporânea em certas circunstâncias é tida como um ultraje desmerecido para com alguém que se legitima em ser substancialmente hedonista, que se vê como merecedora de inúmeros diretos e disponibilidades possíveis (há tempos atrás, isso seria prerrogativa de meninas mimadas).

Uma prova empírica desse raciocínio, que vê a dificuldade de separação de etapas distintas no processo de desenvolvimento humano desde a infância, é o próprio episódio envolvendo a pequena modelo francesa. Sua mãe, Veronika Loubry,  ao ver a repercussão das fotos na internet disse: "Thylane não sabe sobre nada disso  e eu quero protegê-la. Ela é tão nova! Por isso, resolvemos fechar esta página". Esse discurso é cheio de dubiedades e mostra a falta de maturidade da mãe da menina. Será que ela não conseguiu abstrair a possibilidade de que as fotos da filha em um ensaio sensual pudessem causar polêmica, além de uma superexposição por causa da temática escolhida? Ou melhor, porque permitiu que a filha fizesse o material? Ela não viu as fotos? Não percebeu a simbologia erotizante contida nelas, que poderia causar traumas em seu desenvolvimento como criança?  Não viu que, psicologicamente poderia - ou poderá - ter disfunções em seu desenvolvimento que acarretarão problemas em sua fase adulta? Tantos questionamentos, tantos indicadores de que uma mulher-menina no papel de mãe está cuidando de uma menina-mulher como filha, ambas desnorteadas - a mãe arrogando a si o direito de surpreender-se perante sua própria inconsequência e a filha desprotegida pela mãe e pelo pai, numa perspectiva que poderá trazer-lhe sérios problema na vida adulta. Eles são o reflexo da anarquia social que tem atingido as famílias em vários países,  e a sociedade parece adormecida sobre esse problema que ainda não teve sua dimensão analisada e medida a contento. 

5 de jun de 2011

A marcha das cabeças vadias

Aconteceu no dia 04/06/2011 na Av. Paulista, São Paulo, a primeira 'Marcha das Vadias'. O evento que pretendia reunir 2500 pessoas, reuniu apenas cerca de 300 no sábado frio da capital. A idéia original da marcha ocorreu após um seminário numa universidade de Toronto, Canadá, onde um policial disse que estupros seriam evitados se as alunas não se vestissem como vadias - sluts em inglês. Então as alunas, revoltadas com a afirmação do policial, organizaram um protesto e saíram vestindo roupas sumárias e gritando palavras de ordem contra a opressão masculina. Foram as pioneiras na marcha que já ocorreu em 15 lugares diferentes até agora, desde Janeiro de 2011, data da primeira marcha.

Nas ruas de São Paulo, as manifestantes - algumas - desfilaram de roupas íntimas,  segurando cartazes e ecoando slogans da causa feminista. As fotos das participantes do evento são interessantes. Uma delas, com óculos de aros pretos e cabelos aparados, se destacava pelo modelo com um recurso estranho de sustentação que tentava segurar os 'quilinhos' a mais. Porém mais estranho era o fato de ela estar segurando um cartaz em inglês (talvez um pouco confusa e acreditando estar no fuso horário de Londres), onde se lia: "I'm a human, not a sandwich!" ("Sou um ser humano, não um sanduíche!"). Fazendo parte do recheio do protesto, uma outra segurava um cartaz - por coincidência rosa - onde, talvez num possível exercício de afirmação existencial, estava escrito: "Não sou puta". 

Uma das organizadoras do desolado evento, Solange Del Ré, 30, expressa sua linha de pensamento sobre o assunto:"É um problema corriqueiro que toda mulher enfrenta. Se você vai comprar um cigarro no bar, pode ser intimidada, como se estivesse provocando essa reação só por ser mulher", afirma. Ela prossegue: "A gente sabe que tem mulheres sendo espancadas no Brasil. Mulheres que são estupradas por causa da roupa que estão usando".  Ou seja, ela não dissocia uma investida elegante ou uma cantada elogiosa do homem da grosseria ou da rudeza encontrada em algumas atitudes masculinas ao abordar uma mulher. Também  na visão de Solange, a probabilidade de estupro ocorrer num país islâmico como o Irã seria nula, pois lá existe um código rigoroso de conduta para a vestimenta feminina, que é representada por véus e vestidos longos.

O movimento feminista é reconhecido pelas incoerências de discursos, de atitudes, pela imprecisão de sua análise da realidade econômico-social e do eterno discurso da independência feminina utilizando-se não da originalidade, mas de uma reprodução inconsequente de comportamentos equivocados de certos homens. A professora Silvia Koller do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul endossa essa perspectiva afirmando:"Uma massa dessas na rua expõe esses pontos para a sociedade: se os homens podem andar de qualquer jeito, por que as mulheres não podem? Nem por isso os homens são agredidos, xingados, estuprados". Há aqui uma tentativa de impor a igualdade através da construção social, como se homens e mulheres pudessem ser ''moldados'' excetuando as características físico-biológicas em suas vidas. Certamente Silvia Koller não exigiria equidade em campos da vida cidadã feminina, como por exemplo na obrigatoriedade do serviço militar para mulheres (que existem em alguns países como Israel), assim como defesa de casamentos de mulheres com potencial econômico/social um pouco acima da média do homem. O discurso feminista certamente quer mostrar idoneidade, porém ela é escassa em vários setores da vida humana, mesmo em épocas recentes onde uma presumível igualdade de direitos não tem sido representada pelo empreendimento feminino em áreas afins com resultados visíveis.

A incoerência ronda grandes nomes da ideologia feminista. Simone de Beauvoir, um das principais deidades do feminismo, saía de bicicleta pela França ocupada durante a Segunda Guerra atrás de namorados, livrando-se de obrigações para com seu país na resistência francesa ao nazismo. Foi partidária, junto com o marido Jean-Paul Sartre, da 'promiscuidade consciente', onde de comum acordo tinham práticas pouco ortodoxas em um relacionamento conjugal. Seguindo esse acordo, Beauvoir tinha livre trânsito em laços fora do matrimônio, sendo talvez uma das precursoras a assumir esse ideal de vida amorosa. Assim, Beauvoir assinava a carta de alforria, graças ao seu prestígio como líder feminista, a todas as mulheres que veem nela um ideal de mulher independente e à frente e seu tempo. Entretanto essa parece ser uma alforria falsa, pois essas mesmas mulheres alforriadas querem, seguindo os ensinamentos de Simone de Beauvoir, se dissociar do referencial de vulgaridade que ronda o ideário coletivo em relação a certas mulheres no mundo atual: a 'mulher objeto' que atingiu esse patamar graças à liberação sexual, mas que é relatada como produto do machismo que se aproveita dessa 'mulher objeto' de todas as formas. A mulher independente que mostra sua sensualidade na mídia, graças ao engajamento libertário feminista ("Meu corpo, minhas regras" dizia um dos cartazes da marcha) e que alimenta os anseios do homem machista. Num sistema onde o pensamento parece um acessório apenas para a divulgação de ideais incoerentes, não existe a possibilidade de se destacar o criador da criatura - todos estão no mesmo patamar. O feminismo e o machismo parecem fazer parte de um sistema mercadológico de 'oferta e procura'.

Uma desafeta de  Simone de Beauvoir,  Antoinette Fouque, afirmou que a frase "Ninguém nasce mulher, mas se torna mulher" foi o pronunciamento mais imbecil do século. Fouque também é crítica do modelo de 'mulher sem filhos' e aponta uma certa frigidez mental da mulher de Sartre. Talvez até nisso as feministas de lingerie da Paulista tenham algo similar a Beauvoir. A frouxidão de idéias e de metas é algo visível na marcha. E frouxidão mental não é recomendável, pois daí para a 'mente vadia' é um passo. Não, as moças da Paulista não são vadias em seus trajes, mais podem ser em suas idéias. Que seja lembrado o ditado "mente vazia é oficina do demônio". Oficina das idéias esdrúxulas guiando cabeças vadias.

Uma história íntima da humanidade, Teodore Zeldin, Best Bolso,RJ, 2008

A cantiga de roda mais bonita da cidade

O hit mais comentado e acessado da internet essa semana foi o clipe da música 'Oração' da banda curitibana "A banda mais bonita da cidade". O grande número de acessos fez com que a banda underground se tornasse conhecida nacionalmente, inclusive com entrevistas para TV e sites de notícias. Formada há dois anos, o quinteto disponibilizou 'Oração' no site You Tube e em quinze dias já foram registrados mais de 4milhões e 500 mil visualizações.

O guitarrista da banda Rodrigo Lemos resumiu, em entrevista, o evento:"Postamos o clipe apenas nos perfis do Facebook das pessoas que participaram da gravação. Foi muito rápido: saímos para almoçar e quando voltamos observamos que os amigos dos amigos estavam compartilhando a música. Tudo aconteceu de uma maneira inesperada”, reconhece o curitibano".

O clipe foi gravado em 'plano sequência' utilização de uma só tomada, ou seja, o vídeo não tem cortes. Foi gravado em uma casa no interior do Paraná, onde participam no vídeo-clipe, além da banda, alguns amigos dos integrantes. Foram feitas oito gravações segundo  o cinegrafista do clipe André Chesini, sendo que a motrada no Youtube é a terceira tentativa."A gente tinha o zelo de fazer o filme, bonitinho e tal. Mas estávamos totalmente descompromissados", diz Rodrigo, num das várias tentativas de passar uma idéia de 'eventualidade' para a divulgação do clipe.

Apesar de tudo indicar o contrário, isso aparenta ser uma grande estratégia de marketing. Qualquer pessoa com mínimos conhecimentos da linguagem cinematográfica sabe que houve um cuidado com fotografia, áudio e gravação, além da escolha criteriosa para uma música que foge um pouco da linguagem proposta pelo grupo. 'A banda mais bonita da cidade' segue à risca a cartilha indie  (abreviatura de independente em inglês, movimento musical surgido nos anos 1980), que tem uma metodologia de distribuição 'não comercial', com selos terceirizados ou próprios para lançarem seus trabalhos. Mas a independência não para por aí. Há toda uma ideologia, uma certa liturgia no trabalho dos indies que, ao tentarem a originalidade, tiram essa intenção do processo, virando algo como 'o mais do mesmo'. No indie, a pretensão é ir contra a corrente, adotando um visual despojado. As letras tentam suprimir o despojamento visual com uma pretensiosa (e por vezes irritante) tentativa de criar uma atmosfera beletrista, onde metáforas, hipérboles (exageros) e ecos sonoros são prioridade e nem sempre garantia de boa música. A escola indie começou nos anos 1980 e tem nas bandas 'The Strokes', 'Belle & Sebastian', 'Beirut' além da brasileira 'Los Hermanos' seus maiores expoentes.

Música para grudar no ouvido - Algo que faz com que suspeitemos do ar descompromissado dos discursos dos integrantes, alegando a não-fama  como motivador do clipe, pode ser notado na letra da música. Ali, há o registro de uma estrutura semelhante às cantigas de roda, com versos de sete sílabas (também conhecido como redondilha maior). Temos em algumas cantigas de roda essa estrutura, como em 'Ciranda Cirandinha'. As sílabas acentuadas estão em caixa alta:

"Ci|ran|da|ci|ran|di|nha
Va|mos|to|dos|ci|ran|DAR
Va|mos|dar|a|mei(a)|VOL|ta
Vol|ta(e)|mei|a|va|mos|DAR.’"

Chico Buarque de Holanda em sua 'A banda' também usa redondilha menor:

"Es|ta|va(à)|to|a|na|VI|da
O|meu |a|mor|me|cha|MOU
Pra|ver|a|ban|da|pas|SAR
Can|tan|do|coi|sas|de(a)|MOR"

Valendo-se desse recurso facilitador de assimilação da letra, 'A banda mais bonita da cidade' vem com igual proposta:

"Meu|a|mor
Es|ta(é)| a(úl)|ti|ma(o)|ra|ÇÃO
Pra|sal|var|seu|co|ra|ÇÃO
Co|ra|ção|não|é|tão|SIM|ples
Quan|to pen|sa
Ne|le|ca|be(o)|que|não|CA|be
Na|des|pen|sa
Ca|be(o)|meu|a|mor
Ca|bem|três|vi|das|in|TEI|ras
Ca|be|u|ma|pen|te(a)|DEI|ra
Ca|be|nós|dois..."

Efeito "Anna Júlia" - Com essa singela música e durante longos seis minutos 'A banda' tenta fazer com que as letras obtusas e pretensiosas de outras músicas como 'Canção pra não voltar' sejam esquecidas por um momento. E mostra em rimas repetidas à exaustão que pode chegar ao grande público, mesmo que negue ou que venha renegar isso futuramente. Um episódio interessante foi o caso dos 'Los Hermanos' que despontou com a conhecida "Anna Júlia", que foi renegada como algo 'inferior' quando os barbudos cariocas já tinham alcançado seus objetivos mais imediatos. Somente um exercício de 'previsão de riscos' em carreiras musicais poderia dar um idéia sobre no que isso irá resultar. Mas ao seguir uma cartilha já consagrada, apesar de arrogarem a si a originalidade mais criativa, 'A banda mais bonita da cidade' pode até conseguir certa notoriedade pois está fazendo a lição de casa corretamente.



15 de abr de 2011

Tragédia em Realengo

Alberto Magalhães


Talvez não seja muito difícil fazer uma leitura do evento ocorrido na escola em Realengo, no Rio. Essa é uma tentativa de se adentrar nos meandros da mente do assassino Wellington e descobrir as suas razões. Ninguém faria um ato bárbaro desses se não tivesse movido por fundamentos incontestáveis, sólidos. Para iniciar devemos observar que mais eventos como aquele não acontecem no mundo apenas por falta de oportunidade para o pretenso executor promover o atentado como, por exemplo, a impossibilidade do pretendente juntar os seus “algozes” no mesmo lugar, ou tê-los juntos no mesmo tempo e espaço, como aconteceu nas escolas que sofreram esses ataques. Certamente Wellington se achou no direito de “punir” os seus “inimigos” que o haviam tratado com desnecessária insensibilidade, desprezo e desrespeito por anos. Atos socialmente impunes. Ele não considerava o seu projeto o de um louco ou de um monstro, mas de um “justiceiro”. Quem lê a bíblia e torna-se um fundamentalista, como ele muito bem demonstra, prega que Deus pune os “ímpios” com a morte e alguns se acham no direito de auxiliá-lo nessa tarefa, como se fossem um anjo da morte. O seu antecipado pedido de perdão ao Divino, em carta, não foi exatamente por causa das mortes que iria causar, mas da sua própria vida que iria deliberadamente encerrar naquele ato. De alguma forma esse tipo de pessoa considera-se “superior” aos seus desafetos, acha-se espiritualmente “iluminado”, por considerar-se incompreendido, injustiçado, perseguido e, portanto, especialmente acolhido pelo Ente divino. Na sua caminhada à escola Tasso da Silveira ele pode ter se sentido um herói, um justiceiro dos fracos, oprimidos e humilhados, dos incompreendidos, rejeitados, diferentes. A preferência dele em executar as meninas pode ter se dado porque elas “podiam” e “deviam” ter-lhe sido solidárias e favoráveis, por serem mulheres, portanto sempre mais sensíveis e compreensivas. Ele certamente considerava-se um cidadão honrado, virtuoso, digno... E a cultura atualmente assimilada pela juventude feminina é a da sensualidade pura, da qualidade física e a de recepcionar, preferencialmente, o descolado, o transgressor, o despojado de valores éticos e morais e que interage com todos os segmentos pragmáticos. Tudo o que ele não era. E só elas, ao menos uma, poderia o ter reabilitado frente a eles. Se alguém teve a vontade para isso, não teve coragem suficiente de se indispor contra a horda adversa. A sua solidão teria se tornado interiormente devastadora. No seu gesto extremo ele tentava sair da insignificância que lhe submeteram para a notoriedade dramática, correspondente ao seu dilema: ser mais um anônimo fracassado ou ganhar relevante projeção exatamente por meio daqueles que o jogaram para o fundo do poço? Ele era muito desajustado e a sua tentativa de sublimação veio num ato que não era só de ascensão. Mas, um misto de superação, vingança, justiça, catarse. O seu encontro com a libertação seria o encontro com a morte. Talvez, se pudesse, a de todos.


Alberto Magalhães é funcionário público em Aracaju, SE e autor do blog

3 de abr de 2011

A sociedade do amanhã decadente

Em trecho de cartaz promocional da editora publicadora do livro 5:00 da manhã da atriz Cibele Dorsa, lê-se o seguinte:

"Glamour, excessos e tragédia. Tudo sobre os bastidores da fama e o acidente que quase levou a vida da modelo e atriz.
"5:00 da manhã" é um livro ousado, forte, que deixa o leitor com a sensação de ter levado um soco na boca do estômago.
Acompanhe a autora deste relato que leva o leitor das casas noturnas lotadas a um leito hospitalar. Mas que tem um final redentor de iluminação pessoal."

O livro é biográfico e relata momentos pelos quais Cibele passou após sofrer uma acidente de carro em 2008, onde um amigo seu morreu. Porém a redenção alardeada no material promocional do livro não foi completa e não irá ocorrer, pois a autora morreu após cair de seu apartamento em SP aos 36 anos. Isso após dois meses após o suicídio de seu namorado Gilberto Scarpa aos 27 anos em Janeiro de 2011. Gilberto era apresentador de TV e sobrinho do playboy Chiquinho Scarpa. Destacar o apelo precário e a falta de cuidado na escrita do material promocional seria algo irrisório, o que não é a motivação deste texto, por razões óbvias. Nem o valor do livro, que não li, é o motivador do texto. Mas nesta situação confusa, onde as verdades antes tão óbvias se tornam apenas acessórios, é necessária uma pausa para avaliação do que acontece com a sociedade - e os ricos em especial - e que se tornaram o foco nestes dias.

Se antigamente as colunas sociais com seus colunistas pareciam inoportunas, ao menos elas tinham o pudor de apenas revelar um lado menos mediocrizante - isso no sentido do reflexo geral na socieade - com uma liturgia mais ou menos prudente. Assim, se Ibrahim Sued e tantos outros discípulos da high-society pareciam inofensivos com suas notas sobre os bem nascidos no país que se orgulha de ter sido o último no continente americano a abolir a escravidão, isso é justificável. Afinal de contas, que mal havia no relato do último chá da esposa do banqueiro para arrecadar fundos para as obras de caridade? Como censurar o belo noivado do rapaz quatrocentão decadente que iria se casar com a bela moça fiha do emergente dono de tecelagens e confecções? - como ser contra esse conto de fadas burguês, essa simbologia tão preciosa até para nós, simples pagadores de impostos? Seria insensível demais não apreciarmos a felicidade prateada das colunas sociais, pois como todos sabem, os ricos também amam.

Porém toda aquela condescendência da gente comum para com a casa grande teve um lado nefasto. Os bem nascidos, alimentados pela humana ânsia pelo reconhecimento, foram além das páginas 2 dos cadernos de variedades lidos de norte a sul do país tropical. Não mais bastava um reconhecimento comum, mas um reconhecimento sobrecomum, pois do que adianta ter dinheiro e não ser reconhecido? Afinal, se "O maior agente social é o empresário", segundo Jorge Gerdau - umas das maiores fortunas nacionais - quem sou eu para desmentir este direito ao reconhecimento reivindicado pelos ricos? Constatada essa necessidade vital, lá foram eles à luta. Inicialmente ocupando horários insones da televisão, na virada da noite, bem adequado a um possível pudor pela bem aventurança explícita em veículos de massa. Não doía tanto a consciência mostrar o fausto num horário que os comuns repousavam para um dia a mais de trabalho logo pela manhã seguinte. Entretanto, a gana por mais e mais - algo justificado pelos afortunados  como um direito quase que divino - os fizeram mudar de foco e sair dos horários televisivos inadequados e ir para uma estratégia mais abrangente.

Eis que surgem então as novas 'celebridades endinheiradas'. É meio difícil ver o nascimento de uma 'celebridade endinheirada' - sabe-se que ela é porque é celebridade. Se em tempos bárbaros uma celebridade se construía com trabalho, esforço, dedicação e talvez sorte - no caso de um artista de cinema ou TV por exemplo - hoje há a otimização de tempo, pois tempo é dinheiro e dinheiro é fator primordial na construção da imagem de uma celebridade high-society. As 'novas celebridades' começaram então a freqüentar locais antes dedicados apenas aos artistas em geral - revistas, programas televisivos de variedades. Também começaram a ocupar espaço em novelas, programas de auditório e por último, realities shows. Havia chegado a vez e a hora do talento da prata, invencível e irresistível, tanto na vida real quanto na das celebridades. E mesmo com tantos fatores financeiros a favor, uma ajudinha de um apadrinhado também valia, como um tio diretor ou um parente artista de verdade.

Algo que pode distinguir a celebridade de uma 'celebridade endinheirada' é o fato de a mídia precisar da primeira e ser procurada pela segunda. Foi o que aconteceu com Cibele, que após a morte do namorado, chamou o TV Fama - conhecido programa de variedades que mostra sub-celebridades do início ao fim. Ali, a pobre moça que havia perdido o namorado, tenta relatar, de modo o menos insano possível o que ocorrera dias antes. Segundo ela, na tentativa de uma reconciliação, ele recusava-se a largar o vício em drogas. Durante uma noite de orgia em seu apartamento, ele se jogou da sacada na frente da atriz e de uma garota de programa. Antes de morrer ela recorreu novamente à mídia, rementendo um relato para uma revista de celebridades onde contava sobre a decisão que acarretou em sua morte. Ali relatava também elogios ao namorado morto e desculpas à família.

Cibele foi mais uma dessas 'celebridades endinheiradas'. Não a conhecia, apenas de nome, desses que lemos na internet em portais de notícias que mostram fotos ou notícias esparsas de mulheres e dos quais nos esquecemos no dia seguinte. Ela certamente simboliza uma geração diferente daquela que freqüentava as colunas sociais de papel apenas ou até mesmo os pioneiros programas  de TV e suas entrevistas com endinheirados nas madrugadas. Hoje os endinheirados querem, além de conduzir nossos destinos, também impor sua moral, sua ética, seus valores e costumes a todos os cidadãos comuns - o autor Mário de Andrade diz que eles "algarismam os amanhãs".  Provavelmente outras Cibeles virão com outros amanhãs distorcidos. Mas para nós, cidadãos comuns, isso passará despercebido, pois nossos amanhãs continuarão se iniciando às 5:00h da manhã. 



19 de fev de 2011

A viagem infindável de Gulliver

Um dos lançamentos deste verão nos cinemas é o filme “As viagens de Gulliver”, baseado no livro homônimo do irlandês Jonathan Swift (1667-1745). O filme é uma releitura de alguns trechos do livro com uma linguagem moderna e mais atrativa para o público jovem e adolescente. O que parece normal, visto que a obra sempre foi associada a um mundo - ou mundos - fantásticos, surreais, numa narrativa surpreendente do início ao fim. George Orwell, atuor de A revolução dos bichos e 1984 disse ser "impossível se cansar dele"; Orwell afirmou ainda: "Se eu tivesse que fazer uma lista com os seis livros que deveriam ser preservados quando todos os demais fossem destruídos, com certeza colocaria As Viagens de Gulliver nela". Com este aval do grande escritor inglês, o livro de Swift faz por merecer seu prestígio e suas idéias que continuam atuais.

Nele o protagonista viajante Lemuel Gulliver narra suas aventuras pelo mundo (detalhe para o nome Gulliver que vem de gullible que em inglês significa crédulo e talvez a credulidade seja um ingrediente indispensável para ter um contato  mais profundo com outros povos e suas culturas). O texto é cheio de descrições referentes aos países por onde Gulliver passa, não apenas externas, mas com deduções do caráter dos habitantes que o narrador faz questão de expor. Em cada parada, há um povo com suas peculiaridades, tanto de caráter quanto em seu aspecto físico, indo desde gigantes, criaturas em forma humana minúsculas, passando pelos habitantes da ilha flutuante até chegar à terra dos cavalos falantes. E o mais impressionante é que todo esse universo de estranheza que parece algo distante, uma realidade de outra dimensão, não é nada mais nada menos do que o reflexo da nossa própria realidade humana, inclusive a contemporânea.

O pastor Jonathan Swift nasceu num período conturbado da história da Inglaterra que estendia seus domínios sobre a Irlanda. A preocupação primordial dele era contra a injustiça, a impiedade. Ele queria criticar as instituições e referenciais da elite de então. Teve relações com o poder e conhecia todas as artimanhas que circundavam os donos do mundo com suas hipocrisias, suas pompas, sua burocracia e indiferença para com o cidadão. Parece bastante pretensão para um livro que sempre é citado como um 'livro para crianças', devido à linguagem fluente, a descrição minuciosa, além do humor que As Viagens de Gulliver traz. 

Como recurso para descrever as injustiças de seu tempo, as incongruência do que é dito nos gabinetes e o que é praticado de verdade na vida pública, a cegueira da sociedade, Swift usou uma estratégia - escrever um livro com formato de livro de viagens (esses eram moda então). Cada país onde o capitão Gulliver para não é senão o próprio país de Swift e suas complexidades; para nomear seus lugares imaginários, Swift usou nomes codificados para dificultar a identificação com situações, lugares e pessoas de seu tempo, o que lhe causaria problemas se o fizesse de forma direta. Liliput (a terra dos habitantes minúsculos) é um referencial à pequenez de caráter de homens opressores e demagogos. Brobdingnag, é o lugar onde ocorre o inverso de Liliput - ali ele é o minúsculo, sendo manipulado pelos habitantes do lugar como se fosse um fantoche, carregado de um lado para outro dentro de uma caixa. 

Prosseguindo sua viagem, Gulliver chega à Laputa, a ilha flutuante dos pensadores, músicos e cientistas, onde só é possível chegar através de uma corda pendurada. Talvez Laputa se refira à Inglaterra, que dominava a Irlanda de Swift, causando-lhe empobrecimento pela cobrança de impostos - daí Laputa seria literalmente 'uma prostituta que arranca dinheiro alheio'. Em Laputa, os sábios são acompanhados por auxiliares que utilizam uma bexiga com pedrinhas dentro amarrada numa vara, que é chacoalhada toda vez que alguém se dirige a um destes sábios. Uma crítica impiedosa aos cientistas de então - e porque não a certos contemporâneos também  - com sua falta de visão ampla, com seu orgulho e desejo de prestígio,  com seu desdém para com os ramos de conhecimento que sejam diferentes dos seus. 

Em sua fase final, Gulliver relata a viagem à terra dos houyhnhnms (a pronúncia provável seria whinnims, imitando o relinchar eqüino), os cavalos filósofos. Gulliver fica admirado com sua inteligência, contrastando com a ignorância dos yahoos, seres descritos como semelhantes a homens, mas como corpo cheios de pelos e comportamento animalesco. Alguns autores associam os houyhnhnms a filósofos estóicos (o estoicismo prega a serenidade, a razão sobrepujando os sofrimentos do mundo); essa conclusão vem por causa da aversão de Swift ao estoicismo, sendo uma forma de ridicularizá-lo associando seus adeptos a  quadrúpedes inteligentes em seu livro. 

Todos esses lugares fantásticos, criados por Swift,  de habitantes impossíveis em situações surreais eram senão os próprios humanos e suas atitudes inconseqüentes e incoerentes de seu próprio país. Para realizar sua obra, o autor levou  a imaginação para outros lugares, num exercício de reflexão sobre seu tempo que perdurou com o passar dos anos. Isso porque continuamos nos mesmos erros do tempo de Swift e apesar dos avanços incontáveis nos diversos ramos do conhecimento humano, parece que regredimos em alguns aspectos; já em outras áreas nunca avançamos satisfatoriamente. Conhecer o mundo de Gulliver e seus personagens é viajar dentro de nós mesmos, num mundo que parece alheio, mas que é reconhecido no menor gesto ou pensamento de cada um de seus personagens.

Fontes:
As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift, Nova Cultural, São Paulo, 1996

30 de jan de 2011

A minha 'cultura' me basta

O impasse em relação ao encerramento das atividades do Cine Belas Artes na Rua da Consolação, em São Paulo mostra o quanto desimportante é a cultura para o brasileiro. Não me refiro ao desprezo cultural ligado à população mais pobre - que na visão simplista dos cultos somente aprecia a 'cultura de massa'. Me refiro sim ao ideal de cultura como algo diletante, um estigma pessoal que ecoa por onde passa, uma cultura sem referencial social, pouco efetiva na vida cotidiana.

O Belas Artes, que apresenta filmes do circuito alternativo  é freqüentado por um público específico - o que aprecia filmes 'de arte', com orçamento baixo, também chamado de 'cinema de autor'. Uma pergunta que poderia ser feita é: onde estava esse público que aprecia os filmes deste e de outros cinemas alternativos quando estes começaram a dar prejuízo? (supostamente pela baixa receita de caixa, apesar de alguns afirmarem que 'a arte não é mercadoria', como se o artista vivesse de brisa). Onde estavam aqueles que fizeram passeata com nariz de palhaço contra o fechamento do cinema?

A cultura, essa coisa tão indescritível e tão abstrata nessa terra de cegos sempre foi um lustro imensurável para quem a tem e algo irrelevante no alheio, ou naquele que a busca de forma aprimorada, visando novos horizontes e novos referenciais. Quem tem cultura no Brasil sempre arrogou a si um direito inalienável, algo como 'hereditário' que, de  tão fatídico como o fator genético, possibilita certos conceitos como 'herdei a cultura de minha família...' ou 'cresci rodeado de livros, pois meu avô tinha uma biblioteca magnífica', entre outras frases de demonstram o pretenso 'DNA cultural' de quem as diz.

Imagino que os que protestam contra o fechamento do cinema são os mesmos que protestam contra o sucateamento da TV Cultura. Dirão alguns: 'É uma emissora indispensável para a difusão da cultura e educação, etc'. Uma afirmativa pouco sincera, pois esses que defendem a emissora, alimentam os canais a cabo dos grandes grupos. Alguns replicarão: 'Sim, mas é uma questão de escolha, vejo os dois, além do mais tenho uma cultura nata  e me preocupo com a população mais carente que não tem acesso à arte e à cultura'. É o argumento do 'minha cultura' ou 'meu pirão' primeiro. Fazem isso também em relação ao Belas.

Imagino ainda que os que protestam contra o fechamento do Belas Artes não estejam preocupados com o cinema em si e a impossibilidade de não mais assistirem aos filmes preferidos, mas sim estariam preocupados com a perda do status que ocorreria com o fechamento da sala. Afinal cult que é cult não basta em si mesmo, tem que aparecer e mostrar refinamento. Mas é preciso palco - no cinema de arte um bom lugar é a fila, para mostrar conhecimentos cinematográficos, incluindo semiótica, análise do discurso e simbolos psicanalíticos encontrados no último filme visto. Outro possível palco é a livraria, de preferência as da moda como a Fnac, onde é comum ver aquelas criaturas destilando cultura pelos corredores - geralmente um homem acompanhado de uma ou duas mulheres - que sempre tem um comentário sobre algum autor, apontando-o na prateleira e dizendo: "Eu vi  fulano quando estive em Paris e o cumprimentei!".

Como ex-freqüentador assíduo do Belas Artes e hoje já não tão assíduo assim,  lamento pelo desfecho de sua história, mas também lamento pela cegueira dos revoltados que, graças à sua  falta de noção de que cultura é mais do que apenas refinamento egocêntrico e brilho opaco da falta de originalidade,  carregam a própria derrota, produzida por um mecanismo fracassado de um sistema perverso que  foi subestimado por eles, por conveniência ou por indiferença.


Fonte
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,em-sp-cine-belas-artes-pode-ganhar-sobrevida,666140,0.htm