14 de ago de 2012

O dia em que até a rainha virou pop

Em texto sobre a festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 Reinaldo Azevedo destoou do evento, classificando-lhe como 'uma das coisas mais horrorosas de todos os tempos', destacando o fator do  'multiculturalismo', algo negativo na perspectiva do jornalista. Esse 'multiculturalismo' notado por Azevedo foi marcado principalmente pela presença do rapper britânico Dizzee Rascal, que ao lado de outros artistas representantes do mundo pop, foi responsável pela linguagem plural que desagradou a ele e a alguns jornalistas esportivos (Galvão Bueno classificou a festa como 'pouco animada').

Na essência, não houve uma tentativa de se fazer uma festa que transmitisse a ideia de que o Reino Unido é um país multiculturalista, porque a terra da Rainha Elizabeth II já é em si uma mescla cultural há tempos, já desde quando o império que dominou os quatro cantos do planeta por mais de 200 anos caiu em declínio no período do pós-guerra, nos meados do século XX. Só que essa característica multiculturalista do país pop foge da classificação mais comum que essa palavra possa carregar, de aceitação irrestrita de referenciais culturais externos (geralmente de países que foram colonizados e oprimidos pelas potências coloniais europeias), em uma atitude de mea culpa que talvez trouxesse um fardo mais leve para povos  despojados de suas riquezas pelas colônias e que agora sofrem na mão de dirigentes pouco aliados à democracia, entre eles presidentes de países árabes e da África subsaariana.

Desde o início da cerimônia percebeu-se a proposta de se narrar a história e a cultura do país, sem que se utilizasse, necessariamente, a simbologia mais comumente associada à Grã-Bretanha - a pompa e circunstância. Nada de referencias medievais, tudo começa na Inglaterra de Shakespeare concomitante com o reinado de Elizabeth I, período onde se estabeleceram os pilares do que viria a ser o império britânico, uma época de grande progresso cultural e científico. Após isso, vem a Revolução Industrial com a produção em série e com suas chaminés e a expansão de mercados mundo afora. A guerra e suas agruras que são esmaecidas com a arte da literatura com contos infantis, uma especialidade britânica. Mas, esse já é um Reino Unido que não consegue viver apenas do passado relembrando os tempos de glória - decide então usar de sua 'criatividade pragmática' para se reinventar tornando-se, dessa forma, o grande assimilador-transformador de cultura do século XX em inúmeras áreas, o que lhe dará novo fôlego para seguir como uma das mais importantes nações do mundo.

Foi isso o que se mostrou na festa de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Os ingleses não tem um ritmo nacional próprio? Não tem importância, pega-se o rock americano que ia mal das pernas nos anos 1960, dá-se uma revigorada nos acordes, na composição, na formação (os grupos de rock praticamente nasceram na Grã-Bretanha) e daí é só esperar o melhor resultado: uma escola que virou referência mundial no ritmo. Na cerimônia havia tantos representantes do rock e do pop, de várias épocas e estilos, que provavelmente não houve quem não se identificasse com um deles. Também um destaque especial para a utilização de percussão nas apresentações, algo que remete às culturas das antigas colônias africanas, que com sua influência, tem importância ímpar na formação de vários ritmos como jazz, blues e o próprio rock-and-roll, algo ignorado por boa parte dos consumidores desses ritmos.

Mas no meio de tanta assimilação de ritmos, estilos e sons diversificados, absorvidos de vários cantos do mundo por onde a Grã-Bretanha já fincou sua bandeira desde os tempos em que o país tinha a maior frota naval do mundo, até à geração Beatles, houve um momento genuinamente britânico. O país que não conseguiu assimilar o cinema, mas que criou Charles Chaplin, teve Elizabeth II como protagonista de uma cena que representa muito bem o humor nonsense inglês (que foi representado na festa de abertura também pelo  genuinamente inglês Mr. Bean). Ela ao lado do personagem James Bond (Daniel Craig) 'tomou parte em uma missão importante' ao lado do espião mais famoso do mundo: 'embarcou' em um helicóptero no Castelo de Buckingham  e 'saltou' no estádio olímpico. Um marcante exemplo de que os ingleses, inclusive a rainha com seu universo burocrático e de formalidades que a faz parecer distante, sabem se reinventar e conseguiram mostrar isso ao mundo nessas olimpíadas, fazendo um evento com criatividade e ousadia, mesmo em tempos difíceis. Tomara que o Brasil consiga também um bom desempenho nesse quesito, e que possa surpreender a todos nós nas próximas olimpíadas.