21 de mai de 2012

Plutocracia televisiva

O programa 'Agora é tarde' de Danilo Gentili apresentou em uma de suas edições,  durante o quadro Mesa Vermelha (uma espécie de resenha), um trecho do programa 'Caldeirão do Huck', onde o apresentador Luciano Huck interagia com uma dançarina de escola de samba. Neste vídeo, um descontraído Huck perguntava qual era a profissão da moça (ela era professora de Língua Portuguesa) para, em sequência, pedir para que ela repetisse algumas palavras complexas, além do trava-língua 'Em um ninho de mafagafos'. De pronto ela respondeu a ele que era professora e não fonoaudióloga. Ao fim da exibição do vídeo, Ronald Rios, que é repórter do 'CQC', afirmou de modo jocoso, que Huck não consegue viver com a ideia que alguém pode ter 'dois talentos'. E ainda salientou que Luciano Huck teve entre suas criações as dançarinas Feiticeira e Tiazinha, além de ter copiado a ideia do programa 'Pimp my ride' da MTV americana, que 'repagina' carros velhos de telespectadores. Detalhe: neste programa, o participante não precisa se submeter a provas vexatórias, para fazer jus à reforma.

Luciano Huck, faz parte de uma linhagem, tal como Roberto Justus e em menor escala, João Dória Jr, que poderia ser chamada de 'plutocracia televisiva'. Trazem à televisão, além de conteúdos agregados aos seus talentos individuais e suas imagens, também um conceito diferente daquele geralmente associado às pessoas do veículo, um tipo de ideal de bem-aventurança já construído mesmo antes do ingresso nas mídias onde trabalham. Esse ideal de profissionais de mídia bem sucedidos, ligado a uma imagem de habilidade nos negócios e  administração da carreira parece ser um fenômeno pós 1990, quando diretores executivos (também conhecidos como CEO's) começaram a ganhar destaque em noticiários, jornais em revistas, sendo alardeados como novos referenciais de visão empreendedora, empenho pessoal, arrojo e senso de oportunidade. Seriam, de forma abreviada, novos ícones neoliberais. 

Além de terem suas trajetórias vislumbradas pela mídia especializada em economia e negócios, seus exemplos de bem-aventurança foram disponibilizados para o público leigo por meios de livros best-sellers de auto-ajuda, com dicas de conduta para se chegar ao sucesso profissional e pessoal. Verdadeiros manuais para aqueles que vislumbravam algo a mais do que uma carreira modesta acompanhada de uma modesta visualização social, comumente propagada como algo secundário, mas de modo pragmático, requisitada em qualquer núcleo social. Jack Welch, Abílio Diniz, Donald Trump entre outros gurus começaram a discorrer, para o leitor necessitado de iluminações e dicas para suas carreiras, como venceram os desafios, inovaram subjugando propostas ultrapassadas, lideraram grupos, instituíram novos conceitos, assegurando seus nomes entre aqueles que fazem a diferença no inclemente mundo corporativo. Enfim, como fizeram, cada qual a seu modo, suas reengenharias. Reengenharia é um termo muito recorrente nesse meio empresarial, algo como 'reajustes operacionais' - eufemismo para readequações que culminam quase sempre em demissões, terceirizações, precarização de contratos trabalhistas, entre outros 'reajustes'.

Mas o grande desafio no caso específico dos 'bem-aventurados' nos negócios que enveredaram pelos corredores da mídia televisiva, difundindo seus valores e conceitos através das telas dos mais diversos telespectadores, é conseguir justificar seus talentos de comunicadores, eliminando a desconfiança que o público em geral tem para com eles e em relação a seus eventuais potenciais de apresentadores. Algo que tire o estigma de aventureiros em busca de 'realizações egocêntricas', que mostre ao público que eles tem potencial para transformar suas habilidades de gerência em algo mais subjetivo e mais empático, e consequentemente, mais artístico. O apresentador Silvio Santo talvez transmita isso, já que consegue conciliar as facetas de administrador e artista de forma satisfatória diante do público.

Entretanto - e isso pode ser justificado pelo comentário de Ronald Rios - essa é uma possibilidade que ainda não foi atingida pelos 'novos artistas' televisivos citados. Analisando-os um a um, não temos boas perspectivas. Peguemos inicialmente Dória Jr, que parece mais um propagandista nato das virtudes (ninguém quer questioná-las aqui) dos entrevistadores em seu 'Show Business', com citações de casuísmos  e anedotas de 'homens de valor' que deixam qualquer 'mortal' telespectador ressabiado, pedindo para que o programa acabe logo. Já sua performance de showman no nefando 'O Aprendiz', quando assume o chefe 'morde-assopra' é de fazer arrepiar os cabelos já arrepiados de Donald Trump. 

O que dizer então de Roberto Justus, o apresentador-cantor que, de forma canastrona personificou a megalomania filistina misturada a um toque de brejeirice tupiniquim? Como justificar a encenação de si próprio, dialogando com seu próprio ego em situações de um reality show que, enevoado sob a aura de entretenimento pedagógico, traduz o que há de mais caricatural e 'representativo' do mundo corporativo? 

Finalizando, como justificar Luciano Huck, o mais palatável e bem sucedido dos self made men que continua a sua sina de apresentador iniciada 'por cima' quando, empresário da noite, arrendava horários de madrugada na televisão para fazer sua versão 'Amaury Jr. descolada'? Como ser condescendente com alguém que lançou dois 'personagens fetiches sexuais', além de cópias de quadros de  programas  tanto nacionais  quanto estrangeiros? Luciano, por ser o mais novo dos três apresentadores, poderia olhar para sua trajetória e repensá-la com mais atenção. Um bom talento pode valer mais do que mil moedas. Mas quem tem mil moedas, talvez não encontre um talento disponível para aquisição imediata, mesmo que procure de modo eficiente dia e noite.


2 comentários :

FABIOTV disse...

OLá, tudo bem? Parabéns pelo texto! Roberto Justus parece que só sabe fazer O Aprendiz mesmo... Já João Doria Jr. faz um programa para um nicho de teelspectadores.. Particularmente, não gosto do apresentador Luciano Huck.. Para mim, ele sempre tenta passar uma imagem idealizada.. Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net

Alberto Magalhães disse...

Fenomenal a sua abordagem sobre esse tema televisivo, tão visto e tão pouco entendido por nós pobres comuns manipulados pela mídia, pela política, pelos empresários - via brilhantes publicitários -, etc. Parabéns.