2 de fev de 2016

Quem é Nando Moura na terra de Solano?

Solano Trindade (1908-1974) foi um poeta, pintor, ator, dramaturgo e produtor cultural. Filho de sapateiro e de uma cozinheira, atuou em vários estados brasileiros, inicialmente em sua terra natal, Pernambuco, sempre compondo textos, versos e participando da criação de grupos de culturais com enfoque na temática da cultura negra, menosprezada pelo mainstream artístico e pela sociedade em geral. Idealizou o Teatro Popular Brasileiro, onde por meio da dramaturgia, dos estudos da cultura e folclore denunciava as injustiças sociais buscando a sinergia necessária para autorreconhecimento cultural do negro, tendo viajado com o grupo para várias apresentações no exterior. Teve também experiência cinematográfica como ator, atuando em alguns filmes, sendo o mais famoso ''A Vez e a Hora de Augusto Matraga'' de 1966 dirigido por Roberto Santos, roteirizado por Gianfrancesco Guarnieri, com Elonardo Villar, Jofre Soares e Flávio Migliaccio. Perseguido pela ditadura militar, foi preso, e também teve um de seus filhos mortos pela repressão. Faleceu pobre e sem o reconhecimento justo por sua obra.  A artista plástica e escritora Rachel Trindade, filha de Solano é uma das continuadoras do legado cultural do pai, divulgando em cursos e palestras tudo aquilo que seu pai transmitiu por meio das diversas artes que dominava.

O ''Poeta do Povo'' geralmente é lembrado pelos versos ''Tem Gente Com Fome'':


Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome 

tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii


que foram musicados por João Ricardo e gravados em vídeo clipe por Ney Matogrosso e exibido em 1979, ainda durante o período da ditadura militar.

Nando Moura é uma celebridade da internet — tem um canal de vídeo no Youtube com milhares de inscritos e postagens com também milhares de visualizações. Filho do professor especialista em quadrinhos Luiz Cagnin, seu currículo incluiu formação musical em conservatórios no Brasil e no exterior. Atua como professor de música e possui uma banda de rock - a Pandora 101, além de tocar em casas de shows periféricas. Seu site apresenta a banda como ''uma das mais conceituada banda de Rock Progressivo do cenário internacional''(sic). Um dos atrativos para suas aulas é a tecnologia agregada ao ensino da música, onde diz: "Ofereço aos meus alunos, não só o melhor em guitarras, como o melhor em áudio e tecnologia. Pois, hoje, tão importante quanto um conhecimento musical, é um bom conhecimento tecnológico"(sic).

Em seu canal, o youtuber usa toda sua simbologia roqueira em apelo visual para difundir ideias conservadoras associadas a um pretenso discurso cristão. Cabelos compridos soltos ou com presos com bandanas, barba hirsuta aparada e gestual primordialmente manual são o repertório para a divulgação suas ideias na internet. Destoando do primordial ideal libertário dos músicos e dos apreciadores do rock, o guitarrista apresenta um farto menu de contexto reacionário, que incluem discursos contrários ao movimento negro, ao desarmamento, à manifestação pública da homossexualidade, às religiões de matriz não ocidentais, às mulheres e aos direitos humanos. Leitor de Olavo de Carvalho, Moura difunde o pensamento do jornalista com rigor exemplar. Defende Jair Bolsonaro como virtual candidato a presidência do Brasil, sem não antes execrar as figuras do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff. 

Diante deste quadro, o que teriam em comum Solano Trindade e Nando Moura, a priori seres tão distantes no tempo, no espaço e na visão de mundo dentro do espaço concomitante em um texto contemporâneo? Eles têm uma única coisa em comum, algo que os une e que os afasta também — ambos são da cidade de Embu das Artes, grande São Paulo.

Solano habitou Embu nos anos 1950 e 1960, criando com a ajuda de amigos, um núcleo de arte na cidade, alavancando o seu status de polo cultural e artístico: ''a Terra da Artes". Mesmo anos após sua morte e de ter seu nome desprezado pelos críticos culturais, seu nome sempre foi ligado à cidade e hoje é homenageado em uma escola e também no nome do Teatro Popular Solano Trindade. A lembrança que se deve ter de Trindade é de alguém que com sua força de pensamento reuniu uma obra original, mudando as agruras de uma sociedade racista, estratificada e discriminadora em substrato para a difusão de seus ideais de liberdade e justiça social. Na temerária tentativa de ir contra o apogeu de um sistema que visava o clareamento de sua gente por meio da imigração maciça de cidadãos europeus, seguindo o ideário do racismo científico de autores como Silvio Romero e Nina Rodrigues, Solano expunha todo seu empenho na busca o que considerava primordial — uma narrativa onde o negro não fosse apenas um coadjuvante observador na terra que ajudou a construir, mas agente transformador, sabedor de suas raízes e que tivesse brio perante o balanço trágico da trajetória histórica, visando a equidade para todos, negros e não negros.

Já o youtuber Nando Moura vive atualmente na mesma Embu de Solano. Ele é um ícone de uma geração precariamente escolarizada, treinada para o desempenho quantitativo, pouco apreciadora de referenciais culturais de qualidade e desestruturada pelo sistema de iniquidade social do ter mais do que ser. Moura neste aspecto destoa de Solano, não no quesito qualitativo, ou até artístico - o que seria incongruência fazê-lo — mas na má utilização de seus recursos visando a difusão cultural e informativa da juventude e do público em geral que usam a internet, por meio de seu repertório de vida e de conhecimento em prol da sociedade. Apesar de seus vídeos serem pautados por comentários gerais, predominantemente sobre política e cultura pop, vez por outra há espaço para interações outdoor onde o viés conservador de Moura é posto à prova e ao julgamento (!?) das ruas da cidade onde seu pai era conhecido. É o caso do vídeo onde ele, de dentro do carro, ofende com palavrões um correligionário do PT durante as eleições, passando em velocidade para não ver (e receber) possíveis reações contrárias. 

Se Solano alavancou o nome da cidade que em nada, quantitativamente falando, lhe deu em troca, Nando faz o oposto: rebaixa a cidade natal a uma visão estereotipada, o que convenhamos, não é preciso muito para se chegar a isto. Embu sempre foi lembrada muito pelo aspecto macabro, pela violência e pelos casos de excrescência administrativa. A população ainda se lembra do churrasco de passarinhos, patrocinado pelo ex-prefeito Nivaldo Orlandi em 1984 que, para bem da cidade, nunca mais se elegeu a cargo nenhum. Também é notória a exumação do carrasco nazista (Nando Moura chama o movimento negro de ''afronazismo'') Joseph Mengele, que foi enterrado, não se sabe como, com o nome falso de Wolfgang Gerhard no cemitério do Rosário, no centro.

Esse paralelismo entre duas realidades tão próximas e tão díspares pode nos fornecer material para uma análise da conjuntura social brasileira. De um lado um poeta negro sem recursos, com tudo e toda (sociedade) contra si, demonstra o mais perfeito apuro na tentativa de reversão do quadro que atingia (e ainda atinge) a si e aos seus semelhantes, por meio da cultura e da arte. Um cidadão que, apesar de tudo, soube usar da sua maestria no manejo da palavras e dos recursos culturais notáveis adquiridos para ser a antena da raça humana desvelando e revelando novos paradigmas e deixando para futuras gerações um legado que é aos poucos notado. De outro um artista pop repleto de idiossincrasias trazendo para seu público (Nando tem apelo jovem e faz questão de sê-lo) informações desencontradas, preconceitos em oratória sofismática, inverdades em prol do status quo e um discurso de intolerância sem precedentes. Nando poderia, se quisesse, usar tudo aquilo que sua criação lhe proporcionou numa simbiose com sua comunidade local e a da aldeia global, mas prefere apenas o clique rápido das visualizações apressadas e a monetização fácil. Como nos versos de Solano, podemos fazer a analogia, dizendo que Tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome — de cultura, informação e arte. Mas infelizmente Nando Moura não tem o menu principal para satisfazer essa lacuna de tanta gente.


http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/pernambuco/solano_trindade.html
http://www.elfikurten.com.br/2015/06/solano-trindade.html
http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-vento-forte-do-levante-documentario-sobre-solano-trindade
http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,politico-perdeu-5-eleicoes-apos-passarinhada-imp-,686986

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/02/07/politica/1391769715_190054.html
http://www.nandomoura.com/

5 comentários :

Alberto Magalhães disse...

Texto esplêndido, instigante. Como o são os seus outros.

Alberto Magalhães, Aracaju,SE.

Marcos Vinicius Gomes disse...

Alberto,

Espero que estejam bem. O seu comentário qualificado é sempre bem-vindo, abs.

Iago disse...

O cara quer views e inscritos.Basta ver as polêmicas que ele cria ou alimenta com outros iguais.

jeronymo disse...

Vc marcos vc e um animal que só escreve merda de um cara culto , merda nao pq serve com adubo, Vc meu cara acefalo não presta para nada seu lixo humano comedor de pão com mortadela seu lixo esquerdista geração do mimimi.

Marcos Vinicius Gomes disse...

jeronymo

Que tal deixar um pouco Nando Moura de lado e ir ler uns livros?
Eles podem lhe acrescentar boas coisas, inclusive ensinar a escrever e a raciocinar (muito) melhor.