13 de nov de 2010

Monteiro Lobato é a cara do Brasil

Capa de "A Chave do Tamanho" de 1942,
livro de Monteiro Lobato (1882-1948)
Monteiro Lobato está em discussão. Não por suas campanhas a favor do petróleo ou polêmicas pessoais, mas por ter outra vez sua obra ligada às questões de racismo. O Conselho Nacional de Educação sugeriu ao Ministério da Educação a não distribuição do livro 'Caçadas de Pedrinho' por entender que a obra infantil tenha teor racista em certos trechos. O parecer foi redigido pela conselheira e professora Nilma Lino Gomes. Nesse debate houve acusações de 'porta-vozes' da oposição na mídia que esbravejaram alertando que estamos perto de um regime ditatorial onde a censura irá prevalecer. Houve também o clamor do pessoal do establishment com o já conhecido discurso do 'país cordial onde as diferenças são respeitadas' que adoram afirmar que não são racistas pois tem empregadas domésticas negras em casa e que elevador de serviço é um mal necessário (Sônia Travassos, professora da UFRJ disse que a censura do CNE é 'absurda', pois para ela 'a Tia Nastácia é querida por todos do Sítio, participa da vida social da família e tem espaço para expressar sua cultura').

A originalidade de Lobato em sua série de livros infantis ambientada no 'Sítio do Pica-Pau Amarelo' está em ir contra a corrente. Primeiro por ser pioneiro neste gênero ainda tão desprezado no Brasil. Segundo por ter entre seus personagens a 'causadora' da polêmica atual - Tia Nastácia, a empregada negra que inclusive foi protagonista de Lobato em 'Histórias de Tia Nastácia', livro onde ela conta histórias de vários lugares para as crianças do Sítio. Algo impensável, no país de Jorge Amado que em seu 'Capitães de Areia' elege Pedro Bala, o garoto loiro como líder do grupo de meninos infratores das ruas de Salvador.

Lobato viveu parte de sua vida quando o pensamento racista embasado em teorias científicas estava em alta, tendo esse pensamento justificado o ideal de superioridade racial. No Brasil após a destruição de Canudos na guerra de mesmo nome, o médico baiano Nina Rodrigues, estudioso das teorias racistas-científicas fez uma análise dos cérebros do líder Antônio Conselheiro e de alguns de seus seguidores para explicar o fanatismo e uma provável degeneração de raças, fato este narrado com ironia pelo jornalista Euclides da Cunha que acompanhou o desfecho da guerra no final do século 19. Esse pensamento de superioridade de raças difundiu-se por outras áreas, inclusive nas artes. A título de exemplo, temos a história de 'Tarzan', uma narrativa que tenta, difundir o ideal racista-científico: - um nobre inglês é abandonado na selva devido a morte de seus pais e é criado por macacos; mas mesmo na adversidade de um ambiente primitivo, tem a eugenia (melhoramento genético) a seu favor, levando para a selva a liderança e supremacia de sua raça. Nos quadrinhos, seguindo esta linha de pensamento, há a lenda do Fantasmaguardião branco que tem a missão de proteger e defender a selva.

Nesta atmosfera estava Lobato com sua Tia Nastácia protaganizando histórias de modo inédito para uma personagem negra. Evidente que a composição é estereotipada, pois o próprio Lobato foi influenciado por autores racistas. Porém, mesmo com essas influências, Lobato dá mostras de tentar buscar a identidade escondida num ambien
te de não aceitação de nossa miscigenação, na eugenia racial proposta no incentivo imigratório europeu do séculos 19 e 20. Além da protagonista negra Tia Nastácia, temos um marco desta busca do autor - o conto Negrinha, que dá nome a um livro homônimo. Nele Lobato narra de forma comovente, toda a tragetória de uma garotinha negra explorada por uma senhora religiosamente hipócrita, mas que não tinha compaixão. Negrinha trabalhava exaustivamente na casa da 'sinhá' sem direito a ser criança. Quando as netas da patroa aparecem com uma boneca, o brinquedo nunca visto pela protagonista a faz sonhar com um mundo fantasioso a qual nunca teve direito. A tragédia final e prevista devido aos maus tratos sofridos por Negrinha representa um alerta do autor da exploração e das injustiças sofridas pelos negros no país, um tema tão contemporâneo.

Monteiro Lobato é um reflexo do contraditório que nos guia desde a fundação do Brasil até hoje: o país tido como especial de uma população gentil e cordial mas que protagoniza uma sociedade
com os maiores índices de desrespeito aos direitos humanos. Uma civilização onde judeus e árabes podem conversar tranquilamente pela rua, mas que ainda pratica linchamentos; uma nação entre as mais ricas do mundo, mas que tem índices de desenvolvimento humano semelhantes a países mais que subdesenvolvidos. No pais das contradições é impossível tentar entender Lobato sem uma auto-crítica, coisa tão rara por aqui. Nem a retirada de circulação do livro "Caçadas de Pedrinho' na rede pública (ou qualquer outro que seja), tampouco sua exaltação sem ressalvas alegando nossa demagógica 'democracia racial' são necessárias. O caminho a seguir é o mesmo aberto pelo escritor de Taubaté - de tentar compreender a nós mesmos, difundindo idéias para que alcancemos as respostas, revendo conceitos, questionando interesses menores, mesmo para isso tenhamos que correr riscos pelo atrevimento de irmos contra um sistema perverso e opressor.

8 comentários :

Eduardo Montanari disse...

Desde que eu era um efebo a minha mãe sempre me falava de Monteiro Lobato e o quanto o leu quando era pequena. Seu livro preferido era Reinações de narizinho.
Só no começo da adolescência me interessei em lê-lo e não me arrependo.
Quanto a essa polêmica toda, acho uma hipocrisia. O livro foi escrito em outra época, o contexto e os valores morais eram outros. Até concordo em se colocar uma nota no rodapé da página explicando isso, mas dái a fazer a tempestade em copo d'água que foi feita, isso já é demais. É hipócrita.

André San disse...

É um absurdo considerar o Sítio uma obra racista. Trata-se de uma análise rasa que não leva em consideração o contexto histórico no qual a obra foi realizada. Lamentável!
André San - www.tele-visao.zip.net

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Nesse caso, pegaram pesado.. Mas isso leva a muitas discussões... Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net

Marcos Vinicius Gomes disse...

Eduardo,

A contextualização é indispensável, não só nesse caso como em outros como em filmes, etc.

André,

A orientação deve vir do professor

FaBio

Pegaram mesmo, pobre Monteiro!

Eduardo E. S. Prado disse...

Marcos,

Não conhecia as adaptações para a televisão do Sítio do Pica Pau Amarelo, mas hoje, depois de ler alguns trechos, não recomendaria a leitura para crianças nem de "Reinações de Narizinho", menos ainda de "As caçadas de Pedrinho". Uma adaptação sim, mas o original, jamais.

Tive a oportuinidade de ler vários posts a respeito, um dos melhores foi este aqui: http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/nao_e_sobre_voce_que_devemos_falar_por_ana_maria_goncalves.php

Pelo que li até aqui, a linguagem racista de Monteiro Lobato era chocante até para a época em que seus livros foram públicados. Lobato era eugenista e acreditava na superioridade intelectual da raça branca. Seus livros são um espelho da época, é verdade, mas também do escritor e de suas ideias.

Marcos Vinicius Gomes disse...

Eduardo,

Confesso que tenho opiniões não tão bem formadas sobre Lobato. Li textos seus que diziam que 'os matutos eram atrasados e quando viam o progresso chegar - muitas vezes trazidos pelos europeus, em especial pelos italianos que vieram em massa para SP - eles se escondiam. É uma visão bem racista essa, semelhante àquela que incentivou a imigração para 'aperfeiçoamento da raça', tão mentirosamente dita como para nós na escola como algo fraterno do Brasil para com cidadãos que passavam dificuldades em seus países. Mas o protagonismo de seus personagens é algo que me chama a atenção, mesmo com seus conceitos deturpados. Eu citei Jorge Amado, mas outros autores também tinham personagens negros que mais pareciam figurantes de novelas de tão pouco representativos que eram e isso continua até hoje, infelizmente. Outro autor, que é muito festejado, mas que não representou em suas obras o negro, ou por conveniência ou omissão foi Machado de Assis, que todos sabemos era filho de negros (as fotos suas eram 'clareadas' ele tinha a pele muito mais escura do que é mostrado). Também tem a postura política de Lobato, o engajamento em idéias que eram tidas como loucas por todos. ´É ele mesmo um personagem interessante e contraditório. Tenho como disse, restrições à sua obra e tento observá-lo com imparcialidade.

Abraço.

Eduardo E. S. Prado disse...

Marcos,

É verdade! Não me lembro mesmo de personagens negros de Machados de Assis. Há uma, Arminda, uma escrava fugida que entra como uma das protagonistas do conto Pai Contra Mãe. A escravidão, alías, está presente em muitas de suas obras, como em Dom Casmurro. Também é verdade que não há muitas descrições de cor nos personagens de Machado. Candinho, o personagem principal de Pai Contra Mãe, foi representado no documenário "Quanto Vale ou é Por Quilo", baseado no conto, por um ator negro.

Marcos Vinicius Gomes disse...

Eduardo,

Só há uma certa abordagem em relação à escravidão em Machado, mais no sentido de ser um sistema injusto criado pela humanidade, sem um enfoque na questão racial que está ligada à ela - mesmo que alguns não o façam. Lima Barreto fez uma abordagem diferenciada da de Machado e pagou o preço: até hoje alguns de seus livros são citados como sendo pessoais, com ressentimentos pelas argruras de ser mulato numa terra racista.
(obrigado pelos links)