19 de jul. de 2010

Uma Copa de surpresas


O escritor  português Eça de Queiroz disse em um de seus textos que o negro africano era o único que  podia sorrir abertamente. Isso, porque, na visão do escritor do fim do século 19, o desenvolvimento havia tornado o homem cético e por consequência triste, e somente alguém, como o habitante da África - continente colonizado e bem afastado da ciência e do progresso - poderia sorrir. Parece que Eça fez essa observação com o intuíto velado de criticar o andamento cientificista da Europa de então, que influenciava todos os setores da sociedade, contrapondo este ideal à capacidade do habitante da África de surpreender-se, sorrir, diferente do homem europeu. Essa idéia de associarmos simplicidade à felicidade e harmonia perdura até hoje, mas é interessante notar que na época em que este texto referido foi escrito, a ciência dava seus primeiros passos, abrindo portas para o século do avanço científico e tecnolígico - o século 20.

Passado mais de cem anos da afirmação queiroziana, o continente negro abrigou uma Copa do  Mundo de Futebol, num país com um passado de colonização européia, escravidão negra, lutas pela liberdade, prisões. Um país que há vinte anos atrás elegia seu primeiro presidente negro, um homem que lutou junto com uma nação contra a opressão de um pensamento segregacionista - Nelson Mandela, ganhador do Nobel da Paz. Ele como presidente e líder, lançou a idéia de Nação do Arco-Íris, uma terra que abraçaria diferentes etnias e culturas, num ideal agregador, que apagasse da memória, os séculos de opressão. Este ideal ainda não foi plenamente alcançado, pois a África do Sul ainda traz traços dos anos do apartheid - a renda é mal distribuída, ficando a maioria da riqueza ainda nas mãos dos brancos; a violência é mais visível nos bairros de maioria negra, que também sofre a precariedade nos serviços básicos como educação e saúde. Entretanto o ideal de Mandela e da população oprimida continua em busca de soluções ao problema secular do racismo.

A Copa da África do Sul foi uma das mais surpreendentes dos últimos tempos. Seleções campeãs - Itália e França tidas como favoritas foram eliminadas na primeira fase, outras que nunca tiveram um histórico relevante de participações em Copas do Mundo, como o Paraguai, chegaram a surpreender indo até as quartas de final. Tivemos ainda surpresas individuais como por exemplo Diego Maradona, que aparentemente recuperado da fase obscura como usuário de drogas, apresentou-se como um show-man, comandando seus jogadores de modo ímpar -  além de ter sido muito mais diplomático se comparado com o técnico Dunga. E a seleção do melhor futebol do mundo,  que já lançou tantos talentos para o esporte, deu adeus ao torneio nas quartas de final, perdendo para a Holanda. Incompetência do técnico, dos jogadores que não jogaram com garra, não honrando a camisa verde-amarela? Culpa dos cartolas, da imprensa? Não se sabe, pouco se pode afirmar ainda sobre esta Copa de surpresas, o que significou para o esporte e para o povo sul-africano e para a África em geral.

Mas podemos, chegar a algumas constatações. A primeira é que nas estatísticas existem variáveis, o que foi comprovado com eliminações de seleções favoritas e classificação de seleções desacreditadas - quem acreditaria que a Espanha venceria a campeã Alemanha? A segunda constatação é que a tecnologia não anula o lado humano do empreendimento e vice-versa. Após lances duvidosos não observados por árbitros nesta copa, a FIFA começa a estudar a possibilidade de utilização de recursos tecnológicos para auxiliar no andamento das partidas. Já não era sem tempo. Existe um argumento falacioso de que o interessante no futebol é a polêmica. Até certo ponto é, mas deixa de ser interessante quando um lance não é observado pelo árbitro e este lance favorece uma equipe em detrimento de outra. E se o futebol utilizar os recursos eletrônicos, não deixará de ser 'apaixonante' e 'emocionante'. Um  exemplo disso é o atletismo que é um esporte que utiliza alguns recursos para avaliação da performance individual, pois o olho humano seria incapaz de medir centésimos de segundos de diferença entre os participantes de uma prova. Assim também, outros esportes usam sensores e outros recursos, como a natação. E a última constatação é a de que , se a seleção do Brasil quiser continuar surpreendendo o país e  o  mundo, deve fazê-lo a base de muito esforço e dedicação, não confiando em números e estatísticas apenas. Porque, assim como aconteceu na África do Sul  de Mandela, somente surpreenderam aqueles que não foram surpreendidos.

6 de jun. de 2010

Abaixo a política bossa-nova


Novas eleições. Novas promessas, novos planos, novos projetos; certamente somente alguns sairão dos discursos inflamados e do papel timbrado. Neste momento em que todos respiramos de modo incomum (se tratando de Brasil) esta atmosfera de cidadania, de coletividade, de zelo pelo que é público precisamos ter em mente que a participação política nunca acaba, nem é uma festa ocorrida de dois em dois anos, apenas. A política transpassa a esfera do jogo do poder, ela está inserida em gestos e ações que, a primeira vista, não demonstram o mínimo elo com os destinos do país - por consequência,  com nossos próprios destinos. A verdadeira política não combina com contemplação, nem com passividade.

A vida política é de todos - dos eleitos democraticamente para cargos executivos e legislativos ou dos cidadãos que não são filiados a nenhum partido político. A vida política está no exercício da cidadania (palavra tão dita, mas tão pouco praticada), na busca por soluções para o bem comum. Participar da vida política é exigir dos nossos representantes que o dinheiro público seja gerido de modo racional, evitando-se desperdícios e utopias que esvaziam os cofres e trazem injustiças para a maioria da população. Devemos pensar que a política, apesar de repetidamente ter sido instrumento de autossatisfação de alguns que detem currais eleitorais há décadas, é o instrumento ideal para que tenhamos uma sociedade mais justa e integrada.

A vida política não é sectária, apesar da pluralidade de partidos. Esta pluralidade é a representação de que o ideal político não pode ser aliado à individualidade. É um engano o pensamento como  aquele do cidadão que diz que não quer saber de política, pois tem muito  o que fazer e não tem tempo para tal 'excentricidade'. Ele pode não ter uma vida política eletiva ou militante, mas tem uma vida política - em seu cotidiano, por meio de atitudes, pelo meio de ações que visam o bem estar coletivo. Se o serviço de coleta de lixo, por exemplo é deficiente, é dever do estado torná-lo eficiente; mas para isso o cidadão deve também ter o dever de cobrar um serviço bom. Daí podemos concluir que não há direitos sem deveres na esfera da vida política.

O Brasil tem passado por bons momentos de crescimento e prosperidade, o que não é suficiente. Ainda as injustiças de séculos permeiam a vida cotidiana, algumas mais expostas, outras menos. A violência contra mulheres e crianças ainda é alta e a impunidade a favor de seus agressores também. A miséria, apesar de ter diminuído, tem ainda  força nas grandes cidades e também em bolsões de pobreza pelo interior. A vida nas cidades grandes está se tornando cada vez mais impraticável com seu trânsito caótico e falta de espírito cidadão; já no interior são crescentes os números da violência. A cada dia que passa estamos nos aquartelando em residências falsamente protegidas. A educação ainda é um privilégio, assim como atendimento médico digno. Estes são apenas alguns dos problemas que atingem a todos - se bem que nem todos os cidadãos, inclusive aqueles que deveriam ser considerados 'esclarecidos' percebem. Para saná-los não existem fórmulas prontas, somente com esforço coletivo, com uma mentalidade política poderemos vislumbrar algo melhor. A democracia tem um preço, e o preço é a vigilância, mas a vigilância do dia-a-dia, do cidadão que sabe de seus direitos e deveres, que não se ilude com discursos e que sabe que é componente indispensável para a construção de uma sociedade mais equalitária.


25 de abr. de 2010

O sutiã e a sustentabilidade

Há alguns anos atrás a televisão brasileira tinha na publicidade veiculada nos intervalos de seus programas um teor de criatividade muito mais eficiente do que o atual. Poderia haver menos recursos tecnológicos para filmagens ou ainda poucos efeitos especiais disponíveis numa época pré-internet. Mas mesmo assim os comerciais dialogavam com o telespectador de modo único, fazendo parte até mesmo da cultura nacional. Inúmeros comerciais daqueles tempos com seus slogans e jingles ficaram na memória dos telespectadores-consumidores de produtos e serviços veiculados. 

A publicidade valia-se de slogans criativos e marcantes que podiam ser notados em frases como 'bonita camisa, Fernandinho', passando pelo anti-caspa 'parece mas não é', ou o bancário 'o tempo passa, o tempo voa'. Somado a isso, havia um repertório de personagens - sim, a publicidade teve em momentos passados uma característica narrativa - que perduraram por anos e ainda são citados por aí. Havia o detetive do aditivo automotivo que procurava a 'gangue' de malfeitores que 'danificavam o motor do carro', num ótimo exercício de personificação. Também havia o 'comercial dos mamíferos' com crianças representando filhotes de mamíferos - um clássico da publicidade nacional. E finalizando temos o internacionalmente premiado 'comercial do primeiro sutiã' onde a protagonista - também conhecida como 'a garota do primeiro sutiã' representava a fase de transição para a idade adulta de inúmeras adolescentes, numa peça publicitária que ficou marcada pelo teor poético e singelo, mesmo numa época já de costumes liberais.

Entretanto os tempos são outros, os comerciais não tem mais jingles criativos, personagens, ou slogans que adentrem no dia a dia do idioma. Agora existe uma estagnação na criatividade, onde poderíamos citar os bancos e suas mensagens de 'sustentabilidade' que de certa maneira são insustentáveis, bastando observar as filas enormes nas agências com um consequente aumento no consumo de ar condicionado, não condizendo com as frases 'nós nos importamos com o meio ambiente'. O mesmo vale para a indústria automobilística que, sem nenhum constrangimento toma o discurso ambientalista em suas propagandas - basta lançar um carro com o selo 'eco' e a empresa se tornará 'amiga da natureza'. Isso não citando as propagandas com animais silvestres correndo ao lado dos carros ou, mais insensato ainda, carros urbanos transitando em local improváveis, tais como regiões montanhosas, riachos, trilhas. 

Existem inúmeros outros aspectos que facilmente são percebidos num comparativo entre a propaganda de tempos não tão distantes com a contemporânea. Nem na parte musical há cuidado, não existem mais canções bem elaboradas, pega-se uma música (internacional principalmente) e em trinta segundos tenta-se vender produtos e serviços com pinceladas de discursos esquisitos. Não há mais personagens consistentes em peças publicitárias. Não há mais espaço para a 'garota do primeiro sutiã' e a descoberta do novo mundo feminino representado pelo acessório que representa como poucos a feminilidade. Há apenas a pseudo-sustentabilidade em serviços e produtos e uma feminilidade forçada, que não reflete o caráter da mulher de modo real. Não que eu despreze o pensamento ecológico, mas penso que havia um aspecto duradouro nas mensagens publicitárias de antes. Trocaram o sutiã pela sustentabilidade falsa. E entre os dois, fico com o primeiro.

Fontes:

11 de abr. de 2010

Massas, cavalos e Eliane Cantanhêde


João Batista de Oliveira Figueiredo (1918-1999), último presidente durante o regime militar implantado em Abril de 1964, disse certa vez que preferia cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Esta frase foi tomada de assalto pela mídia e muito utilizada pelos adversários da 'redentora'. Não se sabe o contexto real em que foi dita - fala-se que foi uma resposta à pergunta de uma jornalista ao então presidente: 'O senhor gosta do cheiro do povo?'. Daí a resposta referindo-se aos cavalos. Figueiredo assumia publicamente esta imagem truculenta, anti-diplomática, obtusa. Certa vez, ele se recusou a comer cérebro de macacos num jantar em visita oficial à China -  depois  se justificou dizendo: "Eu já sou um macaco, porque iria comer aquilo?' Quando saiu da presidencia pediu para que esquecessem dele. Parece que foi atendido, mas suas gafes vez por outra encontram ressonâncias em discursos, geralmente ligados setores da  direita brasileira, esta direita que está cada vez mais reacionária.

Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo retratou bem esta ressonância vista periodicamente, principalmente na imprensa. As gafes 'figueiredianas' puderam ser relembradas na cobertura do lançamento da candidatura de José Serra à Presidência da República feita pela jornalista. Num vídeo do site Folha Online , Cantanhêde dá uma aula de jornalismo-tietagem, numa cobertura onde não esconde o entusiasmo por estar cobrindo o importante evento. Sem dúvida, foi importante. Entretanto a colunista da Folha deixa mostrar algo além do entusiasmo profissional-pessoal até certo ponto justificável, dependendo da ótica do observador. Este 'algo' desabonador é o ressurgimento do discurso de preconceito de classe, estratificador, recorrente em discursos daqueles que são contrários ao bem estar coletivo por meio de políticas estatais que beneficiem a todos, indistintamente. Um velho discurso 'casa grande e senzala' aliviado por nuances cantadas em verso e prosa neste país do futuro liderado por uma elite vergonhosa (mas não envergonhada por seus atos).

Ao reportar sobre a festa do lançamento da candidatura de Serra (que impressionou pela falta de organização,  pela confusão e pelo desbragamento nos discursos incomum entre tucanos), Cantanhêde citou o comentário de um 'assessor veterano' do PSDB que afirmou que o partido estaria virando um partido de massas, mas de 'massas cheirosas'. Completando, a colunista disse que os ônibus que trouxeram os partidários eram 'novinhos'. A colunista da Folha reproduziu a expressão - 'massas cheirosas' - como que saboreando as palavras, tal qual  o faria uma dondoca num evento do Jockey Clube de São Paulo ao passar a receita de um bolo para as colegas de bonança. Mas Cantanhêde não é dondoca, ela está mais para porta-voz de setores da direita que tem encontrado em veículos de comunicação, principalmente nos de São Paulo e Rio de Janeiro, um canal de divulgação de seus ideais antiquados, ultrapassados, que evocam tempos do atraso social e econômico, onde apenas poucos tinham acesso a serviços básicos assegurados por lei para todos.

Nas palavras entusiasmadas de Cantanhêde temos o ressussitar da mentalidade tacanha e opressora vinda desde os tempos das capitanias hereditárias, passando pelos senhores de engenho, chegando até os coronéis eletrônicos gerindo seus currais eleitorais.  Em suas palavras bucéfalas poderemos encontrar o suporte para os argumentos que fazem do Brasil um dos mais injustos em distribuição de renda no mundo.  No discurso 'figueirediano' do assessor tucano que   Cantanhêde reproduziu com prazer  há a personificação jocosa do desprezo e da insensibilidade elitista. Há a elite cheirosa, há os cavalos do jóquei (que devem ser tratados melhor do que o povo) há o povo - supostamente mal cheiroso. Cantanhêde faria melhor se apenas trocasse receitas de bolo no Jockey Clube. Mas evidente ela não faria o bolo, isso é trabalho de povo, das empregadas que viajam duas horas para chegar ao trabalho como sardinhas em lata nos ônibus velhos - ou como cavalos indo para o Jockey Clube.   

Foi dado o início para a corrida  presidencial. Isso é apenas uma pequena amostra do que vem por aí. Que possamos votar não como quem faz uma aposta, mas como quem faz algo consciente e que mudará - ou não - nosso futuro como país.


Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u719002.shtml