Douglas Rocha Almeida foi requisitado na agenda do presidente Lula esta semana de 15/01/2026. Motivo: ele é um ponto fora da curva de Gauss - e do Brasil - ao ter sido admitido no concorrido concurso pra o Itamaraty e já estar preparado para assumir as funções diplomáticas, isso sendo filho de pais proletários (mãe diarista e pai pedreiro). O feito foi exaltado por Lula em seu perfil do ''X'', onde destacou o fato de Douglas Rocha ter sido bolsista do Prouni , um dos carros chefes de seus três governos onde por meio de subsídios estatais, o aluno sem condições de arcar com uma mensalidade, é contemplado com isenção de curso em parcerias com instituições de ensino superior.
O fato é notável em si, num país de contradições como o Brasil, tanto na composição de uma narrativa da necessidade de políticas públicas inclusivas para estudantes de baixa renda, quanto para a apropriação de discursos favoráveis à meritocracia. Mas o mais notável é o fato de ter sido divulgado tendo na sua essência contradições em si mesmo, tanto no campo da ética quanto das leis que regem o sistema educacional.
O currículo de Douglas Rocha afirma que ele é graduado em Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília (onde segundo Lula, teria sido bolsista do Prouni) e em Letras na Universidade de Brasília, além de ter mestrado em Segurança Internacional e Defesa na Escola Superior de Guerra. A graduação em RI foi feita entre 2014 e 2018 assim como a de Letras.
É importante ressaltar que Douglas Rocha foi contemplado com bolsa Prouni e acesso ao ensino superior público no período anterior ao decreto 11.149 de 26 de julho de 2022; sendo assim, ao aluno matriculado no período pós-decreto é proibido cursar dois cursos seguindo a trajetória do ex-garçom.
O problema existente, que poderíamos classificar de ''impasse simbólico'' vem do fato de um bolsista de um programa governamental ter cursado - mesmo que no perído das graduações de Douglas não houvesse ilegalidade como há agora - dois cursos, que a priori poderiam ser reflexo de um exemplo de autodeterminação, esforço, etc exaltado pela postagem do presidente.
Se não houve ilegalidade no caso das graduações, há um forte componente ético que foi suprimido na propaganda governamental do presidente: afirmar que o notável feito de Douglas de ter sido aprovado no Instituto Rio Branco ter sido meramente devido ao Prouni soa como inverídico. Isso partindo do princípio que ele não foi só prounista mas também aluno de universidade pública.
Nisso mora esse impasse simbólico: Lula ao omitir que Douglas fez, legalmente à época, dois cursos numa empreitada que destoa do discurso meritocrático-proletário, visto que o empreendimento de fazer dois cursos superiores simultâneos é algo notado apenas em famílias médio-classistas, dá ares de disvirtuamento de um evento que poderia ser paradigma para outros jovens que se espelhassem na trajetória estudantil e pessoal de Rocha em suas variadas escolhas profissionais e, por que não, de roteiro de vida.
Há ainda a se acrescentar o fato de, a despeito dos exageros admissíveis em situações de emoção como essa, ter algo de impreciso e confuso no discurso de Douglas Rocha. Ele mesmo diz que trabalhou dos 15 aos 27 anos como garçom, algo que é questionável, pela duas graduações ao mesmo tempo - um feito ''hercúleo'', diga-se - sendo impossível ter trabalhado regularmente nessa função. Também há o mestrado na ESG em seu currículo, cursado entre 2019 de 2021, do que podemos deduzir que sua trajetória como garçom não poderia ter durado dos 15 aos 27 anos de modo pontual por ser vedado o trabalho com concessão de bolsas de mestrado.
Compondo essa trajetória, não podemos deixar de perceber discrepâncias na afirmativa de que Douglas teria entrado sem saber o que era e o que fazia um diplomata quando no ingresso no curso de Relações Internacionais (um dos motivos de ingresso é a carreira diplomática, mesmo que não exigido tal graduação no concurso), além da concomitância na graduação em Letras e diplomatas precisam ser versados em idiomas e há aí o senso de oportunidade inegável.
Fecha-se toda a narrativa do mérito individual associado com a propaganda governamental (propaganda no sentido clássico do que é e não como publicização de feitos governamentais) como algo não plenamente verossímil ou como uma estrutura frágil que junta à instituição estado um viés de anseios extremamente subjetistas (ascensão social, prestígio profissional, realização pessoal). A propaganda de estado, que assim como o individualizado marketing trata do fato como passivel de uma análise da realidade parcializada, pode ser útil em seus propósitos com suas delimitações conceituais. Ao misturar as duas, Lula patrocina o equívoco de fazer customizações da propaganda de estado fazendo do marketing individual um imperativo coletivo que não se sustenta, por falta de recursos causados por cortes nas verbas de instituições de ensino superior em seu próprio governo. E ao ligar o esforço individual à disponibilização da burocracia estatal para efetivação de seus tentos, Lula incorre o risco de criar a massificação da frustração a longo prazo, que é o material para eventuais episódios de líderes ou sistemas que venham usufruir desse sentimento coletivo para seus fins que historicamente pendem para o reacionarismo populista.