25 de mar de 2012

A adorada Adele

Se a cantora inglesa Adele, 21, tem em seus diferenciais - além do seu talento notório - o fato de não possuir o sex appeal, ou não ter talento para dança ou despreocupação com a própria estética (a cantora afirmou que não faz música para os olhos e sim para os ouvidos), o que realmente a destaca entre as outras cantoras contemporâneas de modo efetivo é o recorte de sua músicas. Um recorte que a faz singular no meio artístico.

Alguns afirmam que sua música é deprimente o que é improvável. Adele, a despeito de ter em seu repertório momentos de introspecção e tristeza, rejeita esse rótulo. Em Someone like you (Alguém como você), em momentos de intimismo raros na música de hoje ela afirma: ''Deixe para lá, eu vou encontrar alguém como você/ Eu não desejo nada, além do melhor para você / Não se esqueça de mim, eu peço, eu lembro do que você disse / Algumas vezes o amor permanece, mas em outras vezes o que resta são as feridas.''

Poucas vezes temos a possibilidade de presenciar um destacamento notável, tanto em relação à obra, quanto ao artista. Adele poderia ser confundida com uma colegial em um festival, com seu gestual contido, o jeito tímido, o anti-estrelismo. Ela parece renegar o veredito de Marshall McLuhan (1911-1980), pesquisador da teoria da comunicação. Em seu livro The Medium is The Message, de 1967 (O meio é a mensagem), o professor McLuhan afirma:

''O mundo instantâneo dos meios de informação elétricos (eletrônicos) envolve todos nós, de uma só vez. Nenhuma separação da composição é possível.''

Sob essa perspectiva de McLuhan, tudo se confunde em uma só composição, isso podendo ser levado para o campo da mídia, publicidade, artes. A sociedade influencia a publicidade, ou contrário? Vejamos as novas tecnologias visuais em 3D, um recurso que 'põe' o espectador dentro do contexto, fazendo-o participar de situações onde antes ele era passivamente um mero contemplador. Há uma fusão entre observador/leitor/espectador com o referencial artístico/literário/cinematográfico e televisivo. 

E nessa mistura é quase impossível de delimitar aonde termina a arte e começa o artista. A vida de artista no mundo contemporâneo é algo que se agrega à sua imagem, tornando pública suas virtudes e desvirtudes. Notícias sobre celebridades (de preferência 'reveladoras') abastecem um mercado lucrativo do mundo midiático. Artistas fundem-se com personagens de seus filmes, cantores não conseguem dissociar as performances do palco e imaginam estar em um ininterrupto festival, onde as estrelas são eles. Porém, um artista diuturno é algo possível?

Quando se ouve uma canção de Adele, tomando por exemplo a citada Someone like you, mesmo que o ouvinte não tenha vivido alguma desilusão semelhante àquela narrada da música, tem a percepção do aspecto autobiográfico da canção. Toma para si, vivencia, aprecia emoções juntamente com o teor intimista - intimista não por ser algo pessoal, mas por mostrar sentimentos universais em uma música justamente classificada como intimista.

Adele canta como uma pessoa (artista) que canta para outras pessoas (público). Aqui vale o destaque para a palavra público, com sua significação desgastada. Ela diz que tem medo de cantar em público (uma vez fugiu pela saída de incêndio) e não gosta de turnês. O que em um artista 'engajado' dentro do repertório do show business seria uma declaração narcisista e voluntariosa, em Adele soa natural, tal qual sua despreocupação com a estética não faça relevância para sua obra. O que importa é a voz e a capacidade de observação para novas composições. Enquanto seguir o que tem feito, terá público que apreciará suas músicas. Ele será mais levado pela qualidade de suas composições do que por outras características, como o mero impacto visual ou comportamental, induzindo o público a serem meros consumidores (fãs passivos) de produtos culturais que dispensem qualquer subjetividade em sua apreciação.



The Medium is the Message - An inventory of Effects, Marshall MCLuhan e Quentin Fiore, Bantam Books, New York, 1967