12 de mai de 2009

A mídia, a ciência e os dogmas


Na última semana, um caso de abuso sexual (pedofilia) ocorrido em Pernambuco reinou no noticiário nacional. Uma garota de nove anos, que havia sido molestada pelo padrasto desde os seis anos e por ele engravidada de gêmeos, foi submetida a um aborto, justificado legalmente. Logo, o que seria apenas um direito para a pequena cidadã pernambucana virou um fomentador para debates nem sempre pautados pelo senso crítico.

O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho afirmou em entrevistas para a imprensa que a mãe da menina estuprada pelo padrasto desde os seis anos, além da equipe médica, estavam automaticamente excomungados pela Igreja Católica, pois terem ferido o princípio do direito à vida. Inúmeras manifestações surgiram após a repercussão do caso da menina grávida de gêmeos que, além de estar desamparada à própria sorte vítima de um sistema social injusto, agora é também vítima de manipulações midiático-ideológicas, especulações metafísicas e da falta de senso que reina em terras brasileiras. Grupos feministas reagiram, assim como defensoras do aborto como prática que deve ser facultada à mulher. Grupos de médicos manifestaram seu apoio coorporativo aos colegas excomungados. Por fim, grupos religiosos contrários à Igreja Católica e aos seus dogmas - leia-se aqui, Igreja Universal do Reino de Deus - não perderam a oportunidade de execrar a rival em seus noticiosos televisivos em rede nacional. Todas essas reações são, infelizmente, resultado do próprio dogmatismo, da irreflexão, da parcialidade injustificáveis que reinam nesses vários segmentos da sociedade, inclusive no meio científico, na política e evidentemente na religião.

Dogmatismo permanece forte

O dogma (dokein - pensamento, crença, em grego) é a priori inerente ao intelecto, à análise da realidade, que a sistematiza e cria sistemas que direcionem o indivíduo, um grupo social, religioso, uma nação rumo ao aprimoramento e desenvolvimento contínuo. O dogma, portanto, não é - ou pelo menos não deveria ser - inflexível, irracional, resistente ao tempo e à história da humanidade. O próprio Cristo demonstrou isso ao criticar os que o acusavam de não guardar o sábado - uma das exigências mais latentes da religião judaica, uma demonstração de fé e respeito. Ele, dialeticamente, questionou os adversários com um argumento lógico - se, por acaso, algum animal de propriedade de um deles caísse num poço, ele seria retirado por eles apenas no fim do descanso sabático? Este foi um argumento irrefutável que questionava o dogma do sábado como dia em que as atividades humanas mais urgentes eram rigorosamente proibidas.

Iniciemos analisando a Igreja Católica. Historicamente, sabemos dos excessos, das desumanidades e do obscurantismo que reinaram por vários séculos até serem soçobrados em favor do humanismo e da ciência. Inúmeras vidas pereceram por defenderem pontos de vista, apresentarem descobertas cientificas e linhas de pensamento contrários ao clero católico. A Igreja sempre foi regida por dogmas que desafiaram e continuam desafiando muitas vezes o desenvolvimento da humanidade.

Após o Iluminismo, a crença na razão sobrepujou o pensamento místico reinante até então e a ciência desvinculada de dogmas religiosos assumiu de certa forma o espaço deixado pela crença no sobrenatural. Mas depois de séculos à mercê da razão, porque o dogmatismo ainda permanece tão forte entre nós, principalmente em setores que se imagina serem incompetentes ao obscurantismo?

Necessidade do retorno à razão

Peguemos, por exemplo, a medicina, onde os avanços científicos parecem mais visíveis à maioria da humanidade. Os descobrimentos sobre novos tratamentos, as pesquisas e tratamentos contra vetores de doenças que há pouquíssimo tempo pareciam inimagináveis, hoje são noticiados pela mídia com alarde. A ciência caminha triunfante, mas parece caminhar cega, pois tem ocupado inúmeras vezes, dogmaticamente e irreflexivamente, uma trilha temerosa para todos nós, seus discípulos. Se antes a Igreja tinha o selo papal na aprovação do que era de acordo com seu pensamento, atualmente a ciência ensimesmada pensa ser irrefutável, infalível.

Vejamos alguns fatores que denunciam tal afirmativa. O Brasil tem um dos maiores índices de transplantes de coração do mundo, atrás apenas dos EUA. As pesquisas com células-tronco estão na pauta dos debates nacionais. Mas todo este avanço é anulado pela visão arrogante que só dogmatismo científico é capaz de provar. Foi-se o tempo da ciência a serviço do bem do homem; de serva, tornou-se senhora, hiper-especializada, incapaz de observar o que acontece ao redor de si.

Voltemos ao caso da medicina. O Brasil é referência em excelência de transplantes de coração, mas é ainda sofre com o mal de Chagas, um dos grandes causadores de problemas cardíacos. A dengue é outro flagelo que é tido como pouco importante nos meios de saúde. Em outro contexto, temos vários médicos formados sob a tutela do erário que abastecem as clínicas de cirurgia plástica brasileiras a serviço de socialites, das atrizes que sairão nos próximos números da Playboy e serão presença confirmada na Marquês de Sapucaí. A partir daí, questiona-se: a medicina estaria cumprindo o papel social a que se propôs desde seus primórdios? Se possível, teríamos outros inúmeros exemplos de dogmatismo em várias áreas do intelecto humano, como a economia e seu catequismo neoliberal, a psicologia e seu reducionismo para os problemas do homem, as ciências políticas e as nefandas e deturpadas tentativas de implementação de sistemas como o comunismo ou mesmo o nazismo.

O caso da menor estuprada, relegada à sorte e ao desprezo do dogmatismo, é apenas uma amostra de que necessitamos urgentemente de resgatar o pensamento crítico plural, agregador, desprovido de posturas tendenciosas, corporativistas, irracionais, que ainda pairam entre nós, sendo responsáveis por nosso atraso a caminho da civilização. O dogmatismo isola, desagrega. A reflexão agrega e, somada por várias vertentes, tem um papel na construção de nossos destinos. Esse episódio pode ter uma finalidade, que é despertarmos para a necessidade do retorno à razão - razão esta que pode ser encontrada até em contextos inimagináveis para a reflexão, como na religião.


Publicado no Observatório da Imprensa em 10/03/09




2 comentários :

Marionete Sagaz disse...

Fui católica praticante. Participava de novenas, missas, era anjinho nas coroações etc. Foi uma época boa, mas fui me distanciando à medida que não obtinha respostas concretas para minhas dúvidas.

Busquei as tais respostas em todas as religiões que você possa imaginar, mas foi inútil, cada uma tinha uma história mais fantástica que a outra! Para minha felicidade, com o passar dos anos (e com os estudos) encontrei um certo alento na ciência.

A transição para meu atual ceticismo foi difícil, afinal, foram quase duas décadas no meio religioso... Dizer que estou 100% satisfeita não é verdade, mas pelo menos em 80% dos casos a ciência respondeu (e comprovou) o que eu queria/deveria saber; até o momento, estou contente com a não-ficção.

Marcos Vinicius Gomes disse...

O problema nessa discussão é cairmos naquele reducionismo da dicotomia ciência X religião. O maniqueísmo na classificação dos céticos como 'não-ignorantes' e crentes como 'alimentadores das trevas do pensamento' é algo que traz uma irracionalidade que a princípio não deveria haver. A ciência também pode e deve ser questionada, sem panfletagem, assim como a religião de ser revista. A religião com certeza é um dos referenciais de poder - assim como a ciência o é de certo modo - mais arraigado em nosso cotidiano, mas poderíamos dissociar nossas crenças de dogmas religiosos, talvez assim ficaríamos mais confortáveis em nossas buscas e procuras por respostas, que podem não estar necessariamente ligadas ao processo de descobertas científicas. Como disse Paul Feyerabend devemos levar em consideração que “A ciência é um dos muito modos de pensar desenvolvidos pelo homem, mas não necessariamente o melhor”.